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Robôs destroem 440 mil empregos na indústria e comércio até 2030

A automação poderá eliminar 1,1 milhões de empregos em Portugal nos próximos 11 anos, 40% dos quais na áreas da indústria transformadora e do comércio, revela estudo da CIP que será hoje divulgado

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Até 2030, Portugal poderá perder 1,1 milhões postos de trabalho como resultado direto da automação, maioritariamente em áreas como a indústria transformadora e o comércio que concentrarão 40% das perdas, num total estimado de 440 mil empregos afetados. Esta eliminação de postos de trabalho poderá ser compensada pela criação de entre 600 mil a 1,1 milhões de novos empregos em sectores como a saúde, assistência social, ciência, profissões técnicas e construção. Os dados constam de um estudo da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), realizado em parceria com o McKinsey Global Institute e a Nova School of Business and Economics que será divulgado esta manhã durante a conferência “O Futuro do Trabalho em Portugal” que decorre no Museu da Eletricidade.

Os cálculos apresentados têm por base um cenário em que 26% do tempo trabalhado atualmente nas empresas portuguesas será automatizado. Mas segundo o estudo, “50% do tempo despendido nas atuais atividades laborais poderia ser automatizado com as tecnologias hoje existentes, o que representa um elevado potencial de automação de Portugal, quando comparado com outros países”. O relatório acrescenta que em onze anos essa percentagem poderá chegar aos 67% do tempo de trabalho em 2030. Mas nesse cenário, a taxa de adoção da tecnologia será mais baixa seja por questões de viabilidade técnica, custo de desenvolvimento tecnológico, custo do trabalho ou até por questões regulatórias e sociais.

O estudo compara o potencial de automação nacional com sete outras geografias (Japão, China, Itália, Espanha, Estados Unidos, França e Noruega) e Portugal só é superado pelo do Japão, onde 53% do tempo despendido em atividades laborais poderá ser substituído por soluções tecnológicas existentes. Esta maior exposição nacional aos riscos de automação é justificada com o peso da indústria transformadora na economia nacional (16% do emprego total) e das tarefas repetitivas que ainda são desempenhadas, manualmente, em diversos sectores de atividade.

No total, 75% dos empregos eliminados pela automação em Portugal estarão relacionados com tarefas altamente repetitivas, como a operação de maquinaria, tarefas administrativas e todas as que representem interação com o cliente.

Automação total é residual

Apesar deste cenário, poucas funções terão um potencial de automação total. As estimativas dos autores do estudo apontam para que apenas 2% das profissões em Portugal possam ser 100% substituídas pela tecnologia. Entre elas estão operadores têxteis, nomeadamente costureiras, e operadores de linhas de montagem. Ainda assim, cerca de 60% dos profissionais poderão ver 30% das suas tarefas automatizadas. Condutores de autocarros, assistentes de enfermagem, agentes de viagens e assistentes de armazém estarão entre os mais afetados.

As funções repetitivas e com elevado potencial de automação (onde mais de 70% do tempo de trabalho gasto em cada atividade poderia ser realizado por máquinas) consomem inúmeras horas de trabalho e em Portugal representam 52% do tempo de trabalho nacional. O relatório defende que 75% do tempo gasto a desenvolver atividades braçais/físicas poderia ser automatizado. Da mesma maneira que 70% do tempo gasto em atividades relacionadas com a recolha de dados – como as desempenhadas por contabilistas e assistentes jurídicos – pode ser assegurado pela tecnologia. As atividades relacionadas com a gestão são as menos ameaçadas pela automação. Só 9% das horas de trabalho poderiam ser asseguradas pela tecnologia, pela especificidade e competências emocionais de relacionamento interpessoal que a automação ainda não consegue assegurar.

37,5% dos trabalhadores terão voltar à escola

No cenário avançado pelo relatório, 37,5% da população empregada (1,8 milhões de trabalhadores) necessitarão de melhorar as suas competências até 2030 ou mudar de emprego. O que, reconhece o estudo, “coloca desafios significativos que exigirão um papel ativo do Governo e do sector privado no processo de reconversão da força de trabalho”. O documento sugere que para que o país possa minimizar os desafios decorrentes desta transição e aproveitas as oportunidades que a transformação digital da sociedade apresenta, “impõe-se uma avaliação de novas políticas públicas e um eficaz plano de requalificação da sociedade, num esforço conjunto entre sector público, empresas e instituições de educação e formação”.

E estes desafios não são idênticos em todos os sectores. Indústria, comércio, transportes, funções administrativas e de públicas e agricultura. Estão entre os sectores onde o impacto da automação na destruição de emprego mais se fará sentir.

Na análise comparativa com os restantes países considerados no estudo, seja num cenário de substituição de 26% ou de 67% do tempo trabalhado por tecnologia, o nível de destruição de emprego perspetivado para Portugal é maior do que noutras economias. Os salários são o que mais influencia esta diferença. Maiores salários tornam a automação mais atrativa para as empresas.

O estudo que analisa o impacto da automação na evolução do emprego em Portugal, avaliou 800 ocupações e cerca de duas mil tarefas desempenhadas em diversos sectores. Foram identificadas ainda as 18 competências de base necessárias ao desempenho de qualquer posição e qual a capacidade de automação de cada uma.