Cultura

Ricardo Araújo Pereira sobre o “Governo Sombra” na SIC: “Vai ser a mesma fantochada”

4 janeiro 2020 10:30

Painel do “Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer”: João Miguel Tavares, Ricardo Araujo Pereira, Pedro Mexia e Carlos Vaz Marques (por esta ordem na foto)

tiago miranda

Ricardo Araújo Pereira regressa à SIC e leva com ele os restantes elementos do “Governo Sombra”, que toma posse dia 10. Leia aqui a versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso deste sábado

4 janeiro 2020 10:30

É a grande contratação do defeso televisivo: Ricardo Araújo Pereira deixou a TVI e regressou à SIC, onde já tinha estado em duas ocasiões. É o segundo tiro de Daniel Oliveira no porta-aviões da TVI, depois de a contratação de Cristina Ferreira ter ajudado a empurrar o canal da Impresa (que também detém o Expresso) para a liderança de audiências. Com o humorista — que deverá ter um programa de sátira política a anunciar em breve — seguem também os três outros elementos do “Governo Sombra”, que tem estreia marcada no canal para a próxima sexta-feira. Os quatro ministros deste executivo sentaram-se para uma conversa sem filtros com o Expresso.

É a quarta legislatura deste “Governo Sombra” e nunca houve dança de cadeiras. Qual é o segredo?
Carlos Vaz Marques (C.V.M.) — Somos contra as remodelações. Este é o único governo irremodelável do mundo.
João Miguel Tavares (J.M.T.) — Isso faz de nós uma originalidade. Não acho que haja programas de debate tão longos que tenham mantido o mesmo painel. Tem também a ver com a nossa cumplicidade. Somos todos amigos.

Nunca se chatearam?
Pedro Mexia (P.M.) — Convivemos o suficiente para já nos termos chateado, mas nunca aconteceu. Discordamos muitas vezes, mas só isso.

Um executivo sem mulheres ainda acompanha pouco o ar dos tempos?
J.M.T. — Ainda é um governo do outro tempo. Se nos mantivermos tempo suficiente ainda ficamos outra vez na moda.
C.V.M. — Estamos à espera que o João Miguel faça a transição. [risos]
J.M.T. — A culpa é do Carlos. Ele é que fez os convites.
Ricardo Araújo Pereira (R.A.P.) — Creio que nos escolheu independentemente da nossa genitália.
C.V.M. — Sim, não estive a avaliar...
R.A.P. — Posso confirmar!
J.M.T. — Não baixei as calças.
C.V.M. — Aliás, encontrei-me individualmente com cada um.
R.A.P. — Quem é que convidaste primeiro? Fui o último, aposto.
J.M.T. — Claro que foste. Ninguém acreditava que fosses aceitar.
C.V.M. — A primeira pessoa com quem falei foi o João Miguel.
J.M.T. — Então é por ordem de facilidade [risos]. Sou um gajo fácil.
C.V.M. — Encontrámo-nos num café manhoso, nos Restauradores. Com o Pedro fui ter à Cinemateca. E com o Ricardo, que é mais inacessível, falei ao telefone.
J.M.T. — No tempo em que ainda se conseguia falar ao telefone com ele.
C.V.M. — É muito difícil apanhá-lo porque está muitas vezes fora de Lisboa. [gargalhadas] Posso revelar o truque?
R.A.P. — Muitas vezes convidam-me para coisas e não posso porque estou fora de Lisboa. O que é verdade, moro no concelho de Oeiras [risos].
C.V.M. — Nunca mais podes dar essa desculpa, tens consciência disso?
R.A.P. — Arruinaste-me uma ótima desculpa!

Carlos, sente-se o chefe deste Governo?
C.V.M. — Não.
J.M.T. — Sim, é o chefe. E desagradável. Está sempre a dizer-nos que os temas não prestam.
R.A.P. — Ou nos bastidores a dizer “muda a ordem disto!” ou “o teu ministério devia ser ‘estado de espírito’”.
C.V.M. — Tenho opiniões.
R.A.P. — Tem opiniões e são sistematicamente desagradáveis.

