Cultura

“Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue”: Agustina Bessa-Luís 1922-2019

3 junho 2019 11:57

daniel rodrigues

Dizia de si própria que “queria ser excelente nalguma coisa” - a mediocridade exasperava-a. Por isso decidiu assim: “Pensei que me devia casar, porque a solteiria me distraía de maiores realidades”. Cumpriu o desígnio da excelência - a obra que deixa é disso prova. “Há pouca gente que perceba que escrever é uma espécie de danação em que às vezes se tem o encontro com Deus”, disse outrora. Agustina Bessa-Luís morreu esta segunda-feira e o Expresso republica um longo e fundamental artigo para compreender quem era a mulher e a escritora - o texto foi publicado originalmente a 24 de março de 2018

3 junho 2019 11:57

Era domingo. O dia amanheceu cheio de luz e o sol entrou pelas janelas nascentes viradas para o jardim. A casa está em silêncio. São oito da manhã e Agustina ainda não acordou. Na sala-biblioteca da escritora, em cima da mesa de trabalho, estão pousados um livro e um envelope vazio com uma citação anotada à mão, copiada na véspera: “Não queiras ir à procura de outro tu. Não te queiras fazer outro diferente daquele que Ele mesmo fez.” A caligrafia é limpa e percetível. Caligrafia de tinta permanente. Ao contrário da letra de Agustina não precisa ser decifrada. O livro de onde a citação fora tirada é “Santo António”, o primeiro de uma série de biografias ficcionadas que Agustina Bessa-Luís escreveu em 1979. Alberto Luís quer reeditá-lo, mas acha que a obra tem algumas falhas históricas. Sempre deu muita atenção a estes pormenores. Rigores de homem minucioso. Anda ocupado com leituras sobre a Ordem dos Franciscanos em livros que manda vir pela Amazon, agora que já não pode andar pelas livrarias como fez a vida inteira.

Com 94 anos parece ter a energia renovada na urgência em deixar pequenas coisas prontas. Um arranjo nos degraus de um corredor interior para atenuar a descida que liga a ala da mulher ao resto da casa, agora adaptados ao andar de passarinho de Maria Agustina. O trabalho terminou na sexta-feira ao fim da tarde, quando a madeira foi coberta por um tapete vermelho. Uns dias antes, Alberto andara com o jardineiro a passear pelo jardim e também lhe dera indicações; a laranjeira velha teria de ser deitada abaixo, as hidrângeas secas deveriam ser substituídas por outras novas, talvez em setembro voltassem a florir o jardim do Gólgota. Sábado à noite, telefonara a Mónica, a única filha do casal Bessa-Luís, por causa de uma série de fotografias de viagem que estão a organizar. Mónica não conseguia identificar algumas pessoas e ia levá-las para o pai a ajudar. Era o trabalho para o dia seguinte. Para esse domingo de 12 de novembro de 2017.

A ESCRITORA, COM OS PAIS, NA CASA DA RÉGUA, NO DOURO

A ESCRITORA, COM OS PAIS, NA CASA DA RÉGUA, NO DOURO

arquivo da família

Às dez da manhã, quando Agustina acordou, já havia um burburinho pela casa. Tomou o pequeno-almoço e decidiu a roupa que queria vestir, como sempre faz. Depois foi para a sua sala, onde ela e o marido passaram juntos os últimos onze anos, ele a ler e a trabalhar, ela sentada na sua mesa de trabalho, no lugar onde sempre escreveu. Só muito tempo depois perguntou: “O Alberto?” Quando lhe contaram que o marido tinha já morrido, ficou serena, expectante do momento seguinte.

PASSADEIRA VERMELHA

Em setembro de 2006, quando Agustina Bessa-Luís começou a dar sinais de que algo de grave se passava — até ao acidente vascular cerebral (AVC) que a retirou definitivamente da esfera pública — um círculo de silêncio imposto pela família selou-se em redor da autora. Tinha então 84 anos e uma vastíssima obra publicada. Um dia terá dito: “Sou uma escritora fora do tempo” Desde então, fora do mundo. Aquela que se projetou como uma das mais consagradas figuras das letras nacionais quando publicou, com 26 anos, o seu primeiro romance “Mundo Fechado”, hoje, aos 95 anos, já não pertence ao seu universo literário.

