Cultura

Como Winston Churchill beneficiou do duelo entre as favoritas

24 fevereiro 2019 1:52

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

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Jornalista

Olivia Coleman interpreta a rainha Anne em “A Favorita”

atsushi nishijima. © 2018 twentieth century fox film corporation

O amor manifesta-se de maneiras estranhas em sítios improváveis: “A Favorita”, obra do grego Yorgos Lanthimos nomeada para 10 óscares, é sobre isso e muito mais

24 fevereiro 2019 1:52

Marta Gonçalves

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Sarah: Não me estou a queixar, mas está louca? Dar-me um palácio?

Rainha Anne: Há algum tempo que lhe queria oferecer algo. Esta parece-me uma boa oportunidade. O Marlborough ganhou. Se os tories estão de acordo com isto? Não tenho a certeza...

Sarah: É uma extravagância monstruosa, Mrs Morley. Estamos em guerra.

Rainha Anne: Vencemos.

Sarah: Ainda não acabou. Temos de continuar.

Rainha Anne: Oh… Não sabia disso… Bem, Mrs Freeman, você irá ser inteligente e, como protetora das contas do reino, arranjará forma de pagar.

Anne é rainha de Inglaterra, da Escócia e da Irlanda e depois também da Grã-Bretanha. Sarah é Sarah Churchill pelo casamento, duquesa de Marlborough para a corte e Mrs. Freeman para a rainha. Aproveitando uma das recentes vitórias militares do marido de Sarah, John Churchill, Anne presenteia “A Favorita”: o palácio Blenheim ficava nos arredores de Londres, é enorme e extravagante. Tratava-se de uma prenda para aquela que na verdade era a segunda mulher mais poderosa do reino.

“Os Churchill eram quase uma segunda família real dentro da corte. Sarah era quase tão poderosa como a rainha, tanto que faltava ao respeito a Anne de uma forma escandalosa”, diz João Paulo Ascenso, professor da Faculdade de Ciências sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). Estávamos no século XVIII e todos sabiam da proximidade entre as duas mulheres.

Conheceram-se em miúdas, na corte, quando a então princesa tinha oito anos e a futura duquesa 13. Os pais de ambas eram amigos e a presença de Sarah foi sempre constante ao longo do crescimento de Anne. Mais velha, torna-se dama de companhia. E, à medida que a futura rainha ganha poder, também Sarah se torna mais poderosa. Entre elas tinham nomes carinhosos: Sarah era Mrs. Freeman, enquanto Anne era Mrs. Morley.

“Em 1702, a princesa chega de facto ao trono. Este é o golpe de sorte para Sarah. A nova rainha vai reabilitar o casal Churchill e atribui-lhes o título de duques e oferece-lhes pelos serviços prestados à coroa”, explica João Paulo Ascenso. “Sarah Churchill estava constantemente a efetuar manobras políticas - era uma mulher política profissional e rivalizava com qualquer homem da época. Tinha capacidade de mudar de posição, dar golpes e sobreviver. No fundo, era tudo uma luta pela sobrevivência num universo político muito complexo em que as feridas do passado ainda não estavam saradas.”

foto yorgos lanthimos. © 2018 twentieth century fox film corporation

Além de duquesa, Sarah era a mais importante dama de companhia da rainha (“Lady of the Bedchamber”) e a protetora das contas da governante (“Keeper of the Privy Purse, Groom of the Stole e Ranger of Windsor Great Park”). Era o topo de carreira para uma mulher dentro da corte inglesa, onde era também a Mistress of the Robes.

Favorita”, as duas são retratadas também como amantes.“É facto que havia uma relação muito intimida entre elas.” Há quem diga que não passou de algo platónico, porque a logística não permitia que Anne mantivesse uma relação extraconjugal - dentro do palácio estava sempre acompanhada e sob vigilância. “Anne e o marido viviam no mesmo palácio, partilhavam os mesmos aposentos e a mesma cama. E é exatamente por isso que a relação carnal e lésbica com Sarah é posta em dúvida.”

Atormentada Anne, sofrida Anne

Dezassete gravidezes.

Doze abortos.

Cinco filhos mortos.

A pressão para dar um herdeiro protestante era enorme, pairava sobre a corte o receio de que se Anne não tivesse um filho, o seu irmão, James (filho da segunda mulher de seu pai e católico), pudesse assumir o trono. Engravidou 17 vezes, em 12 delas nunca chegaria a ver os filhos vivos (o filme fala em 17 abortos mas a História relata que são menos cinco). Sofreu abortos espontâneos e as crianças que sobreviveram à gravidez nunca resistiram muito tempo - à exceção de uma, que morreu quando completou 11 anos.

“Temos descrições dos sintomas da rainha”, afirma o professor universitário. Esta era um época do Iluminismo em que se priorizava a ciência e um caso como o de Anne era para ser estudado. “Sofria de gota, mas há médicos que levantam a hipótese de ter sofrido também de lúpus, outros dizem que o problema era uma má formação congénita na zona pélvica que provocava os sucessivos abortos e há também quem defenda que afinal se tratava de uma incompatibilidade sanguínea.”

