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“Peço desculpa por dizer isto, mas em Portugal é tudo muito lento, muito lento”

Robert Yildrim anuncia hoje novos investimento no país. Diz que em Portugal todos sorriem muito, mas os projetos não avançam

Tiago Miranda

O grupo turco que lidera a atividade portuária em Portugal quer reforçar o investimento no país, Apesar de reconhecer que as coisas “não estão a correr tão bem como previsto” por causa das greves, mas não só, tem planos para aplicar 450 milhões de euros entre Leixões e Lisboa. As relações com o Governo “são muito boas, mas as coisas não acontecem. São amigáveis. Sorriem muito. Mas os projetos não avançam”

Robert Yildrim, presidente do grupo Yildrim, quer investir 450 milhões de euros em Portugal. Quando fala dos seus projetos para o país arredonda o número para 500 milhões, mas diz que por aqui é tudo muito lento e os processos demoram a avançar. As obras em Leixões começam com um ano de atraso. Em Lisboa, também há uma ligação direta a Nova Iorque à espera de obras. “Sabemos o que é preciso fazer e como fazer, mas sem autorizações não podemos avançar e não temos tido esse apoio para avançar rapidamente”, diz o turco que lidera a atividade portuária em Portugal numa entrevista ao Expresso no dia em que está em Matosinhos para mostrar que quer reforçar a presença no país e pôr Leixões a competir com Barcelona.

O que vem anunciar hoje, no Porto de Leixões?
Vamos apresentar um investimento de 43 milhões de euros na expansão do Terminal Sul de Leixões, a par do prolongamento da concessão por mais 5 anos (até 2035). E a intenção de investir mais 200 milhões de euros neste porto.

Para aumentar a capacidade do porto?
Queremos aumentar a capacidade do porto em termos de movimento de carga, mas também queremos criar condições para o porto receber navios maiores, de 10 mil ou 16 mil TEU (unidade de medida de referência de um contentor). Leixões está a tornar-se um porto importante na região e no grupo Yilport. Conhecemos o seu valor e queremos torná-lo mais competitivo face aos portos espanhóis.

Quer aumentar a área de influência de Leixões na Península Ibérica?
Queremos competir com Barcelona e com o norte de Espanha. O Porto de Leixões tem uma localização única. Infelizmente, hoje, não a podemos aproveitar devidamente porque não temos infraestruturas para acomodar os barcos maiores. Por isso vamos pedir às autoridades portuguesas para avançar com este investimento adicional de 200 milhões.

Já tinham programado um investimento de 200 milhões em Lisboa...
Sim, e continua nos nossos planos. Ao todo, temos projetados investimentos de 500 milhões em Portugal num período de 5 anos, se as autoridades receberem bem os nossos projetos. É um processo em que os dois lados saem a ganhar porque investir significa criar valor para a comunidade, desenvolver a economia, gerar emprego, desenvolver a parte logística.

E não significa prolongar as concessões?
Claro que o nosso interesse é estender as concessões. Gostamos de Portugal e queremos investir em infraestruturas no longo prazo. Precisamos de tempo para construir negócio e ter retorno. Será preciso tempo para as empresas de navegação perceberem que podem trazer barcos maiores.

Quantos empregos vão criar em Leixões?
Não tenho esses números. Imagino que podemos estar a falar de 200 pessoas na fase de obras e umas 100 pessoas depois disso.

As obras no Terminal de Contentores devem acabar em 2021. E as do novo Terminal?
Se tudo correr bem, depois das autorizações todas, podemos concluir os trabalhos em 3 anos. O nosso problema é ter as autorizações todas para avançar. Peço desculpa por dizer isto, mas em Portugal é tudo muito lento, muito lento. Os trabalhos em Leixões já deviam de ter começado há um ano. Tivemos de esperar um ano por uma assinatura que era necessária. Não consigo compreender. Nós queremos investir em Portugal, mas para isso precisamos de abertura e apoio do governo.

As relações são difíceis?
As relações são muito boas, mas as coisas não acontecem. São amigáveis. Sorriem muito. Mas os projetos não avançam e isso não é bom para quem quer investir em Portugal como nós.

Quer dar um exemplo desse lado mais negativo numa experiência de 3 anos em Portugal?
Em Lisboa, precisamos de novas gruas para receber barcos maiores e até temos um novo serviço para trazer uma ligação direta a Nova Iorque pronto a avançar, mas o porto não está preparado. E não podemos comprar gruas novas, maiores, porque a infraestrutura não aguenta. Precisa de obras. Quando ficámos com as concessões, sabíamos que os terminais exigiam muito investimento. O problema é que sabemos o que é preciso fazer e como fazer, mas sem autorizações não podemos avançar e não temos tido esse apoio para avançar rapidamente.

Em Leixões as coisas foram mais fáceis do que em Lisboa?
As coisas começaram mais depressa, mas ainda há coisas para resolver.

Problemas com o projeto? Com o financiamento?
O projeto está aprovado, mas os bancos querem a inclusão de uma frase no acordo de concessão e a autoridade portuária diz que Governo é que deve assumir a responsabilidade (no caso de algo correr mal) e o Governo diz que é a autoridade portuária que deve assumir, tal como em Lisboa. E eu não compreendo o problema.

Mas então porque fazem a cerimónia nesta altura?
É um passo para mostrar à comunidade e às autoridades que somos investidores e queremos reforçar a nossa presença aqui. A cerimónia é boa para o Governo, que assim mostra às pessoas que há investimento estrangeiro, da Turquia. E a banca, assim, vê que o projeto arranca.

Como é que as greves dos estivadores afetaram a vossa operação, em especial em Setúbal?
Afetaram muito. Perdemos clientes e volume em Lisboa e Setúbal. Houve algum volume desviado para Leixões que poderá voltar, mas há perdas, designadamente para Sines, que serão difíceis de recuperar.

Na altura falou-se de incumprimento de regras na operação portuária, da necessidade de uma maior fiscalização das autoridades. Teve contactos com o Governo português sobre isto?
Não. Sempre me disseram que a greve não tinha a ver connosco e era um protesto contra o governo.

Investir em Setúbal pode ser uma opção, depois do conflito com os precários no final do ano passado?
Não quero comentar mais essa questão porque não estive envolvido.

Mas a paz social que Leixões tem vivido foi decisiva na decisão de investir neste porto?
Não. Invisto porque quero crescer e vi oportunidades em Portugal. Quando a Mota-Engil estava com dificuldade em vender as concessões vimos uma boa oportunidade. Considero que foi um bom investimento apesar de não estar a correr tão bem como previsto por causa das greves e da lentidão com que as coisas avançam.

Quando entraram em Portugal, há três anos, assumiram o objetivo de estar no top 10 dos maiores operadores portuários do mundo até 2025. A meta está à vista?
Estamos em 12º lugar e estamos muito ocupados na nossa expansão. Estamos a trabalhar no duro para chegar à 10ª posição. Temos investimentos em curso ou em fase de conclusão na Turquia, na Suécia e no Equador, além de Portugal. Estamos a negociar aquisições nos EUA e no Canadá. Vamos assinar um contrato de concessão em Itália. Temos uma capacidade de 11 milhões de TEU e o nosso programa de investimentos a nível mundial ronda os mil milhões de euros.