A notícia foi o regresso do Ricardo à SIC. Não há invejas dentro do grupo?
J.M.T. — Não somos propriamente os Beatles. Quando muito os Beatles, mas com três Ringo Star. [risos]
R.A.P. — Isto é uma rábula, estamos todos em pé de rigorosa igualdade.
P.M. — No programa sim. Perante os portugueses não. [risos]
R.A.P. — Depende dos portugueses. Para a mãe do João Miguel não.
J.M.T. — É verdade. A minha mãe acha que eu sou o melhor dos quatro.

No caso do Ricardo, é um regresso à casa de partida, depois de já ter estado também na RTP e na TVI. Sente-se o Paulo Futre da TV portuguesa?
R.A.P. — Gostava muito, porque o Futre era um jogador impressionante. Além de que já envergou o manto sagrado.

Por falar em analogias futebolísticas: João Miguel, porque é que se sentiu o Éder do 10 de junho? É a história do patinho feio que virou herói?
J.M.T. — Não herói para todas as pessoas, mas o discurso correu melhor do que estava à espera. Sou um rapaz autoconfiante, senão não tinha aceitado o convite, mas ao mesmo tempo com noção daquilo que são as minhas capacidades. Vim do Alentejo, de outro ambiente que não o da capital, sinto muito essa diferença província/Lisboa. Sou uma espécie de parvenu [pessoa de origem humilde que ascendeu socialmente de forma rápida].
C.V.M. — Mas venue há muito tempo. Talvez já te tenhas aculturado.
J.M.T. — Tenho hoje uma situação de privilégio, mas a minha vida não tem nada a ver com o circuito elitista de Lisboa. Continuo a achar que sou um rapaz de Portalegre. Portanto, senti-me o Éder do 10 de junho nesse sentido: a elite que opina e que está presente nos jornais acha que sou um palerma.
R.A.P. — Já eu não, movo-me na mais alta roda da sociedade portuguesa [risos].
J.M.T. — Ele está sempre a dizer que é um palerma, mas ninguém acredita nisso. O Pedro Mexia tem uma expressão muito engraçada sobre nós.
P.M. — Costumo dizer que as pessoas da minha família gostam das opiniões do João Miguel ditas pelo Ricardo. Precisam de outra sofisticação. [risos]

Pedro, sendo conselheiro do Presidente da República, não tentou dissuadi-lo dessa escolha?
J.M.T. — Aliás, foi o Pedro que escreveu o meu discurso, havia essa teoria. Também se dizia que meteu uma cunha para a minha escolha.
P.M. — Confesso, tive um contributo fulgurante: dei ao Presidente o número de telemóvel do João Miguel, nem sabia para o que era.
J.M.T. — Não pedi opinião ao Pedro, porque sei o que ele ou qualquer um deles me iria dizer.
P.M. — Sabes? Não sei qual seria o meu conselho. Se as pessoas querem muito devem aceitar. Outra coisa é se eu faria o convite! [risos]

Ninguém acreditará que se mudaram para ganhar menos. Já pensaram onde vão usar este excedente orçamental?
J.M.T. — Gasto tudo com os meus putos [tem quatro]. Portanto, é possível que faça mais um.
C.V.M. — Estás a dar alguma notícia à tua mulher?
J.M.T. — Não, não, estou a brincar. Mas gosto muito de dinheiro. Dá-nos liberdade.
R.A.P. — Não gasto muito dinheiro, e o que gasto não é assim em coisas sumptuosas. E às vezes quando gasto muito não fui eu que gastei. Acontece-me desaparecer dinheiro da conta [o humorista é um dos lesados do BES].
C.V.M. — É sempre um Ricardo! [risos] .

tiago miranda

Chegam à casa de um fundador do PSD, e antigo primeiro-ministro [Francisco Pinto Balsemão], e cujo diretor-geral de informação é meio-irmão do primeiro-ministro António Costa. Isso não vos condiciona?
R.A.P. — Sabe, não temos Deus nem amos. O programa é, na melhor das hipóteses, uma conversa de café sofisticada. Ninguém aqui tem uma agenda ou está a fazer algum favor.
J.M.T. — Temos uma coisa especial neste programa: ninguém faz contas de cabeça. Ninguém está a pensar no que pode obter, em quem é que vai influenciar. Simplesmente dizemos aquilo que achamos. Isso é muito raro de encontrar.

