Economia

Auditoria revela buracos da CGD em crédito de risco e negócios ruinosos

27 janeiro 2019 18:00

Miguel Prado

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Jornalista

Abílio Ferreira

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Auditoria cobriu o período de 2000 a 2015

Em quase meia centena de créditos de risco a Caixa emprestou 2,96 mil milhões de euros e perdeu 1,2 mil milhões. Auditoria da EY mostra ainda os investimentos em que o banco público perdeu dinheiro. E traça um quadro de prémios de gestão sem critérios claros

27 janeiro 2019 18:00

Miguel Prado

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Abílio Ferreira

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Em 46 financiamentos de risco médio a elevado, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) concedeu 2,96 mil milhões de euros de crédito, dos quais 1,2 mil milhões de euros já tinham sido dados como perdidos nas contas do banco estatal no final de 2015. A lista de devedores, compilada pela auditora EY, é diversificada, mas os problemas da Caixa não ficam por aí. Decisões de investimento que se revelaram ruinosas custaram centenas de milhões de euros à CGD, envolvendo várias administrações.

O relatório da auditoria à CGD com data de dezembro de 2017, que a comentadora política Joana Amaral Dias revelou no domingo na CMTV e que o Expresso sabe tratar-se de uma versão preliminar, lista 46 créditos que, entre 2000 e 2015, agravaram os riscos da carteira de financiamentos do banco público.

Três situações foram detetadas pela EY como graves: os 350,8 milhões de euros financiados à Artlant para desenvolver o complexo petroquímico da espanhola La Seda em Sines. Este investimento, que avançou no Governo de José Sócrates, levou a CGD a registar imparidades de 211 milhões de euros até 2015.

Outros dois empréstimos tiveram custos avultados para a Caixa e foram registados pela EY como graves para a exposição da CGD a créditos de risco: os 88,8 milhões de euros financiados à Birchview e os 80,8 milhões emprestados à QDL, sociedades interligadas que pretendiam construir um empreendimento imobiliário no Algarve. Ambos os créditos foram objeto de imparidades por 30% do seu valor no final de 2015, o que implicou que nessa altura já a Caixa tinha tido perdas de 50 milhões com este empreendimento.

A EY detetou ainda 13 operações de risco elevado para a CGD, em que se incluíram os 267,6 milhões de euros financiados à Fundação Berardo (que até dezembro de 2015 tinham prejudicado as contas do banco estatal em 124 milhões) e os 138 milhões adiantados à Investifino para o empresário Manuel Fino comprar ações da Cimpor (dados como totalmente perdidos pela Caixa em 2015, com imparidades de 100% do crédito concedido).

Muitos dos créditos de risco da CGD foram dados, ao longo de década e meia, ao sector da construção, que foi sendo marcado por diversas insolvências.

A EXPOSIÇÃO À CONSTRUÇÃO

A FDO, a maior construtora de Braga, foi das primeiras a abrir falência, logo em 2012. A banca não lhe deu uma segurada oportunidade e seguiu para liquidação. A CGD registou 3 milhões de euros de perdas.

Outro devedor da Caixa foi a Obriverca. A construtora fundada por Luis Filipe Vieira, presidente do Benfica, e Eduardo Rodrigues colapsou há dois anos e está em liquidação. A CGD registava em 2015 um financiamento de 19,8 milhões e reconhecia imparidades de 19,8 milhões.

Também na lista de devedores do banco estatal estão a MSF SGPS e MSF Engenharia. A construtora declarou insolvência em dezembro passado, depois de reconhecer que não tinha capacidade para cumprir o plano de revitalização aprovado pelos credores um ano antes. Novo Banco e BCP são os principais lesados bancários. A CGD era credora de 25 milhões e já imparizara 15 milhões.

A Opway, construtora do Grupo Espírito Santo, aderiu ao processo de revitalização em 2014, mas entrou em declínio acentuado, sem cumprir os compromissos. Seria adquirida no fim de 2017 pela Nacala Holdings, que já ficara com a Elevo, o grupo que resultara da fusão de quatro construtoras realizado pelo fundo Vallis. Está em atividade, mas a situação é periclitante. A CGD emprestou 88,3 milhões e já reconheceu 87% como perdido até 2015.