A ESCRITORA NA PRAIA DA PÓVOA

A ESCRITORA NA PRAIA DA PÓVOA

Uma obra não começa nem acaba num número de livros editados. Tem os seus alicerces bem fundados num subterrâneo labiríntico de papéis que sustentam o território do escritor. Originais que nunca foram editados, contos dispersos esquecidos em gavetas, uma vasta correspondência com cúmplices de escrita e familiares, folhas com anotações para conferências, uma peça de teatro que não chegou a ser encenada. Material disperso, à espera de um rumo quando o autor desaparece de cena. Descendo as escadas de tapete vermelho que há quatro meses Alberto Luís tratou de deixar pronta para a mulher, dois dias antes de morrer, é impossível não pensar na carga metafórica que este gesto simboliza.

Agustina tinha a urgência da escrita, “Se vejo um papel diante de mim, apetece-me logo escrever.” Lourença Baldaque, a mais nova dos três netos de Agustina e Alberto, lembra-se de a ver chegar da rua e anotar reflexões nas margens dos livros, nos espaços em branco de uma folha depois de uma conferência. “Sempre a conheci a escrever, mas parecia não ter a preocupação da posteridade. Como se só lhe interessasse o tempo presente, o momento da escrita. Esse desprendimento talvez acontecesse por saber que o meu avô iria tomar conta de tudo. Como aliás sempre fez depois de terminado cada romance.”

APANHADOS POR UM FOTÓGRAFO NO PRIMEIRO ENCONTRO, NO PORTO, EM 1946

APANHADOS POR UM FOTÓGRAFO NO PRIMEIRO ENCONTRO, NO PORTO, EM 1946

O desejo de regressar ao universo literário de Agustina, e tornar novamente presente a obra para que pudesse ser transportada, foi uma determinação de Alberto Luís, seis anos depois do AVC da mulher. Nessa, altura, a escritora começara a recuperar a mobilidade, num desafio de resistência provocadora, em tudo contrário ao que diziam os médicos. Sem falar, revelava estar bem no seu universo de coisas simples e pequenos passos, atenta e curiosa como sempre fora. “Como se estivesse a experimentar uma vida que nunca teve, depois do tumulto da criação e da exigência do compromisso que fez consigo mesma”, reflete Lourença.

MÓNICA BALDAQUE COM O PAI

MÓNICA BALDAQUE COM O PAI

Em 2012, quando, a partir de vários textos dispersos, Alberto Luís decidiu editar “Caderno de Significados”, o primeiro de uma série de inéditos que, desde então, começaram a ser publicados, Lourença foi chamada para o ajudar. Entrou assim no núcleo mais reservado de acesso à obra. Sempre fora dele a tarefa da revisão dos manuscritos e o trabalho de os datilografar. A famosa e dificílima caligrafia de Agustina não assustou Lourença. Pelo contrário. Ao mergulhar nos originais, “no primeiro pensamento da autora”, compreendeu melhor aquela avó, sempre tão privada e secreta, só se entregando com intimidade à escrita e a um mundo onde só Alberto Luís pudera entrar.

MUNDO FECHADO

“Eu queria ser excelente nalguma coisa. A mediocridade exasperava-me e os pés de barro ainda mais. Pela primeira vez pensei que me devia casar, porque a solteiria me distraía de maiores realidades”, escreveu na sua autobiografia de textos curtos, “O Livro de Agustina”, publicado em 2007.

AGUSTINA E ALBERTO LUÍS NA PÓVOA DE VARZIM, ONDE PASSAVAM O VERÃO

AGUSTINA E ALBERTO LUÍS NA PÓVOA DE VARZIM, ONDE PASSAVAM O VERÃO

Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa e Alberto Luís casaram-se na Igreja Românica do Porto, num sábado, a 25 de julho de 1945, tinha ela 22 anos e ele 21, ainda era estudante em Coimbra, onde se licenciava em Direito. A celebração dispensou familiares e foi tudo menos formal. Agustina ia de vestido preto e colar de pérolas. Terminada a cerimónia foram com os padrinhos para um lanche na Bolhão, a confeitaria chique do Porto, partindo de seguida para a estação da Campanhã, onde apanharam o foguete até Lisboa, para passar dois dias de lua de mel.