Por falar em conversas de café: o Ricardo não tem redes sociais. Como é que faz quando quer ter uma discussão inútil?
R.A.P. — [risos] Não se preocupe comigo que não me faltam oportunidades.
P.M. — És um homem casado.
R.A.P. — O casamento fornece essa possibilidade todos os dias. Mas quase todas as discussões são inúteis, mesmo as que se têm fora das redes sociais. O que me impressiona nas redes é que dois amigos podem estar a discutir à frente de toda a gente, com as pessoas a porem likes. É muito diferente ter uma discussão oralmente, em privado, ou ter uma discussão por escrito e em público. São duas coisas decisivas.
P.M. — Uma discussão por escrito em privado também é má. As coisas tendem a descambar muito mais do que numa conversa ao vivo. O tom pode ser um equívoco.
C.V.M. — Um dos problemas das redes sociais é precisamente esse, o de não se interpretar corretamente o tom em que as coisas foram ditas. Mas as redes sociais não são só isso, não se resumem a discussões entre amigos que lavam roupa suja em público.
R.A.P. — Até há gente que é mais colérica nas redes sociais! [diz, olhando para Carlos Vaz Marques]
C.V.M. — A sério? [risos]
R.A.P. — O Carlos é um viking das redes sociais!
J.M.T. — Hoje em dia está mais calmo. Houve agora um estudo segundo o qual ele é um boss das redes sociais.
P.M. — É um influencer.

Quem é que tem mais haters?
J.M.T. — Eu.

Qual foi o maior insulto que já lhe fizeram?
J.M.T. — É irreproduzível. Aliás, o Carlos já me está a desaconselhar a dizer.
C.V.M. — Não estou, só acho que ou dizes ou não dizes. Agora essa coisa de prometer e não dar...
J.M.T. — É mesmo muito violento, fica ao seu critério. Escreva que se for publicado a culpa é do jornalista. Uma vez escrevi uma crónica em que criticava os funcionários públicos, explicando que os meus pais também tinham sido, e um senhor escreveu-me muito zangado a fazer referência ao meu pai e a dizer: “Que bela punheta que se perdeu.” É um insulto que vai até ao espermatozoide.
R.A.P. — [É como quem diz] Porque é que não acabaste no azulejo de uma casa de banho. [risos]

É possível ser-se um bom cronista sem se ser insultado algumas vezes?
P.M. — Quando se escreve sobre política é impossível.
R.A.P. — E sobre futebol.
P.M. — Sobre futebol nunca escrevi. Mas hoje vejo a diferença em relação ao tempo em que escrevia sobre política no “Diário de Notícias”, com o João Miguel e o Pedro Lomba. Quando escrevo sobre um livro ou um filme, a não ser que seja o autor ou o editor, não há muito hate mail. As pessoas só ligam à política e ao futebol. E à religião também.
C.V.M. — Em relação ao “Governo Sombra”, no Twitter há alguma acidez. É curioso, porque era muito consensual, mas as coisas mudaram no período de Passos Coelho.
P.M. — Hoje ninguém é consensual, com esta coisa do ofendidismo. Tudo o que dizemos pode ofender alguém.
J.M.T. — E há reações ao estilo. Tanto no “Governo Sombra” como no “Público”, as reações de desagrado das pessoas são muito menos pelo que eu digo e mais pela forma como o digo.
P.M. — O Carlos muitas vezes vê a reações nas redes sociais no fim do programa e começa a dizer: “Estão a dar muita porrada no João Miguel.” E pensamos: “Mas ele hoje não disse nada!” Depois há outras em que pensamos: “Pronto...”
R.A.P. — “Hoje é que a fizeste bonita”.
P.M. — Mas muitas vezes não disse nada de especial. Há uma má vontade gigantesca.

Depois da última (breve) passagem em 2013, Ricardo Araújo Pereira está de volta à SIC em 2020. Foi na estação que iniciou a carreira, na altura com o grupo “Gato Fedorento”, com quem deu os primeiros passos. Com eles voltou em 2009, para a apresentação de um programa sobre as eleições legislativas. No regresso, traz outros três companheiros: Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares e Pedro Mexia, com quem participa no programa “Governo Sombra”

