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‘A casa da vizinha apanha mais sol que a minha?’ 43 artistas portugueses dão as boas-vindas ao estranho verão de 2020

18.06.2020 às 22h08

Com a cabeça nas nuvens e de olhos postos no céu. Atores, músicos, poetas, bailarinos, coreógrafos e muitos outros artistas foram desafiados a ‘apanhar o sol’ durante as semanas de confinamento obrigatório. Um projeto vídeo pensado para os mais jovens mas que pode ser visto por públicos de todas as idades nas redes sociais do LU.CA - Teatro Luís de Camões a partir deste domingo. Para abrir o verão e guardar como memória futura dos estranhos meses de covid-19

“Para apanhar o sol nesta invenção começo com uma harpa para celebrar”, diz-nos ao ouvido a voz grave de Lula Pena para logo depois acrescentar, “e como sou um bicho lento vou com a minha cabeça para lá do sonho e volto com outro sonho.” De olhos postos numa nuvem, ouvimos o encantatório timbre da cantora portuguesa que, em pouco mais de três minutos, nos leva de tapete voador a mergulhar numa sopa de letras cheia de praia e bom tempo - “depois de apanhar o sol e o solo, é preciso apanhar o solfejo.” Assim como a solidão, que aparece transversalmente neste e em tantos outros vídeos do projeto 'Apanhar o sol' com uma força subterrânea, subcutânea. “Hoje levantei-me e dancei. Sinto o calor do sol, sinto o calor da dança. Tento perceber se a casa da vizinha apanha mais sol que a minha. Corro. Corro. Corro à procura do sol”, diz-nos ao ouvido a voz da performer e coreógrafa Maurícia Barreira Neves num vídeo em forma de diário filmado.

Numa sucessão de imagens e sons, vamos do espaço concentrado entre quatro paredes à possibilidade da janela, e dali à rua, ao jardim, ao céu, ao sonho da vida ao ar livre. São 43 vídeos que chegam com a abertura oficial do verão à internet a que a covid-19 nos forçou. “Os vídeos destes artistas são todos inéditos e o resultado é muito íntimo e pessoal, mas também muito pensado e construído. São objetos luminosos, que nos remetem para o lugar da infância, que é o lugar da grande coragem, onde tudo é possível e o sonho vai até onde quisermos”, explica Teresa Coutinho, curadora do projeto “Apanhar o sol”, um convite do LU.CA - teatro municipal de Lisboa com programação dirigida ao público infantil e juvenil - pensado especificamente para a divulgação online por causa do atual momento de pandemia. “Numa altura em que estamos impossibilitados de estar fisicamente com o público, este projeto surge com uma dupla preocupação: manter o diálogo com o público do LU.CA e criar espaço para os artistas, para muitos artistas. Não é por acaso que são tantos artistas e de áreas tão diferentes”, afirma.

Perante o condicionamento absoluto do trabalho na área das artes nas primeiras semanas de pandemia, esta proposta artística quis contrariar a paralisia e oferecer uma reflexão sobre o isolamento social. Sara Tavares, Lula Pena, Cláudia R. Sampaio, André Tecedeiro, Lander Patrick, Tiago Cadete e João Villas-Boas foram alguns dos artistas que aceitaram o desafio de sonhar a ideia de “apanhar o sol” em pequenos vídeos (entre 3 e 7 minutos). “Usando as mesmas ferramentas de base, os resultados foram muito diferentes. E a força desta panóplia de criações é, numa fase tão complicada e precária para os artistas, responder ao momento que estamos a viver. São obras inspiradoras, íntimas e também divertidas”, afirma Teresa Coutinho. E porque é de sol, luz e calor que se trata, o lançamento dos vídeos será feito ao longo de todo o dia 21 de junho nas contas oficiais do LU.CA no Facebook e Instagram e ficará mais tarde disponível numa galeria online no site oficial do teatro. Para abrir o verão e guardar como memória futura dos estranhos meses de covid-19.