A lista contempla ainda o grupo Lena. Está há dois anos a renegociar a dívida com os principais bancos credores. Entrou na plataforma do crédito problemático. Permanece em atividade no exterior, em Portugal é residual. A CGD é credora de 48,7 milhões e imparizara já 37,5% em 2015.

A Elevolution, holding do grupo Elevo, criado pelo fundo Vallis, é um devedor pouco relevante. Eram 6,7 milhões de crédito, com 5% imparizado no final de 2015.

A Construções Lagarça, uma pequena construtora de Albufeira, permanece em atividade, regista uma dívida de 6,9 milhões e perdas reconhecidas de 35% nas contas da Caixa.

Trabalho da EY deixou várias recomendações de melhorias à Caixa

Trabalho da EY deixou várias recomendações de melhorias à Caixa

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INVESTIMENTOS RUINOSOS

O relatório da EY aponta vários investimentos que se revelaram ruinosos. Entre eles está a aquisição de uma participação no banco BCP, que gerou para a CGD perdas de 595 milhões de euros.

Sobre este negócio, a EY sublinha que em 2008 o conselho de administração da CGD tomou uma decisão de investimento adicional no BCP que era contrária a um parecer técnico de um outro departamento do banco estatal.

A EY também contabiliza em 15 milhões de euros as perdas da CGD com a sua participação na Vista Alegre Atlantis, mas reconhece que no investimento que fez na Brisa a Caixa ganhou 11 milhões, tendo ainda conseguido ganhos de 60 milhões de euros na Cimpor.

O relatório analisa ainda diversos investimentos financeiros da Caixa ao longo de década e meia. Aquele em que o banco estatal perdeu mais dinheiro foi uma operação de obrigações denominada Caravela, que gerou perdas para a CGD de 340 milhões de euros.

Segundo o documento da EY, a CGD perdeu ainda com várias apostas em fundos de risco, dois dos quais ligados ao falido Lehman Brothers: a CGD perdeu 1 milhão com o veículo Anthracite Invest e 38 milhões com o Xelo Diamond.

PRÉMIOS DA GESTÃO SEM REGRAS

A auditoria da EY aos atos de gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2000 e 2015 revela que durante vários anos os administradores executivos do banco estatal tiveram remunerações variáveis sem critérios claros. “Em particular no período 2000-2008 não foi obtida evidência dos princípios orientadores para a remuneração variável aplicada, concluindo-se que as decisões foram tomadas de forma avulsa”, lê-se no relatório preliminar da auditoria.

O documento nota que no capítulo das remunerações dos gestores entre 2000 e 2008 “mesmo perante resultados negativos foi decidido atribuir remuneração variável e emitido voto de confiança”.

A análise da EY sublinha que até 2015 “a CGD não dispôs de uma política remuneratória” para a administração executiva. E refere que a auditoria não permitiu identificar uma relação entre os objetivos de resultados, dividendos e solvabilidade e a remuneração variável paga aos gestores da Caixa.

No seu relatório a EY refere ainda que “as decisões de remuneração não continham elementos que contribuíssem para alinhar os incentivos dos gestores com o objetivo de longo prazo da instituição”. Em concreto, diz a auditora, “a componente variável não era diferida”. Só em 2009 foi aplicado um princípio de diferimento de 50% da componente variável da remuneração. Mas, observa a EY, “não foi estabelecida qualquer condição entre o pagamento desta componente e a avaliação de desempenho dos administradores”.

Entre as recomendações da EY para a CGD está a implementação de uma política remuneratória que alinhe os fatores de determinação da componente variável com o desempenho de médio e longo prazo.

Além disso, a auditora também recomenda cláusulas que permitam à CGD responsabilizar os gestores pelas decisões passadas. “A implementação destas medidas poderia ter contribuído para um processo de decisão de crédito mais sustentado e atento ao risco”, conclui a EY.