Nunca haveria de conseguir dar um herdeiro à coroa. “A mulher deve ter sofrido horrores, grande parte dos 44 anos de vida aconteceram num profundo sofrimento.” Eram tempos de grande pressão, de intenso debate político e rivalidades entre fações políticas opostas - os liberais dos Whig e os conservadores dos Tory.

foto twentieth century fox film corporation

Por seu lado, Sarah engravidou sete vezes e por sete vezes foi mãe e foi mãe dos sete a vida toda. Vinha de uma família grande, com 22 primos e primas que não conhecia. Uma delas, Abigail, haveria de recorrer à prima quando seu pai caiu em desgraça e perdeu todo o dinheiro que tinha: primeiro trabalhou para Sarah, mas havia de subir e de se aproximar de quem queria mas que Sarah considerava que não devia - a própria rainha.
“Abigail acaba por fazer um percurso em tudo semelhante ao de Sarah. Era mais uma mulher de poder, mas ao mesmo tempo doce e carinhosa. Dava à rainha a ternura e compaixão que Sarah, fria e calculista, não conseguia dar”, diz João Paulo Ascenso.

Começou por ser uma agente - uma espécie de espia - da prima, que era muito ocupada e estava longos períodos sem conseguir acompanhar a rainha. O objetivo era que Abigail preenchesse essa falha e cumprisse os intentos de Sarah - e o do partido Whig.

Uma nova favorita

Enquanto a política assoberbava cada vez mais tempo a Sarah, Abigail ganhou espaço junto de Anne, da qual estava cada vez mais próxima. A disputa pela atenção da rainha tornava-se também política: de um lado, a duquesa que manipulava Anne em favor dos liberais Whig, do outro, Abigail, que tinha ligações aos Torys (conservadores).

Deixou de ser claro quem era afinal a favorita da rainha Anne.

foto yorgos lanthimos. © 2018 twentieth century fox film corporation

“Cala-te!”, terá gritado Sarah numa cerimónia de mais um vitória militar: Anne aparecera-lhe à frente com joias que não tinham sido escolhidas pela própria Sarah. Conta a história que se zangou com a rainha (vê-se no filme algo parecido, quando a rainha se arranja para receber o embaixador da Rússia: “Quem fez a sua maquilhagem? Parece um texugo?”, questiona Sarah e Anne aceita sem contestar).

Sarah estava furiosa, começava a perder o que mais desejava: poder. Foi sussurrando rumores pela corte de que Anne e Abigail tinham uma relação. “A dada altura, chantageou a rainha com umas cartas que manchavam a reputação da rainha e o trono. Falamos de cartas em que Anne declararia o seu afeto por Sarah, portanto não se sabe se é verdade. Mas que a chantagem existiu, existiu. Foi o princípio do fim dela”, refere João Paulo Ascenso.

Dizem os historiadores que não é sabido se o que se contava era verdade ou apenas resultado de uma vingança. Certo é, no entanto, que um poema polémico circulava e insinuava que eram amantes.

“When as Queen Anne of great renown
Great Britain’s sceptre swayed
Beside the Church she dearly loved
A dirty chambermaid

O Abigail that was her name
She starched and stitched full well
But how she pierced this royal heart
No mortal man can tell

However for sweet service done
And causes of great weight
Her royal mistress made her, Oh!
A minister of state

Her secretary she was not
Because she could not write
But had the conduct and the care
Of some dark deeds at night”

A rainha não gostou e Sarah foi afastada e caiu em desgraça na corte. Os Churchill foram convidados a sair e acabariam por se exilar na Alemanha. Havia agora oficialmente uma nova “favorita” e chamava-se Abigail.

Mas Anne nem reinaria nem viveria muito mais tempo - morreu com 44. E nesse curto período que lhe restou não deixou nunca Abigail ter o poder que Sarah teve. Não queria ser manipulada nem perdê-la. Ao mesmo tempo, Abigail também não era como Sarah: era mais doce, menos manipuladora (na vida real, porque no filme não se fica objetivamente com essa mesma sensação). Morreria com 64 anos.

Os Churchill, pelo contrário, viveriam bem mais do que era normal para a época. Regressaram à Grã-Bretanha um dia após a morte da rainha. E, no final, o palácio Blenheim não foi um presente: Sarah, que se tornou uma das mulheres mais ricas do país e com maior património imobiliário, pagou tudo.

Blenheim continua a ser o único edifício em zona rural e sem qualquer ligação à Igreja que tem o título “Palácio”. Ainda continua na mão dos Churchill - aliás, foi aí que o mais conhecido de todos os Churchill, Winston, nasceu em 1874, ele que viria a ser primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial.

10 Nomeações

Melhor Filme
Melhor Realizador
Melhor Atriz (Olivia Colman)
Melhor Atriz Secundária (Rachel Weisz)
Melhor Atriz Secundária (Emma Stone)
Melhor Argumento Original
Melhor Fotografia
Melhor Guarda-Roupa
Melhor Montagem
Melhor Direção Artística