Também pouco usual foi a forma como se tinham conhecido um ano antes, e que mais faz lembrar um parágrafo decalcado de um romance de Agustina, em que o namoro começou depois de ela ter enviado um anúncio para o jornal “Primeiro de Janeiro”: “Jovem instruída procura correspondência com pessoa inteligente e culta”. Sobre esse princípio inaugurado com a palavra, a autora revelou numa entrevista a Alexandra Lucas Coelho, no “Público”: “A correspondência é que dava uma expectativa do tipo humano que se ia encontrar. O que é muito mais sólido... A palavra tem uma força que não tem a presença, nem as hipóteses que a presença física pode dar. É muito mais poderosa do que isso. É suficiente para abrir um caminho, para passar à fase seguinte que é o encontro com a pessoa”; salvaguardando-se num remate: “No casamento há duas pessoas, e eu só posso dizer aquilo que é partilhável, e como no casamento praticamente nada é partilhável, ficamos por aqui.”

RETRATO DE AGUSTINA NUMA AGUARELA DE ALBERTO LUÍS DE 1973

RETRATO DE AGUSTINA NUMA AGUARELA DE ALBERTO LUÍS DE 1973

Num dos seus raros testemunhos sobre Alberto Luís — o homem que na juventude lia ensaios niilistas de Nietzsche, que sonhou com as Belas-Artes, mas que a primeira vez que viu uma obra de Caravaggio ficou tão impressionado que, percebendo que nunca iria pintar assim, entregou-se ao curso de Direito em Coimbra, acabando por se tornar um dos juristas reputados do Porto — Agustina escreveu numa crónica do “Jornal de letras”: “Lembro-me das primeiras cartas que eu recebia no correio da tarde. Havia um correio da tarde que fechava as pequenas feridas da esperança. Nas cartas havia às vezes desenhos cheios de graça familiar, no estilo de Gibson, com mulheres doces e pensativas do romantismo americano. Eram desenhos muito belos que pareciam sair dessa alma de estudante um pouco furtivo nos seus conflitos com a liberdade”.

NA PRIMEIRA VIAGEM À GRÉCIA, NO TEMPLO DE NEPTUNO, EM 1963

NA PRIMEIRA VIAGEM À GRÉCIA, NO TEMPLO DE NEPTUNO, EM 1963

Alberto Luís, dizem todos os que com ele privaram, tinha uma cultura sofisticada e transversal, alimentada por uma curiosidade humanista, como um príncipe da renascença. Apaixonado por história, filosofia e arte, da Idade Média à arquitetura contemporânea, tudo lhe interessava. Desde cedo, atribuiu-se a incumbência de pesquisar nas livrarias os livros que pudessem interessar a Agustina e também desde cedo levara a cabo a tarefa de realizar o trabalho de bastidores, libertando-a do que ela não gostava de fazer. Pesquisas, conferir datas ou perder tempo com pormenores de rigor, tudo isto a deixava impaciente e a aborrecia. Como de resto também a aborrecia perder tempo com um romance, mal acabava de o escrever. A tarefa pesada de decifrar, rever e passar à máquina os manuscritos era dele. “Aquilo era terrível porque a letra era ilegível e por vezes não conseguia decifrar e pedia-lhe ajuda, o que a impacientava muito. A minha mãe sempre foi desorganizada, bastante caótica, mesmo a juntar as peças. Ele, que tinha espírito de jurista, ficava transtornado”. Essa dispersão está nos romances. Quando lho apontavam, ela defendia-se, esclarecendo: “A vida é mesmo assim, não segue uma coerência narrativa.”

A HERANÇA

Quando, em 1954, Agustina escreve “A Sibila”, inventa um território novo. “Este é o livro-matriz de transformação de toda a literatura de ficção”, sublinhava o crítico e ensaísta português Eduardo Prado Coelho. Quina, a intrigante e rural sibila do romance que foi leitura obrigatória no secundário, na disciplina de Português, e uma das grandes personagens criadas por Bessa-Luís, é a Amélia, a tia da família do Paço, irmã de Artur Teixeira de Bessa, o pai da escritora, que partiu para o Rio de Janeiro aos doze anos e de onde regressou aos 25 com uma fortuna considerável.

