Cultura

Morreu Javier Marías, o eterno candidato espanhol ao Nobel da Literatura

11 setembro 2022 16:17

Javier Marías

j. p. gandul/epa

Estava há um mês hospitalizado aquele que é um dos maiores escritores espanhóis contemporâneos. Em 2019, dizia ao Expresso: "Em resumo, tive medo, todos o tivemos, e temo-lo quase diariamente. Alguns sentem-no quando se deitam, outros quando acordam de manhã. Mas é preciso lutar contra a coerção do medo"

11 setembro 2022 16:17

O escritor Javier Marías morreu este domingo por complicações numa pneumonia que o mantinha hospitalizado e em coma há já mais de um mês. A notícia foi avançada pelo jornal espanhol “ABC”. No dia 20 deste mês teria completado 71 anos.

Há anos na lista de candidatos ao Nobel da literatura, Javier Marías deixa uma extensa obra constituída por mais 16 romances, o último dos quais “Tomás Nevinson”, publicado em março de 2021 e em Portugal traduzido pela Alfaguara — a editora que o representa por cá. Este romance, sequela de um outro, “Berta Isla”, soma-se a um catálogo de preciosidades do qual fazem parte títulos como “Os Enamoramentos”, “Coração tão Branco”, “Assim Começa o Mal”, “Amanhã na Batalha Pensa em Mim” e a trilogia “O Teu Rosto Amanhã”. Ao todo, entre romances, contos e ensaios, publicou uns quarenta livros.

Homem de Madrid, filho do filósofo espanhol Julián Marías Aguilera, discípulo de Ortega y Gasset, cresceu nos Estados Unidos, o que o tornou desde cedo fluente na língua inglesa. Após estudar Filosofia e Letras na Universidade Complutense de Madrid, foi docente em Oxford e em Boston. “Los Domínios del Lobo”, escrito em 1071, foi o seu primeiro romance, escrito em 1971, aos 19 anos, e redigido “durante as manhãs” — como aliás seria sempre o seu hábito.

Intensa foi igualmente a sua atividade como tradutor, da qual constam as versões em castelhano de obras de Joseph Conrad, Yeats, Stevenson, W. H. Auden, John Ashbery, Vladimir Nabokov e William Faulkner, entre outros. Membro da Real Academia Espanhola, onde ocupava a cadeira R (antes dele ocupara por Lázaro Carreter), era há largos anos cronista do diário “El País”.

Em 2019, numa entrevista ao Expresso, confessava não ser um autor disciplinado ou obsessivo. “Não desapareço do mundo nem costumo isolar-me.” E dizia: “Talvez eu escreva porque é a escrever que penso melhor. Se estiver aqui em casa a olhar para o teto penso pior do que se estiver à frente de uma máquina a tentar contar uma história. Isso estimula, digamos, ideias ou reflexões — não quero ser pomposo — que de outra forma não surgiriam. Então, prefiro ter esta atividade, na qual a minha cabeça fica mais ativa, do que não a ter. Prefiro passar pelo mundo a tentar compreendê-lo. Mas não acho que isso possa ajudar alguém. Faço-o apenas para pensar melhor e passar melhor o tempo. E porque, já o disse um dia, na ficção descansa-se.”