Sophia

A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda

2 julho 2014 16:20

Soraia C. Ribeiro

RECORDAR Sophia de Mello Breyner, uma das grandes poetisas portuguesas do século XX, morreu há precisamente dez anos

foto antónio pedro ferreira

A primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa, morreu há dez anos. Foi trasladada esta quarta-feira para o Panteão.

2 julho 2014 16:20

Soraia C. Ribeiro

"A arte deve ser livre porque o ato de criação é em si um ato de liberdade", escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen no semanário Expresso, a 12 de julho de 1975, num artigo a que chamou "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda". Este impulso criativo sempre se mostrou como uma inevitabilidade na vida da poetisa, que se iniciou na escrita aos 12 anos. Foi ainda jovem, aos 24, que publicou por iniciativa própria o primeiro livro, intitulado "Poesia". 

De origem dinamarquesa, desembarcou no Porto e ali permaneceu, na Quinta do Campo Alegre (hoje o Jardim Botânico do Porto), onde viveu com o avô e acabou por crescer. Uma casa cujo jardim foi cortado pela Ponte da Arrábida e cujos plátanos foram arrancados, disse Sophia numa entrevista ao "Jornal de Letras" a 5 de fevereiro de 1985.

Talvez tenha sido a ausência desse jardim, imortalizado no poema "A Casa do Mar", que tenha cravado a temática 'natureza' no universo poético da autora: "A casa que eu amei foi destroçada/ A morte caminha no sossego do jardim/ A vida sussurrada na folhagem/ Subitamente quebrou-se não é minha".

Mar, casa, tempo, amor. São ainda outros dos temas do universo da mítica escritora portuguesa, que não gostava que lhe perguntassem porque é que escrevia. À poesia, encontrou-a antes de saber que existia a literatura, disse um dia. Sempre lhe foi natural.

Sophia foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Quando, em 1999, numa entrevista à TSF o jornalista lhe perguntou "porque não o Nobel?", Sophia respondeu "que o nome do Nobel não vale o de Camões".

A transparência da palavra, o ritmo melódico dos versos, a lucidez e pureza da escrita da poetisa inserem-na no panorama da literatura nacional como uma das autoras mais reconhecidas e amadas pelo público. 

 

A poesia está na rua

Detentora de vários galardões literários e condecorada três vezes pela República Portuguesa, a poesia de Sophia situa-se entre uma sensibilidade estética espiritual e uma poesia social, de denúncia a qualquer tipo de ataque à dignidade humana (cujo estilo se acentuou durante o período que antecedeu o 25 de abril de 1974). "Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo", escreveu sobre esse dia de abril.

Ainda agora, a intervenção de Sophia subsiste. Exemplo disso é a presença da frase por ela escrita "a poesia está na rua", outrora presente no emblemático quadro da pintora Vieira da Silva e imortalizada hoje pelas várias paredes dos bairros lisboetas.

Também o mar - há muito desbravado - foi das temáticas mais presentes na sua obra poética, cuja "escrita é de nau e singradura". Tanto é que o Oceanário de Lisboa expõe os seus poemas em zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem esse mar enaltecido por "Sophia como quem procura a ilha sempre mais ao sul", escreveu Manuel Alegre num poema de homenagem.

Foi no dia 2 de julho de 2004 que morreu na sua residência, em Lisboa, aos 84 anos. Sophia de Mello Breyner Andresen deixa editada uma vasta obra de poesia, antologia, prosa, ensaios e teatro. Casada com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, entre eles o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, Sophia de Mello Breyner permanece como uma poetisa intemporal, humana, uma poetisa do e para o povo.

Ainda o artigo "A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda", que Sophia escreveu para o Expresso: "Quando a Arte não é livre o povo também não é livre. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque à liberdade cultural me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é um sintoma e significa sempre opressão para um povo inteiro".