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Vítor Constâncio: “Até 2007 é difícil responsabilizar o laxismo orçamental pela crise”

Ex-vice presidente do BCE está no ISEG esta tarde numa conferência sobre os 20 anos do euro. Sobre a crise da zona euro, recusa as explicações com base nos défices orçamentais ou na subida de preços e salários na periferia

João Silvestre

João Silvestre

Editor de Economia

Vítor Constâncio considera que as narrativas sobre a crise na zona euro que a justificam com desequilíbrios orçamentais excessivos ou com perda de competitividade por subida de salários e preços na periferia “não são corretos”. O ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) está neste momento no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) a realizar uma conferência intitulada “Os 20 anos do euro".

Constâncio sublinha que, na sua opinião, a narrativa correta explica a crise com base na instabilidade dos mercados financeiros e em fenómenos de paragem súbita ('sudden stops'). “Até 2007 é difícil responsabilizar o laxismo orçamental pela crise”, refere o ex-banqueiro central.

Apesar de ser um ex-banqueiro central e de ter estado numa das instituições da troika que interviu em vários países, Constâncio não tem dúvidas ao atirar as culpas desta recaída na crise à “consolidação orçamental excessiva em 2011/2012”. Traz mesmo consigo estimativas para ilustrar este ponto com base num artigo publicado pela Comissão Europeia. A consolição orçamental simultânea de sete países da moeda única custou entre 3,9% e 8,1% ao PIB de um conjunto de economias da zona euro em 2013. E o impacto acumulado para o período 2011-2013 variou entre 8,1% e 18%. Portugal teve um impacto de 6,9% em 2013 e 15,3% nos três anos.

A resposta à crise e a sua narrativa principal, explica Constâncio, resultou do cruzamento de duas correntes de pensamento económico: os novos clássicos (corrente nascida na década de 70 liderada por nomes como os Nobel Robert Lucas ou Thomas Sargent) e o ordoliberalismo (a doutrina dominante na Alemanha e que tem a sua ‘sede’ no Bundesabank). As duas explicações da crise baseavam-se na ideia de que foram políticas orçamentais descontroladas e os salários e preços a subirr demasiado prejudicando a competitividade .

As “duas teorias não são corretas”, diz Constâncio que prefere olhar para o problema a partir de uma paragem súbita nos mercados financeiros que, subitamente, saíram dos países da periferia. E isso aconteceu, refere, porque "foi ignorado o papel dos mercados financeiros na economia".

Sobre o futuro da zona euro, avisa que há riscos e pede reformas como a concretização da União Bancária (incluíndo um fundo de resolução europeu), a criação de um fundo de estabilização europeu ou o lançamento de um ativo seguro europeu que substitua parte da dívida pública no balanço dos bancos.