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Benefícios extrassalariais: O que os profissionais querem as empresas não dão

A flexibilidade de horários e o trabalho remoto estão entre os benefícios mais valorizados pelos profissionais

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Empresas estão a reforçar benefícios extrassalariais para combater a crise de talento qualificado. Mas as suas prioridades não são as mesmas que as dos trabalhadores

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Nos últimos anos a clivagem entre as intenções de recrutamento das empresas e a disponibilidade dos profissionais qualificados para integrar novos projetos acentuou-se, não só em Portugal mas também a nível global. O talento é hoje um bem escasso, e 2019 não deverá inverter esta tendência. Com as consultoras de recrutamento a anteciparem um reforço nas contratações para este ano e a perspetiva de um aumento de projetos internacionais virem a fixar-se no país, a guerra pelo talento deverá agravar-se em Portugal sobretudo em áreas como as Tecnologias de Informação e algumas especialidades de engenharia, onde as organizações já vêm denunciando sérias dificuldades de contratação. Entre as empresas é convicção dominante que os salários, embora pesem nos processos de contratação, deixaram de ser o único ‘trunfo’ para atrair os melhores profissionais, até porque quem trabalha tem hoje exigências que vão muito além do aspeto financeiro. Para contornar o problema da escassez de talento e as dificuldades de retenção de profissionais as empresas estão a reforçar os seus pacotes de benefícios extrassalariais. Os recrutadores antecipam um reforço da relevância destes benefícios, mas alertam para o facto de as empresas poderem estar a oferecer regalias que os profissionais não valorizam, falhando assim as ambições de contratação.

Complementos de subsídio de doença, planos médicos, seguros de acidentes pessoais e de vida, planos de pensões, dias de férias extra, comparticipação em despesas de educação e política automóvel estão entre os principais benefícios hoje oferecidos pelas empresas em Portugal. Uma prática de incremento salarial que ganhou maior expressão no período de crise económica, altura em que “muitas empresas apostaram em benefícios extrassalariais que lhes permitiam atrair talento sem elevados custos fixos”, explica Álvaro Fernandéz, diretor-geral da multinacional de recrutamento Michael Page em Portugal. Carlos Maia, diretor regional da consultora Hays Portugal, refere também que nessa altura, “os benefícios eram apresentados como uma alternativa interessante para compensar a estagnação salarial e tinham uma grande importância para os profissionais na negociação de uma proposta de emprego”

Com a entrada no período de recuperação económica, os benefícios não perderam relevância. Antes pelo contrário, tornaram-se o principal argumento na retenção de talento nas organizações, numa altura em que a escassez de profissionais se tornou crítica e em que “o mercado de trabalho passou a ser liderado pelos candidatos”. Argumenta o diretor regional da Hays que as empresas foram forçadas a “perceber as motivações e os benefícios pretendidos pelos profissionais qualificados e as políticas de benefícios extrassalariais tornaram-se, além de uma mais-valia, uma enorme necessidade para a retenção e atração de talento”.

TRABALHADORES E EMPRESAS NÃO PROCURAM O MESMO

Mas nesta avaliação, reconhece Carlos Maia, as empresas portuguesas podem estar a falhar. O especialista cita a última edição do Guia do Mercado Laboral, o estudo às intenções de contratação e salários realizado anualmente pela consultora, onde a empresa comparou os benefícios mais valorizados pelos profissionais com os oferecidos pelas empresas em Portugal, para identificar “discrepâncias entre os benefícios procurados pelos profissionais e os praticados pelas empresas”. Entre os exemplos mais gritantes estão a atribuição de cartão de refeição e de telemóveis ou acesso à internet para uso pessoal. Benefícios comuns na maioria das organizações, mas pouco valorizados pelos trabalhadores (ver infografia).

COMPARAÇÃO ENTRE BENEFÍCIOS MAIS VALORIZADOS PELOS PROFISSIONAIS E BENEFÍCIOS QUE AS EMPRESAS OFERECEM

Em percentagem

Basta de resto analisar as preferências dos profissionais em matéria de benefícios e a prática nas empresas para perceber que não estão alinhados. Entre os profissionais, as ‘regalias’ mais valorizadas são o seguro de saúde (referido por 78% dos trabalhadores), o acesso a programas de formação e certificação (68%), a flexibilidade de horários (62%), o automóvel para uso pessoal (48%) e a possibilidade de trabalhar a partir de casa (44%). Uma clara orientação para o equilíbrio entre as esferas pessoal e profissional que ainda não encontra uma correspondência direta nas empresas que apostam maioritariamente em benefícios como a atribuição de cartões de refeição (uma realidade em 68% das organizações), seguro de saúde (64%), telemóvel para uso pessoal (61%) ou a existência de um espaço para refeições (59%). Em última análise, as organizações estarão a investir recursos financeiros em benefícios que não atraem nem garantem a retenção dos profissionais, falhando o seu objetivo com estas medidas.

Álvaro Fernandéz explica que à medida que a geração millennial foi integrando o mercado de trabalho, com uma nova perspetiva de carreira e novas exigências de conciliação profissional e familiar, “foi pressionando os líderes a mudar mentalidades e estarem mais atentos a benefícios que vão além da remuneração”. O líder da Michael Page Portugal reconhece que há ainda um longo caminho a percorrer, mas acrescenta que nos últimos anos a nova geração de profissionais foi um agente de mudança nas organizações fomentando a adoção de benefícios como a flexibilidade de horários, o trabalho remoto ou planos de formação orientados para o crescimento permanente dos profissionais.

A maior diversidade de gerações nas empresas atuais, reconhece o especialista, exige uma visão mais abrangente destas políticas de benefícios. Os profissionais não procuram todos o mesmo, em todas as etapas da sua carreira. “Pode acontecer, em casos específicos, um profissional valorizar mais um horário reduzido por oposição a um salário mais elevado”, explica enfatizando que as empresas devem dar aos profissionais a possibilidade de escolher a proposta que mais se adeque aos seus objetivos. Uma ideia de benefícios diferenciados e personalizados que a plataforma de recrutamento global Glassdoor tinha também já defendido (ver texto em baixo).

Álvaro Fernandéz e Carlos Maia estão em sintonia na convicção de que os benefícios extrassalariais se tornarão cada vez mais relevantes e que cabe às empresas compreender o seu papel estratégico na atração e retenção de talento num mercado cada vez mais competitivo. A estratégia poderá passar pela definição de pacotes de incentivos personalizados e discutidos caso a caso com cada profissional. E Álvaro Fernandéz relembra que “os empregadores mais atrativos para os melhores profissionais, como a Google ou a Apple, têm pacotes altamente diversificados e inovadores de benefícios. Este será o caminho para vencer a guerra de talento no futuro”, defende Álvaro Fernandéz.