Cultura

Quantas Amélias há em Amélia Muge?

25 março 2022 12:05

Ilustração da autoria de Amélia Muge, uma das várias que acompanham a edição de“Amélias”

30 anos depois de “Múgicas”, encontramos as vozes de Amélia Muge sobrepostas no mil-folhas sonoro dos arranjos e cenografia eletrónica de António José Martins. “Amélias” é o seu novo álbum – e é estupendo

25 março 2022 12:05

Ainda procurávamos espreitar por entre as palavras (“A noite entrelaça seus riscos de sombra, e luzes no escuro são quase penumbra, são gestos de gestos, no afã do afã, parece um Pollock sonhando a manhã”) quando, como quem pensa alto, Amélia Muge deixa cair: “Este disco está um bocadinho entre o canto dos Neanderthal e o HAL 9000 do ‘2001 Odisseia no Espaço’.” Ela (e o coautor António José Martins) já tinham esclarecido que, para um exercício de audição assistida de “Amélias” — 12º volume de um percurso iniciado em 1992 com “Múgica” —, nunca se trataria de “explicar os temas mas de falar acerca das ideias de base sobre as quais foram construídos”. Largámos, então, o Paleolítico Superior, a action painting e Van Gogh, Miró e Chagall com quem já nos havíamos cruzado antes, e, entrando pelo labirinto dentro, a propósito de ‘Chove Muito, Chove Tanto’ (com texto da irmã, Teresa Muge), os contornos tornam-se um pouco mais nítidos: “Este texto da Teresa remeteu-me muito para as minhas memórias de infância. Eu não comecei como os outros meninos. O meu universo musical não foi o do que ‘estava a dar na rádio’ mas o de gente que, em Moçambique, cantava à minha volta. As minhas primeiras memórias do canto coletivo são, quando tinha cerca de três ou quatro anos, ter ido para um miradouro de Maputo de onde se via um mar fantástico, com as várias amas negras — umas 20 ou 30 —, dos vários meninos, e onde elas cantavam em língua ronga e dançavam. É evidente que não me lembro nada do que elas faziam, isto já é uma invenção, uma pura ficção, sobre uma experiência que eu sei que vivi. Quis fazer recuando eu, como personagem, aquele tempo. Até porque, se calhar, as memórias que tenho não correspondem exatamente ao que elas faziam mas aquilo que eu, com aquela idade e sendo de outra cultura, consegui absorver como experiência sonora fortíssima.”

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.