NA CASA E NA PRAIA DE ESPOSENDE, ONDE A FAMÍLIA VIVEU UNS ANOS, DURANTE A DÉCADA DE 60

NA CASA E NA PRAIA DE ESPOSENDE, ONDE A FAMÍLIA VIVEU UNS ANOS, DURANTE A DÉCADA DE 60

Este homem, moldado pelo princípio de ação que rege os aventureiros e os jogadores, foi referência maior do seu mundo afetivo e o grande aliado. O movimento alternante de Artur, que trocava de casa e de geografia em função do jogo e da fortuna que ia ganhando ou perdendo, não só lhe deu um conhecimento vasto dos homens de almas viciosas e perdulárias, apaixonantes nas suas múltiplas contradições e matéria mais do que suficiente para explorar em romances, como também a levou desde logo a cultivar o desprendimento em relação às coisas e aos lugares. O que a vai marcar profundamente, e será a bagagem que transportará para toda a vida, é a liberdade com que desde cedo esteve entregue a si mesma. “Nunca fui propriamente tratada como criança, era um ser que estava ali a crescer e participava na vida dos adultos. Nada me era escondido”. Agustina adorava estar presente nesse mundo onde tudo observava. Nas suas memórias de infância, uma das recordações mais vivas é a das tardes passadas no Jardim Passos Manuel onde o pai, que nessa fase entrara no mundo do espetáculo inaugurando uma sala de café-concerto com matinés de cinema, a levava, deixando-a num delírio de descobertas: “Ia para o escritório dele ver fotografias de atrizes que acompanhava nos filmes. Era um mundo de beleza ao alcance da imaginação, e aí tive a companhia de grandes astros, de perfil, a fumar um cigarro turco. Tudo o que eu podia desfrutar do tempo infantil me parecia vulgar e estranhamente impróprio”.

Entre a casa de Vila Meã, onde nasceu, a da Póvoa de Varzim, onde o pai foi abrir o casino, que com as suas praias de marés agitadas lhe ensinou o conforto das paisagens agrestes, à casa da Maia, um chalé com parque frondoso e lago com barquinho, ou ao palacete na Rua da Boavista, no Porto, passou da infância à adolescência numa espécie de deambulação encantatória, até aterrar com 15 anos na Régua, na casa da família da mãe, Laura Jurado Ferreira. O Douro foi o lugar do exílio. Arrancada de uma adolescência mundana e convivial, desterrada para uma terra onde as famílias só se relacionavam por parentesco ou fortuna, Agustina detestou esses quatro anos de passagem à idade adulta.

AGUSTINA E MÓNICA, A ÚNICA FILHA

AGUSTINA E MÓNICA, A ÚNICA FILHA

Mas foi ali, nesse lugar de tédio profundo, que adquiriu a aprendizagem da resistência e de retirar a seu favor as adversidades e esse foi também o território da sua persona literária. “Ali estava eu a fazer regime tão brutal que me precipitou na anorexia. Bebia vinagre e quase não me sentava para comer, continuava a ler tudo o que podia e de repente pus-me a escrever um livro. Escrevia numa letra tão intrincada que parecia destinar-se a não ser decifrada por mim nem por ninguém”, confessou no “Livro de Agustina”.

A casa da Régua, com vista para o rio, habitada por várias gerações de Teixeiras — uma linhagem de aventureiros e de espanholas, com rasgos de excentricidade e gostos literários — a sua vasta biblioteca e as arcas carregadas de cartas e diários de gente com mania de tudo registar e vocação para a escrita, deram-lhe o manancial exploratório que a levou desde muito cedo a descobrir o seu universo de criação. Na aridez dos tempos do Douro, Agustina, que já tinha o talento da escrita, definiu a matéria romanesca, sem a qual não se vai longe na obra. A família, em geral, como um tema recorrente; e a dela, em particular, para construir uma galeria rica e complexa de personagens, prontas para serem devoradas no romance. Revela, Lourença, a neta: “O meu nome foi uma herança da trisavó espanhola, Lourença Agustina, que se casou com um Lourenço e que tinha uma criada com o mesmo nome. Sempre ouvi falar do diário desse trisavô e de um tio António que trabalhava em engenharia civil, tinha andado por África e pelo Paraguai e mandava cartas onde descrevia a paisagem, a roupa, falava de política, do que vestia quando fazia os seus passeios de moto e tinha opiniões sobre tudo o que o rodeava. Era um homem bonito. Nessa altura, a minha avô teria uns 17 anos e imagino o que seria para uma rapariga daquela idade, isolada de tudo, receber cartas assim.”

