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Angola continuará a depender da China e do petróleo

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Apesar das transformações políticas que parecem estar em curso durante a presidência de João Lourenço, a estrutura da economia angolana não se deverá alterar no curto e médio prazo, considera a Fitch Solutions

Angola vai continuar muito dependente da China em termos de financiamento externo e, apesar da preocupação com a diversificação da sua estrutura produtiva, permanecerá muito dependente do petróleo. A convicção é de Tettey Addy, analista da consultora Fitch Solutions, para quem a perceção internacional sobre a corrupção das instituições angolanas ainda se mantém.

"Vemos Angola a dar alguns passos para diversificar as fontes de financiamento, mas vai continuar altamente dependente do financiamento chinês nos próximos anos", vincou o analista Tettey Addy.

Angola é um dos principais beneficiários de investimento da China nos últimos anos, que tem pago com petróleo, devido ao interesse chinês em diversificar o acesso a matérias-primas como o crude, por um lado, e devido à facilidade que Angola tem em pagar em petróleo em vez de pagar em divisas.

"Esta relação aprofundou-se nos últimos anos, e no ano passado 43% das exportações de Angola foram para a China, tornando este país o terceiro maior destino das exportações angolanas, a seguir à Rússia e à Arábia Saudita", apontou o analista da consultora Fitch Solutions, detida pelo mesmo grupo financeiro que também tem a agência de rating Fitch.

Para o analista, este modelo de financiamento, a par de um novo pacote de crédito no valor de 11 mil milhões de dólares para 78 projetos de infraestruturas, "vai perpetuar a tendência de dependência da China, que começou durante o desenvolvimento de Angola".

Questionado sobre se as reformas atuais são suficientes para convencer os investidores, Tettey Addy respondeu: "Ainda é preciso fazer mais para que o interesse dos investidores não chineses se transforme, de facto, em investimento direto estrangeiro, por isso antecipamos que Angola se vá manter fortemente dependente do investimento chinês nos próximos cinco anos, pelo menos".

A perceção de que as instituições são "corruptas devido ao nepotismo em vigor durante a Presidência de José Eduardo dos Santos ainda se mantêm", disse o analista, notando que "os chineses estão disponíveis para financiar os projetos de desenvolvimento por causa do petróleo, mas as outras nações vão continuar cautelosas nos próximos anos".

"Apesar de afastar pessoas não implicar uma reforma total das instituições, vemos as ações de João Lourenço como indicativas de uma forte vontade em implementar mudanças favoráveis aos investidores, quando comparado com os últimos anos", disse Tettey Addy.

O analista da Fitch Solutions considera ainda que "foram feitos no último ano significativos esforços para promover a diversificação económica e João Lourenço foi rápido nos esforços para controlar a corrupção e o nepotismo que tinham antes, condicionado os investimentos estrangeiros".

Entre as medidas decisivas para o novo clima económico, Tettey Abby apontou o fim da indexação do kwanza ao dólar, a junção numa só entidade das instituições que lidam com os investimentos externos e a "aprovação de novas leis para começar a parar as práticas anticoncorrenciais e reduzir o monopólio de algumas empresas", para além da nova lei sobre o investimento privado.

"Ainda esperamos que o petróleo se mantenha o setor dominante em Angola, deixando o país altamente vulnerável a choques externos, mas acreditamos que 2018 foi um ano significativo em termos de demonstração de uma vontade para diversificar a economia", concluiu o analista, quando questionado se, desta vez, Angola está a apostar verdadeiramente na diversificação económica.