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Porque não temos um planeta B

O primeiro debate na Impresa: Miguel Matos, João Vasconcelos, Pedro Oliveira, Luís Araújo e Ana Trigo de Morais foramos convidados da primeira “Conversa de Inovação”, que decorreu esta semana no edifício da Impresa, em Paço de Arcos. O debate andou à volta da sustentabilidade, da inovação e dos novos produtos e contou com a moderação de Ricardo Costa

NUNO FOX

Futuro: sustentabilidade, inovação e novos produtos são receita para a competitividade nas empresas e para salvaguardar a sociedade e o mundo em que vivemos

Fátima Ferrão

Vencer a batalha da sustentabilidade e da responsabilidade social passa por equacionar e transformar a forma como vivemos, fazemos negócios e gerimos a pegada ambiental. “Esta deve ser uma missão que nos convoca a todos sem exceção porque não temos um planeta B”, sublinha Ana Teresa Lehmann, secretária de Estado da Indústria. A governante falava durante o encerramento do debate “Sustentabilidade e Novos Produtos”, organizado pelo Expresso e pela Tabaqueira, que marcou esta semana o arranque das “Conversas de Inovação”.

O Governo, diz a secretária de Estado, quer dar o exemplo e, por isso, colocou em marcha diferentes programas e planos de ação com vista a fomentar iniciativas e projetos relacionados com a economia circular, a economia partilhada e a indústria 4.0. Em comum, as iniciativas têm como meta a sustentabilidade e a criação de novos produtos e processos, evitando o desperdício, reduzindo a necessidade de stocks, e prolongando a vida útil dos produtos que utilizamos no dia-a-dia. A tecnologia, exemplifica Ana Teresa Lehmann, “será fundamental no fomento da sustentabilidade”.

O desenvolvimento de tecnologias como a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas ou a robótica estão a trazer grandes mudanças às empresas, aos negócios e à sociedade em geral. “As startups têm uma grande importância neste ecossistema”, reforça a secretária de Estado.

A posição de Ana Lehmann vai de encontro à opinião generalizada do conjunto de empresários presentes no debate. Do lado da indústria marcaram presença Miguel Matos, diretor-geral da Tabaqueira, Miguel Coleta, diretor de sustentabilidade da Philip Morris Internacional, e Pedro Oliveira, CEO da BP Portugal. Na conversa participaram ainda Ana Trigo de Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria e fundador da Conselho, e Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal.

Inovar de forma sustentável

O desafio da sustentabilidade é transversal aos diferentes sectores da sociedade. “Pela primeira vez há uma consciência e mercados que valorizam a sustentabilidade”, afirma João Vasconcelos. “O digital está a trazer uma projeção enorme a esta questão, mas também uma grande exigência”, acrescenta. Isto não significa, contudo, que sejam as áreas de negócio ‘mais sexies’ a destacar-se na busca pela sustentabilidade.

Muitas empresas em sectores mais ‘tradicionais’ viram-se obrigadas a agilizar as suas estratégias e a adaptar-se a um mundo que não perdoa a falta de inovação, sob pena de perderem o comboio da competitividade. É o caso da Philip Morris, que detém em Portugal a Tabaqueira.

O tabaco deixou de ser um produto bem visto pela sociedade, pelas suas propriedades nocivas para a saúde e para o bem-estar, o que motivou a procura de alternativas para manter o negócio, criando produtos que ajudassem a reduzir o consumo do tabaco na sua forma tradicional, mas que garantissem a satisfação do consumidor. Na Suíça, a Philip Morris conta com 500 cientistas que preparam o ‘futuro sem fumo’ a que a empresa se propõe. “Queremos deixar de vender cigarros”, afirma Miguel Matos, “para comercializar produtos que são entre 90 a 95% menos prejudiciais à saúde”, acrescenta.

Esta proatividade em direção à sustentabilidade motiva outras grandes multinacionais, como é o caso da BP. “Como dar uma resposta sustentável às exigências do futuro” é a questão que se impõe e o desafio que precisa de ser ultrapassado. Pedro Oliveira recorda que a indústria petrolífera não está em risco porque o mundo precisa de cada vez mais energia. “Nos próximos 25 anos o produto bruto do mundo crescerá 50% e as necessidades de energia cerca de 30%”, explica. A resposta, para a petrolífera, passa por otimizar o desenvolvimento de novos produtos em toda a cadeia de valor atual, com vista a reduzir a zero o nível de emissões no mundo. O gás natural e as energias renováveis farão parte da solução, que passa ainda, no caso da BP, por investir em parcerias com produtores destas energias ‘limpas’.