Depois da última (breve) passagem em 2013, Ricardo Araújo Pereira está de volta à SIC em 2020. Foi na estação que iniciou a carreira, na altura com o grupo “Gato Fedorento”, com quem deu os primeiros passos. Com eles voltou em 2009, para a apresentação de um programa sobre as eleições legislativas. No regresso, traz outros três companheiros: Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares e Pedro Mexia, com quem participa no programa “Governo Sombra”

ana baião

Nunca se arrependeram de nada que afirmaram no programa?
R.A.P. — Não. Isto é um programa de debate com humor.
J.M.T. — Mas não era para ser, era para ser uma coisa séria. A culpa foi tua.
R.A.P. — Eu não tenho nada para dizer. As pessoas estão interessadas naquilo que eu digo apenas na justa medida em que as faça rir ou não.
C.V.M. — Isso não é assim.
R.A.P. — É, é.
P.M. — Repara do que disseste sobre os cadernos de exercícios [para meninos e para meninas], no impacto que isso teve.
R.A.P. — Mas as pessoas estavam a rir.
C.V.M. — Já te disseram que estás viciado na punchline.
R.A.P. – Já, porque é essa a minha profissão. Não é frequente arrependermo-nos de dizer uma piada, porque uma piada não aleija.
P.M. — Mas às vezes dizemos coisas que não estão certas. No outro dia estávamos a falar sobre o Presidente da Ucrânia e depois uma senhora ucraniana veio explicar-nos que não era nada como dissemos. Foi muito instrutivo.

Ricardo, foi acusado de ter dado o empurrão decisivo para eleger Joacine Katar Moreira. Sente isso?
R.A.P. — Às vezes, essa ideia de que o humor tem muito poder faz com que as pessoas tirem conclusões desse tipo: que o referendo do aborto teve uma influência nossa, que a eleição da Joacine também. Embora a minha posição fosse clara quer num caso quer noutro – não votei na Joacine e votei “Sim” no referendo do aborto – a minha intenção era que esses momentos tivessem graça. É só com isso que estou preocupado. O que acontece depois está fora do meu alcance. Quem deu um impulso para que a Joacine fosse eleita foi ela. Disse coisas engraçadas no programa, disse aquela frase que foi um dos estribilhos da campanha: “Gaguejo a falar, mas há outros que gaguejam quando pensam e estão lá.” Limitei-me a convidar as pessoas e dei rigorosamente as mesmas oportunidades a todos.
J.M.T. — O André Ventura não foi ao teu programa e ainda assim foi eleito.
R.A.P. — Exatamente. A história do poder do humor toca-me sempre. Sobretudo temo a tentativa de me responsabilizarem. Se aderirmos à tese de que o humor tem poder, de repente não é estranho que alguém me venha regulamentar o ofício.

Por falar em Joacine: o João Miguel escreveu que eram um absurdo as intervenções dela na Assembleia da República pelo facto de gaguejar. Alguém que está há anos na televisão apesar de falar de forma esquisita é a pessoa certa para fazer a crítica?
J.M.T. — Sou, precisamente por causa disso. É como os judeus fazerem piadas sobre o Holocausto, só eles podem. Só um deficiente da fala podia escrever aquele texto, que não acho que fosse assim tão violento.
R.A.P. — Atenção, isto é ridículo. O João Miguel tratar-se a si próprio como deficiente da fala. Desculpa lá, tu embirras com uma letra [o “r”] e nem sequer é em todas as posições. As pessoas que não dizem os “l” têm a decência de não os dizer estejam eles onde estiverem. Agora, tu dizes o primeiro “r” de Ricardo na perfeição. Embirras só com quando está no meio das palavras.
J.M.T. —Pior, é aquele “r” que é articulado com a ponta da língua. É falta de prática com a língua.
R.A.P. — Isso é que é triste.
J.M.T. — É uma coisa que está sempre presente na minha vida, a minha mulher até me queria convencer a fazer terapia da fala antes do discurso do 10 de junho. Mas não me chateia muito, acho que já faz parte. Se fizesse terapia da fala e corrigisse isso, as pessoas iam sentir-se defraudadas.

O que é que podem prometer aos portugueses para esta legislatura. Vai mudar alguma coisa no programa?
C.V.M. — Não muda nada.
J.M.T. — Somos como aqueles restaurantes muito bons que têm sempre o cozido à portuguesa à quinta-feira. O nosso é à sexta. Cozido à portuguesa do melhor que se arranja por aí.
R.A.P.— Vai ser a mesma fantochada. Essa garantia podemos dar.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 4 de janeiro de 2020