AGUSTINA E ALBERTO LUÍS, COM QUEM ESTEVE CASADA 72 ANOS

AGUSTINA E ALBERTO LUÍS, COM QUEM ESTEVE CASADA 72 ANOS

Agustina disse várias vezes que as suas personagens foram praticamente sempre as mesmas, variando-lhes os nomes, os rostos e os atos, como atores convidados do seu teatro particular que ela dirigia como marionetas. Com o seu dom quase amoral de escalpelizar as almas e um refinamento apurado para a palavra e para o humor, finalmente encontrada no seu mundo fechado, Agustina pôde expandir-se e dedicar-se inteira à criação. “Eu não queria o êxito fácil, as opiniões, os favores, agasalho da tertúlia e o calor da insubordinação, dos injustiçados e dos paladinos da razão. Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue, avançando sempre, criando enredos e fazendo saltar os personagens das páginas. Há pouca gente que perceba que escrever é uma espécie de danação em que às vezes se tem o encontro com Deus.”

TEMPO DE OURO

Liberta dos laços de família, Agustina encontrou no casamento um aliado à altura do seu desígnio. Alberto, que se tornou um advogado reputado do Porto, na área das finanças, tinha sensibilidade de artista, era filho de um militar bastante austero e pertencia a uma família de burguesia provinciana da região de Coimbra — e esta família não teve lugar na obra da autora. Não por falta de matéria. Agustina afirmava que qualquer vida dá um romance. Se não incluiu a família do marido foi para o preservar, teve esse cuidado. Nas recordações de Mónica, pai e mãe formavam um núcleo cerrado, cujo centro eram os livros: “Ela tinha um objetivo na vida, que era escrever, e ele tinha o objetivo de a acompanhar. Tudo demais ficava fora.” Tinham também muitos interesses que os absorviam — a divagação, a conversa, a cultura, as viagens — aos quais se dedicavam com gosto. Formavam um casal apreciável.

Pouco depois de escrever “A Sibila”, já viviam no Porto, a escritora precisou de se isolar. Com dinheiro deixado em herança pela tia Amélia do Paço comprou uma casa em Esposende. A família seguiu-a. Foram tempos memoráveis de silêncio e descoberta, que Mónica recorda como o melhor período da sua vida familiar. “A Ilse Losa tinha lá uma casa modernista de fim de semana, e elas, ambas escritoras, frequentavam-se com uma boa amizade”. Agustina, que era das praias do Norte, apaixonou-se por aquele lugar inóspito, habitado por pescadores e pela sua casa rodeada de pinhal. Alberto ia todos os dias ao Porto, onde estava a trabalhar no escritório de Sá Carneiro, e só voltava ao fim da tarde. Tinha a mania das obras, dedicava-se a fazer remodelações na casa, a pintar aguarelas a dar mergulhos no mar gelado. A escritora, que não gostava de ficar bronzeada, servia-se da praia como paisagem. Entretinha-se mais com a peixeira, que vinha à porta entregar o peixe, e perdia-se horas na conversa com ela a divertir-se com aquele linguajar. Escrevia muito e recebia os amigos que os vinham visitar, espantados com o isolamento voluntário do casal.

Também por esta altura começaram a viagens. De Esposende partiam no Volkswagen preto, apenas com uma ideia de destino. Roma, Sevilha, Provença... Durante um mês ou mais faziam-se à estrada, muitas vezes desviando-se do itinerário, parando aqui e ali para visitar mosteiros medievais e igrejas românticas, aldeias e mercados, qualquer coisa que lhes interessasse. Um dia passaram pela Granja para apanhar Sophia de Mello Breyner Andresen e lá partiram os três no Volkswagen até à Grécia, numa espécie de romaria iniciática mais lenta do que os postais que chegaram antes deles a casa. Sophia, que na primeira manhã em Atenas deixa-os a dormir e vai ver ruínas, escreveu notas num diário que nos revelam as distâncias que existiam entre as duas mulheres de letras: “Homem que vendia alpercatas a 9 escudos. Magro, alto, pálido, cansado, doente. Eu disse ‘tem cara de fome’ e pensei: ‘É o Cristo’. Agustina disse: ‘Coitado, é delicado. Não gosta de gabanços e deve ter uma paixão pela Lolobrigida’.”