Sociedade mais sensibilizada

Apesar de Portugal estar bem posicionado face aos congéneres europeus no que se refere à sustentabilidade, há ainda muito por fazer, como explica Ana Trigo de Morais. “Qualquer resíduo tem que ser visto como um recurso, mas é preciso investir em conveniência para com os consumidores para atingir esta meta”, reforça. A CEO da Sociedade Ponto Verde destaca o investimento na rede de ecopontos nacional, cuja gestão custa anualmente entre 70 a 80 milhões de euros, um valor suportado pelos consumidores através das taxas incluídas nos produtos, mas também a aposta no apoio a projetos inovadores na área da reciclagem. “Nos últimos anos gastámos cerca de quatro milhões de euros no financiamento destes projetos”.

Em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a empresa está a desenvolver o projeto Urban Waste, que prevê, entre outras coisas, a colocação de ecopontos nos quartos de hotel. A iniciativa vai de encontro ao desejo manifestado por turistas que participaram num estudo realizado há alguns anos, como recorda Luís Araújo. Na altura, diz o presidente do Turismo de Portugal, apurou-se ainda que os europeus estão dispostos a pagar mais por alojamentos sustentáveis do que os sul-americanos. A entidade que gere o turismo em Portugal tem focado a sua atenção na sensibilização dos players do sector para a reutilização de materiais, gestão de água, resíduos e energia. “90 por cento das empresas estão preocupadas com estas questões”, garante Luís Araújo. Segue-se uma forte aposta na gestão do conhecimento e na mobilidade, questões fundamentais num sector em crescimento acelerado.

É possível um futuro sem tabaco?

Alternativas: um mundo livre de fumo é a premissa da Philip Morris — representada em Portugal pela Tabaqueira — defendida pelos seus representantes nas “Conversas de Inovação”. Como? Ao criar alternativas ao tabaco tradicional reduz-se o seu impacto na saúde dos consumidores. Só em Portugal, a Tabaqueira investiu mais de €300 milhões em Investigação & Desenvolvimento (I&D) desde o final dos anos 90, com vista atingir esta meta. Até 2025, a empresa espera que 30% dos clientes optem por produtos alternativos ao tabaco tradicional.

1000
milhões é o número de fumadores em todo o mundo, uma cifra que irá manter-se estável segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em Portugal, os fumadores são cerca de dois milhões, dos quais 100 mil já aderiram às formas alternativas de fumar

27%
é a redução no número de fumadores no Japão após a introdução de produtos alternativos como o tabaco aquecido. Portugal foi o quarto país do mundo a lançar este tipo de produtos pois “é um bom mercado de teste”, como refere Miguel Matos, diretor-geral da Tabaqueira

O que dizem os produtores

As alterações na cadeia de valor com vista a um futuro livre de tabaco e uma maior sustentabilidade têm impacto em diferente níveis:

Melhores condições de produção e consequente redução do nível de pobreza dos produtores

Consumo mais responsável, com preocupações ao nível da saúde e do bem-estar

Maior nível de informação e de alfabetização das comunidades menos favorecidas

Como é que a sua empresa se está a tornar mais sustentável?

A Sociedade Ponto Verde tem na sua génese um princípio fundamental: prolongar o uso ou dar uma nova vida aos produtos. O Turismo de Portugal está empenhado — com vários projetos na agenda — em promover uma atividade sustentável e inclusiva. A BP Portugal vai criar e expandir operações de energias renováveis, investindo 500 milhões de dólares ao longo dos próximos anos. A Tabaqueira quer reduzir a nocividade causada pelos seus produtos e diminuir o impacte ambiental da atividade da empresa. Estas são algumas das muitas ações que os representantes destas empresas realçaram quando lhes fizemos a pergunta.

Pedro Oliveira
CEO da BP Portugal

A agenda de sustentabilidade da BP Portugal é naturalmente reflexo da estratégia do Grupo BP, uma vez que está muito claro para o grupo que cooperar, aprender e partilhar melhores práticas tem um efeito especialmente catalisador e virtuoso nesta área. A sustentabilidade séria e consequente resultará sempre do trabalho coordenado e suprarregional de vários agentes com um objetivo comum. Apesar e por força da crescente necessidade de energia a nível mundial, enquanto BP estamos profundamente comprometidos em: Reduzir a zero o crescimento das nossas emissões até 2025, apesar do nosso aumento de produção; Melhorar e desenvolver ainda mais eficazes low carbon fuels (fomos pioneiros em Portugal), lubrificantes e produtos químicos, aumentando a diversidade das nossas ofertas energéticas agregadas com menores emissões. A BP Portugal é o único operador nacional com formulações especiais em todos os seus combustíveis, promovendo reduções de emissões até 5 por cento e poupanças de combustíveis até +56 quilómetros por depósito; Criar e expandir operações de energias renováveis, investindo 500 milhões de dólares ao longo dos próximos anos e cofinanciando o fundo de mil milhões de dólares, resultante do acordo de Paris de que a BP foi subscritora desde a primeira hora. Como tal, a BP Portugal à imagem de todas as operações locais do Grupo BP tem muito clara a sua estratégia e objetivos no que à sustentabilidade das nossas operações diz respeito, em linha com o que temos feito ao longo dos últimos mais de 100 anos em que fornecemos energia ao mundo.

