Cultura

Morte do poeta Melo e Castro: a atitude experimental na poesia é questionar a invenção

30 agosto 2020 18:51

Melo e Castro falou com a Lusa em outubro de 2018, a propósito da inauguração da exposição "Poesia Experimental Portuguesa", nesse mês, em Brasília, pouco dias após a primeira volta das eleições presidenciais no país, que viriam a dar a vitória a Jair Bolsonaro

30 agosto 2020 18:51

O escritor Ernesto Manuel de Melo e Castro, pioneiro da poesia experimental portuguesa, que morreu no sábado, em São Paulo, Brasil, numa entrevista à Lusa, em 2018, sublinhou a importância da invenção e da atitude experimental na sua obra.

Melo e Castro falou com a Lusa em outubro de 2018, a propósito da inauguração da exposição "Poesia Experimental Portuguesa", nesse mês, em Brasília, pouco dias após a primeira volta das eleições presidenciais no país, que viriam a dar a vitória a Jair Bolsonaro.

Na altura, Melo e Castro também se mostrou preocupado com a ascensão do populismo no país: "O Brasil está a passar por um momento dramático e, de facto, há que lutar pela liberdade, pela inteligência, pela dignidade", disse então à Lusa.

E.M. de Melo e Castro, que vivia no Brasil há mais de duas décadas, morreu no sábado à noite, em São Paulo, aos 88 anos, anunciou hoje a sua filha Eugénia de Melo e Castro, numa publicação na rede social Facebook.

Em outubro de 2018, em vésperas da realização da exposição em Brasília, Melo e Castro, então com 86 anos, contou à Lusa o que o movia dentro da poesia experimental.

"A poesia experimental não é uma escola, não é um clube de poetas, não é um grupo de geração, até porque há poetas muito mais novos do que eu (...). O que caracteriza a atitude experimental na poesia é a problematização da invenção (...). Vamos perguntar 'porquê?' e 'como?' e propor respostas também, mais do que dar respostas definitivas", explicou o poeta português, nascido na Covilhã.

Para a exposição em Brasília, Melo e Castro reuniu trabalhos nunca antes exibidos, feitos através do computador, numa exploração da tecnologia a favor da poesia.

"Para esta exposição, dei trabalhos feitos em computador com imagens fractais, originais, que nunca foram vistas e que eu imprimi de propósito. Já as tinha criado porque não tenho uma atitude pragmática, no sentido de escrever ou criar com uma finalidade", afirmou.

"Estou num movimento sempre constante de criação e de pesquisa de novos meios, principalmente os tecnológicos" afirmou o artista, que foi também um dos pioneiros da engenharia têxtil em Portugal, nas décadas de 1950/1960.

"Os fractais oferecem um campo que não tem fim, são imagens realmente extraordinárias, criadas com algoritmos matemáticos e que resultam em imagens com uma beleza estética fora do comum", explicou então Melo e Castro à Lusa, acrescentando: "Tenho umas 400 ou 500 imagens fractais que fiz em toda a minha vida, e escolhi entre dez ou 12 [para esta exposição]".

Licenciado em engenharia têxtil, mas com um percurso de vida sempre ligado à Literatura - o que inclui um doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo - Melo e Castro não escondeu a forte ligação que tem com o Brasil, país onde viveu durante mais de 20 anos.

"A minha relação com os poetas concretos e experimentais brasileiros foi sempre uma relação de amor. Isso não há dúvida. Sinto-me muito bem no Brasil, sinto-me otimamente. As minhas relações não são só com o Brasil, mas o Brasil é privilegiado, é o meu melhor amigo. Posso eu dizer isso. E esta exposição, que me foi proposta por amigos aqui do Brasil, é um presente magnífico que é dado a todos os portugueses", afirmou.

Melo e Castro falava à Lusa, poucos dias após a primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, realizadas a 7 de outubro de 2018, que deixavam antever a vitória a Jair Bolsonaro, cerca de 20 dias depois, e confirmavam a subida dos argumentos populistas da campanha.

O escritor e artista mostrou-se então preocupado e entristecido pela situação que o país atravessava, mas apelava à luta dos brasileiros.

"Acho que o Brasil está a passar por um momento dramático e, de facto, há que lutar pela liberdade, pela inteligência, pela dignidade humana que, neste momento, está muito fragilizada. Esta é a minha opinião, mas eu não posso realmente intervir no movimento político porque eu não sou brasileiro. Eu sou português, vivo aqui, e devo muito ao Brasil. E é com grande pena que vejo o Brasil caminhar por caminhos menos sólidos, sob o ponto de vista político", lamentou o poeta.

A exposição "Poesia Experimental Portuguesa" esteve patente na Caixa Cultural Brasília, de 17 de outubro a 16 de dezembro de 2018, reuniu cerca de 80 trabalhos de 18 artistas portugueses e percorreu uma trajetória de seis décadas de produção poética em diferentes formatos e suportes.

Com curadoria de Bruna Callegari, a mostra reuniu obras de artistas como E.M. de Melo e Castro, Ana Hatherly, Salette Tavares e Emerenciano.

"A motivação (...) foi a de mostrar ao público brasileiro um pouco dessa poesia que é tão inteligente, tão engenhosa", disse então a curadora à Lusa.