LER AGUSTINA

O regresso ao Porto na década de 70, para onde têm de voltar porque Alberto Luís é convidado a trabalhar no Banco Português do Atlântico, marca. Durante um ano ainda tentam manter a casa de Esposende e, nas cartas enviadas a Laura, a mãe, com quem tem uma relação de permanência regular e de afetividade intermitente, descreve essas visitas à casa vazia com uma nostalgia nada habitual nela. No Porto experimentam várias moradas, que não os satisfazem, até descobrirem uma casa perfeita, indicada por Fernando Távora, na Rua do Gólgota, numa zona da cidade ainda rural, onde se entregam aos seus interesses, novamente afastados do movimento da cidade. Para ela os livros, sempre. Para ele o Direito, a obra dela, os livros, o jardim da casa.

NA SUA SALA DE TRABALHO

NA SUA SALA DE TRABALHO

Lourença sempre conheceu os avós nesta casa, onde ela e os irmãos, Leonor e Alberto, vinham lanchar nas tardes de inverno. Agustina interrompia o trabalho para saber novidades e contar coisas sobre os encontros e as pessoas que conhecera em viagens de escritores, “naquele modo de contar pequenas coisas sem nunca parecerem banais e de observar os seres humanos, espécie de exercício vicioso que a levava a ler tudo o que estava por trás do que diziam e os devassava.”

A neta, que nasceu no ano em que foi publicada “Fanny Owen”, em 1979, e lhe conheceu bem a obra, reencontrou-a a outra luz ao mergulhar no universo agustiniano através dos manuscritos. “Na escrita do romance é sempre contínua. Raramente rasura, não há frases inacabadas. Mesmo quando interrompe uma frase volta a pegar no ponto onde estava sem hesitação. Como se nunca tivesse saído dali. Muitas vezes, encontro uma frase e penso: “Em que ano foi isto? O que estaria eu a fazer? O que se passaria neste momento com a vida dela? Há muitos livros que só percebi depois deste trabalho.” Foi o caso de “Vale Abraão”, inspirado em “Madame Bovary”, que Manoel de Oliveira pediu a Agustina para escrever e ele pôs em cinema. Ema, a bovarinha do Douro, é uma fusão entre a original de Flaubert e uma mulher francesa que Agustina conhecera no tempo de Esposende e transformara naquele modo de retalhar os personagens. Foi único romance que repetiu. Sempre a intrigara a dificuldade de leitura que o livro suscitava. “Tinha uma professora que embirrava com Agustina e detestava ‘Vale Abraão’”, conta. “Ao ler o manuscrito percebi coisas que nunca tinha apanhado nas edições e percebi o mistério do incómodo daquele adultério. É um livro que nos põe a duvidar das nossas escolhas mais íntimas”, revela.

OM MANOEL DE OLIVEIRA, O CINEASTA PARA QUEM ESCREVEU “VALE ABRAÃO” E “FANNY OWEN” ENTRE OUTROS FILMES

OM MANOEL DE OLIVEIRA, O CINEASTA PARA QUEM ESCREVEU “VALE ABRAÃO” E “FANNY OWEN” ENTRE OUTROS FILMES

Francisco Vale, editor da Relógio D’Água, que há um ano acolheu a obra de Agustina Bessa-Luís depois da rescisão do contrato com a Babel, a editora de Paulo Teixeira Pinto, explica as razões por que quis Agustina no seu catálogo. “Apesar de ser uma autora considerada difícil, a sua escrita, os aforismos, a riqueza do léxico difícil não foi ultrapassada pelo tempo. Tem uma intemporalidade rara. Mas a sua força maior está nas personagens. Criou três mulheres inesquecíveis: Ema, Quina e Fanny Owen, a ‘Francisca’, de Manoel de Oliveira.” A prova do ‘efeito Agustina’, continua o editor “foi quando a Relógio D’Água começou a a reeditar os romances, e pediu a autores como Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes, Hélia Correia ou Pedro Mexia que escrevessem o prefácio. Todos quiseram sem hesitar. Estas reedições estão a ter grande efeito. Há um renovamento de interesse pela obra dela.”