Miguel Matos
Diretor-geral da Tabaqueira

Queremos um mundo livre de fumo! Esta é a nossa principal contribuição para a sustentabilidade,e tratase de uma estratégia de redução de risco. Todos sabemos que a melhor escolha para quem não quer correr qualquer risco é deixar de fumar. No entanto, apesar de toda a informação existente há uma prevalência significativa de fumadores. Queremos que estes fumadores saibam que existem produtos de tabaco livres de fumo que são melhores do que os cigarros tradicionais. A sustentabilidade faz parte de nós. Traduz-se na redução da nocividade causada pelos nossos produtos, no respeito pelas pessoas, na diminuição do impacte ambiental da nossa atividade e na eficiência na utilização dos recursos. Queremos ser líderes e alcançar excelência em todos estes domínios. Desenvolvemos produtos inovadores, com destaque para o tabaco aquecido. Estes produtos, não sendo inócuos, disponibilizam nicotina sem combustão, eliminando assim entre 90 a 95 por cento dos constituintes tóxicos presentes no fumo dos cigarros, com ganhos potenciais em termos de saúde pública, facto que tem vindo a ser corroborado por um número crescente de instituições científicas independentes. Estimamos que seis milhões de fumadores no mundo e 100 mil em Portugal deixaram de fumar e mudaram para o tabaco aquecido. Construir um mundo sem fumo, com a substituição tão breve quanto possível de cigarros por produtos livres de fumo, é a base da nossa transformação enquanto empresa e o melhor contributo que podemos trazer para a sustentabilidade.”

Ana Trigo de Morais
CEO da Sociedade Ponto Verde

A Sociedade Ponto Verde chegou às nossas vidas há 20 anos, quando reciclar era ainda uma palavra desconhecida, sendo hoje um parceiro de referência nesta caminhada pelo desenvolvimento sustentável, sobretudo inspirando uma mudança nos comportamentos. Esta mudança materializase através da adoção de boas práticas ambientais, reflete-se na sua missão e nas parcerias com os seus clientes, ajudandoos a incorporar a sustentabilidade nos seus negócios e produtos. É disso exemplo a ferramenta www. pack4recycling.pt com a informação necessária para o desenvolvimento de uma embalagem mais sustentável ou ainda o projeto Extruplás que possibilita a criação de mobiliário urbano a partir de uma fração de embalagens de plástico recicladas, antes sem destino adequado — os plásticos mistos. As transformações extraordinárias na forma como os resíduos são geridos em Portugal são também resultado do investimento da SPV na criação de soluções inovadoras, globais e integradas. Desde o início da sua atividade a SPV investiu 50 milhões de euros em comunicação e sensibilização e 2 milhões de euros em I&D. Mais do que dar um destino correto aos resíduos, é fundamental contribuir para prolongar o seu uso ou dar-lhes uma nova vida. Neste contexto a SPV, em parceria com entidades nacionais e internacionais, tem sido promotora da economia circular, incorporando na sua atividade e partilhando com os seus clientes todo o conhecimento e experiência nas áreas de sustentabilidade e gestão de resíduos.

Luís Araújo
Presidente do Turismo de Portugal

O turismo é atualmente uma das atividades económicas mais dinâmicas em Portugal, sendo o maior exportador de serviços no país e apresentando níveis de crescimento consistentes nos últimos anos. A promoção de um turismo sustentável e inclusivo é fundamental para maximizar o seu contributo para uma sociedade mais próspera e equitativa e para a valorização do território e dos seus recursos. A Estratégia Turismo 2027, referencial estratégico para o sector nos próximos dez anos, identificou a sustentabilidade como um dos principais desafios da indústria, definindo-a como domínio de atuação prioritário, um elemento basilar das políticas públicas de turismo e um objetivo crucial para o desenvolvimento futuro do sector. No âmbito do Plano de Ação para a Sustentabilidade 2017- 2020, o Turismo de Portugal desenvolveu um significativo conjunto de medidas: criação de um observatório regional de sustentabilidade no Alentejo; programa de turismo inclusivo Tourism ALL for ALL; projeto Portuguese Waves, de gestão sustentável de surf spots; Portuguese Trails, programa de valorização e sustentabilidade dos traçados âncora de Cycling&Walking; parcerias com ONG para promover a sensibilização ambiental dos agentes do sector; e o Programa Valorizar, centrado na reabilitação dos espaços públicos com interesse para o turismo, a valorização turística do património cultural e natural, contribuindo para a desconcentração da procura, a redução da sazonalidade e a criação de valor.

Textos originalmente publicados no Expresso de 22 de setembro de 2018