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Os suspeitos e os costumes

“Na Lista Negra” (“Guilty by Suspicion”) ter-se-á perdido nos corredores do tempo, mas a poucos dias da 93ª edição dos Óscares não será inoportuno ver ou rever esta pérola da sétima arte assinada em 1991 por Irwin Winkler, com Robert de Niro como protagonista

Warner Brothers / Getty Images

É tão longa e tão vasta a influência dos Estados Unidos no mundo, que tendemos a esquecer (ou a não lembrar, sequer) os muitos pontos negativos que o imenso país veio apresentando ao longo da sua história. Seria demasiado fácil e demasiado óbvio remeter de imediato para a vigência do mandato de Donald Trump (uma vez mais, esquecendo o que foi o reinado de George W. Bush), mas importará não deixarmos de lado as marcas da escravatura, dos conflitos raciais, da permanência tolerada do Ku Klux Klan, da pena de morte que ainda vigora em muitos estados, das guerras nem sempre esclarecidas em que o país se envolveu, do quase provincianismo que ainda perdura em boa parte do território. Tudo isto se olvida ou se omite em virtude das muitas virtudes que os “states” deram ao mundo. No peculiar que é o de Hollywood, a negritude dos exemplos acima mencionados tende a ser ainda mais ofuscada, pelo “glamour” de um universo em que até os escândalos têm características muito próprias; e, no entanto, não menos gravosas.

O assédio sexual está ainda na memória recente, o mesmo é válido para as questões de raça e de género, mas o mapa da mais célebre indústria cinematográfica está repleto de exemplos que em nada dignificam os valores que a mesma indústria diz representar. Um dos exemplos mais gritantes diz respeito à perseguição feita em meados do século passado por um sinistro comité que julgava as atividades supostamente antiamericanas.

“Na Lista Negra” (“Guilty by Suspicion”) retrata de forma exemplar os tempos conturbados que atormentaram e destruíram inúmeras vidas pessoais e profissionais na Hollywood dos anos 50 do século XX. O filme de Irwin Winkler centra-se na figura de David Miller, um personagem fictício mas que simboliza as vítimas da paranoia persecutória nascida da mente de Joseph Raymond McCarthy. O senador do estado do Wisconsin foi o rosto mais visível de uma corrente fomentada pelo próprio, segundo a qual o governo federal dos Estados Unidos estava impregnado de figuras ao serviço do comunismo. A mais que discreta figura do senador veio então para a ribalta, mais ainda quando afirmou estar na posse de uma lista com os supostos “agentes” ao serviço do lado errado da Cortina de Ferro. Ninguém escapou ao escrutínio e, por essa razão, também Hollywood não foi poupado às perseguições.

O filme de Winkler, realizado em 1991, é o retrato perfeito – sem revanchismos – do que foi essa era: Robert De Niro é um realizador que, regressado de França e da rodagem de um filme, se vê subitamente envolvido nesta guerra suja que busca bodes expiatórios para justificar a pureza da purga ideológica que se instalara no país que se diz ser o baluarte das liberdades e garantias. Através da personagem de De Niro, mergulhamos na viagem vertiginosa da paranoia, da pressão insuportável, da teia de interesses e de cobardia que perpassa o estrelato dos grandes estúdios sem que alguém fique de fora. Os resistentes são brindados com o desemprego – ninguém arrisca contratar quem possa ser, ou vir a ser, ou pensou vir a ser, comunista. E assim David Miller se vê a percorrer a via sacra do ostracismo: ninguém quer contratá-lo para o que quer que seja, nem para publicidade, nem sequer numa pequena oficina de reparação de películas. Vítima entre vítimas deste turbilhão de censura e assédio, David enceta uma fervorosa luta interior sobre o dilema que é seguir os seus princípios ou ceder à tentação de vender a alma... ao Estado.

O filme de Irwin Winkler ter-se-á perdido nos corredores do tempo mas, a poucos dias da 93ª edição dos óscares, julgo não ser inoportuno ver ou rever esta pequena e séria pérola que, além de Robert De Niro, conta com as prestimosas interpretações de Annette Benning, George Wendt, do inesquecível Allan Rich (que, aos 90 anos, continua em grande atividade) e de... Martin Scorcese.

Muito antes de “Guilty by Suspicion”, já Martin Ritt surpreendia com “The Front”, que em português se chamou “O Testa-de-Ferro”. A produção de 1976 conta com o protagonismo de Woody Allen, pelo que muita gente julgava tratar-se de uma comédia. Longe disso: o filme de Ritt é um drama amargo e irónico sobre os tempos do “susto vermelho” que atormentaram a América e em que até nas escolas as crianças eram alertadas para os perigos de os russos “virem aí”.

Escusado será dizer que o desempenho de Allen é notável no papel de Howard Prince, um pacato funcionário de restaurante que, para ajudar um amigo enredado nas malhas da lista negra do macartismo, se vê envolvido no complexo e perigoso xadrez da política do seu próprio país; e o que começa por ser um faz-de-conta com algum proveito, depressa se torna um aglomerado crescente de interrogações sobre ética e liberdade.

E para os que julgam estar a exagerar ao referir estes dois conceitos, basta lembrar que a atriz Lee Grant, vencedora de um Ócar da Academia, foi colocada na lista negra de Hollywood e impedida de trabalhar nesse período. Motivo: ter ido ao funeral de alguém que o FBI rotulara de comunista...
Será, pois, bom lembrar, enquanto os Óscares não chegam, que, à semelhança da senhora da canção dos Led Zeppelin, nem tudo o que brilha é ouro.