Quando Francisco Vale começou a trabalhar nos livros de Agustina, ficou espantado com a vitalidade de Alberto Luís. Encontraram-se uma vez na casa do Porto, onde o advogado ia buscar livros e originais para o editor ver, sentando-se ao seu lado, numa jovialidade incomum num homem de 93 anos. Mas o que mais o comoveu foi a determinação de Alberto em não se conformar com o que considerou ser um desprestígio da parte da antiga editora e a força em lutar por Agustina.

REGRESSO À CASA DO GÓLGOTA

No último romance e 67º livro, “Ronda da Noite”, a autora regressa à família do Douro. Ao contrário do que lhe era habitual, já que nunca falava no que andava a escrever, contou imensas coisas à filha, quis pô-la a par do enredo. Este é o livro preferido de Mónica e é ela que descreve: “Passa-se na Quinta das Caldeiras, outra casa comprada pelo meu trisavô, com traça medieval, muito bonita, e começa com uma vista a partir das caldeiras e depois há uma visita ao cemitério, arrepiante, feita pela Maria Rosa, que na verdade é a mãe dela e nunca a tinha descrito daquela maneira. Como uma despedida a todos os seus fantasmas e a tudo o que lhe era mais profundo.” Quando o termina, já em esforço e com sintomas da doença, diz, “Pronto!”. O livro estava pronto e nesta exclamação encerrava a obra. Era o “pronto” da vida dela. Acabava ali.

O jardim de relva molhada, com o rio Douro a correr lá em baixo. A magnólia já começou a perder a flores e o chão cobre-se de cachos de pétalas rosadas. Ao lado da laranjeira velha que Alberto Luís mandou deitar abaixo pouco antes de morrer, está o limoeiro onde Maria Agustina pediu para enterrar o cão que adorava, um rafeiro que dizia ser pastor dos Pirenéus, companhia dos passeios solitários de Esposende. A única vez que Mónica viu a mãe chorar foi quando o cão morreu.

Através das salas silenciosas passam as estantes cheias de livros: Santo Agostinho, a obra completa de Freud, que Agustina leu como se fosse um romance devastador. “Depois disto nada ficou intacto, pensei.” Num armário fechado com vidrinhos e objetos preciosos, lá está um retrato de época do tio António, da família do Douro, que morreu de tuberculose. Agustina não o conheceu, mas acompanhou-a muito na imaginação. Em cima de uma mesa estão pousadas edições antigas de “Eugénia e Silvina” e “O Mosteiro”, com cópias de manuscritos entaladas entre as folhas. Há ainda muito para fazer, há caixas que guardam o arquivo privado da escritora, onde está parte da correspondência que não foi mexida. “O arquivo de Agustina manter-se-á na posse da família, filha e netos, que o irão preservar e trabalhar. Eu e a Lourença tomaremos conta da organização”, informa Mónica. “Não haverá, em circunstância alguma, uma casa-museu Agustina Bessa-Luís. As casas-museus são todas aquelas por onde passou, onde viveu, onde se inspirou, onde escreveu, e das quais ficou a memória nas suas obras”, ressalva, indicando que tem havido uma certa pressão para que isso aconteça desde que Alberto Luís morreu. A filha quer deixar bem claro que a ideia está fora de questão. Vem todos os dias à casa do Gólgota ver se está tudo em ordem, agora que só cá vive a escritora, sempre acompanhada por uma senhora que toma conta dela e a segue como uma sombra. “Nunca a sua presença foi tão forte na casa. Sentimos a sua força, a sua intensidade, só que agora já não interfere. Só há o silêncio. Às vezes é muito desconcertante”, diz. Como um enigma.

COM ALBERTO LUÍS

COM ALBERTO LUÍS

Confere que a mãe acabou de almoçar e bebeu uma taça de champanhe. Faz questão de beber uma taça ao almoço e outra ao jantar, um hábito que adquiriu desde de que estabilizou depois do AVC, naquele ato de voluntarismo que espantou a neta. A filha interpreta esta vontade de champanhe a acompanhar cada refeição como a celebração de mais um dia. Das imagens mais fortes que guarda de Agustina é dela na sala, a escrever com uma prancha em cima dos joelhos, papel e caneta na mão. Mónica entrou de repente na sala, a mãe interrompeu-se e deu-lhe atenção, depois regressou ao texto, numa expressão que a filha estranhou, “como em transe”. Como se tivesse passado para um mundo diferente.