Cultura

Portugal na ARCOmadrid. “Precisamos muito da feira e há expetativa nesta retoma”

23 fevereiro 2022 14:31

ARCOmadrid

A maior feira de arte contemporânea da Península Ibérica, marca um quase regresso à normalidade depois da pandemia. Portugal é o terceiro país mais representado

23 fevereiro 2022 14:31

Começa esta quarta-feira a maior feira de arte contemporânea da Península Ibérica a ARCOMadrid, que, nesta edição, regressa à sua data habitual e o seu formato tradicional, depois de dois anos atípicos devido às restrições motivadas pela pandemia. Quarta e quinta, o acesso é exclusivo à profissionais do “métier”; a partir de sexta-feira e até ao próximo domingo, as portas de dois pavilhões do IFEMA (Feira Internacional de Madrid) estarão abertas a todos.

Em tempos pré-pandémicos a Arco Madrid chegou a receber mais de 200 galerias. No ano passado, o ano em que se celebravam os 40 anos de existência, a organização, numa tentativa de reativar o mercado em tempos de covid-19, optou por um evento fora do seu calendário habitual. Em vez de em fevereiro realizou-se em julho e em modelo bastante reduzido, apenas 130 galerias de 26 países puderam participar.

O ar deste tempo

“Este será o ano da investigação, que é uma ideia que conta muito para a ARCO”, revelou ao Expresso Maribel López, diretora da feira de Madrid desde 2019. “Não se trata só de ver obras de artistas mais conhecidos mas também de apostar na descoberta.”

Aproveitando a data histórica, uma das ideias fortes desta edição é a possibilidade de “unir o passado e o futuro”. E se se o passado está presente na revisitação da memória da ARCO no programa 40 (+1), o futuro será construído em conjunto com as galerias com a experiência desta feira. “É muito importante que seja o lugar do encontro e das trocas que só acontecem entre artistas, colecionadores e público na presença da obra”, refere a diretora.

Interpelada sobre o modelo de grandes feiras internacionais no contexto pós-pandemia, Maribel López acredita na mudança e num sentido mais voltado para a ideia de comunidade. “Esta é uma palavra-chave que vai mudar o futuro das feiras, precisamente, nessa consciência e nesse ajuste do que significa ser uma galeria da ARCO.”

A experiência da pandemia trouxe aos criadores o ganho do tempo. Tempo de paragem, tempo de atelier. “O mundo da arte obriga a grande movimento. Os artistas viajam muito, dedicam uma parte grande do seu tempo aos contactos, à sociabilização. Penso que a pandemia ficará impressa na obra, não como tema, mas como marca de qualidade ganha pela pausa e reflexão”, referiu.  

Para edição de 2022, que conta com a presença de 185 galerias vindas de 30 países, e o programa foi afinado de modo a incluir a celebração da data histórica, num evento especial que tem por título “40 (+1)”, onde participam 19 galerias emblemáticas que fazem parte da história da feira.

Portugal na feira de Madrid

Por tradição e proximidade geográfica os galeristas e colecionadores portugueses sempre privilegiaram a ligação à feira internacional de Madrid.  Portugal é o terceiro maior país da feira – depois de Espanha e da Alemanha. Nesta edição está representado por 17 galerias de Lisboa, Porto e Braga, num número superior ao que é habitual: 3+1 Arte Contemporânea, Balcony, Bruno Múrias, Carlos Carvalho, Cristina Guerra Contemporary Art, Filomena Soares, Francisco Fino, Madragoa, Miguel Nabinho, Monitor, Pedro Cera e Vera Cortês, todas de Lisboa, e ainda a Kubikgallery e a Lehmann + Silva, do Porto; e ainda as galerias Duarte Sequeira, de Braga, e as Foco e Uma Lulik, de Lisboa, convidadas para o“Opening by Allianz”, um espaço dedicado exclusivamente a galerias jovens e artistas emergentes, com curadoria de Övül Durmusoglu e Julia Morandeira.

“Cristo na muralha” (2019), Kiluanji Kia Henda, galeria Filomena Soares

“Cristo na muralha” (2019), Kiluanji Kia Henda, galeria Filomena Soares

Para Jorge Viegas, presidente da EXHIBITIO – Associação Lusa de Galeristas e responsável da galeria de lisboeta 3+1 Arte Contemporânea, não deixa de ser assinalável a vontade e o empenho dos galeristas portugueses em estarem presentes nesta edição de 2022. “Precisamos muito da feira e há expetativa nesta retoma. Este esforço é um sinal claro de que a galerias nacionais resistiram bem durante estes dois anos de pandemia e estão cheias de energia,” refere.

Num artigo publicado pela “Architectural Digest España”, entre os ícones consagrados no programa 40 (+1), e onde se apresentavam as últimas tendências no mundo da arte contemporânea, destacavam-se, entre os 20 artistas imperdíveis, uma rara composição fotográfica do escultor Alberto Carneiro (galeria 3+1 Arte Contemporânea) e a peça “Todos sabem usar os dentes” da artista plástica Ana Vidigal (galeria Balcony). Na mesma revista, no espaço Opening by Allianz, recomendavam-se as obras de Pauline Guerrier – a artista francesa representada pela Foco, de Lisboa, que tem a sua estreia nesta edição – e da artista cipriota Lito Kattou – representada pela Duarte Sequeira, de Braga – como destaques entre as 15 jovens galerias que “vão dar que falar”.

“Todos sabem usar os dentes” (2022), Ana Vidigal, galeria Balcony

“Todos sabem usar os dentes” (2022), Ana Vidigal, galeria Balcony

No espaço dedicado ao programa geral das galerias, serão mais de 70 obras expostas de artistas nacionais. Entre consagrados e jovens artistas contam-se, entre outros, os nomes de Alexandre Farto/Vhils, José Pedro Croft e Susana Themlitz (Vera Cortês); Dan Grahm, Fernanda Fragateiro, Helena Almeida e Kiluanji Kia Henda (Filomena Soares); Ângela Ferreira, João Maria Gusmão, André Cepeda, Julião Sarmento e Yonamin (Cristina Guerra); Ana Jotta e Pedro Cabrita Reis (Miguel Nabinho); Tatiana Macedo, Daniel Blaufuks e Noé Sendas (Carlos Carvalho), Diana Policarpo (Lehmann + Silva), Rui Calçada Bastos, Jorge Queiroz, Henrique Pavão e Vera Mota (Bruno Múrias) e Isabel Cordovil (Uma Lulik).

“Bosch’s Garden” (2020), Diana Policarpo, galeria Lehmann + Silva

“Bosch’s Garden” (2020), Diana Policarpo, galeria Lehmann + Silva

Latina América

Outros destaques da programação de 2022, é Projetos de Artistas  – onde serão apresentados projetos de 17 mulheres, dando continuidade a um programa iniciado em 2020, com o objetivo de aumentar a visibilidade e o protagonismo de obras de criadoras – e “Nunca lo mismo”. Uma seleção de artistas latino-americanos de oito galerias internacionais que, com curadoria de Mariano Mayer e Manuela Moscoso, irá contribuir para “reforçar o posicionamento latino-americano da feira”, estando entre elas a galeria Continua, de São Paulo, no Brasil.

Entre os inúmeros debates e programas que acompanham a atividade das galerias, serão também promovidos diversos encontros em torno da arte contemporânea, num programa de debates aberto a profissionais, colecionadores e amantes de arte em geral, assim como um espaço inteiramente dedicada à edição de arte, com o título “Arts Libris” e reúne cerca de 55 editores, alguns deles portugueses.