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Expresso

Cultura

Contra a barbárie

Carolina Salles (Sónia) e Paulo Pinto (Vânia)

BRUNO BRAVO

Bruno Bravo, com um conjunto de atores exemplares, encena aquela que talvez seja a mais perfeita das peças de Tchekhov

Em casa de Vânia está tudo de pernas para o ar. “Que confusão. O professor levanta-se ao meio dia, o samovar ferve a manhã toda, à espera dele. Dantes almoçávamos sempre à uma, como toda a gente, mas com eles cá só depois das seis. À noite o professor lê e escreve, e de repente às duas da manhã, toca a campainha. O que há? Quero chá!... que confusão!”, queixa-se Marina, a velha ama-seca lá de casa. São pouco mais de duas da tarde, a mesa está posta para o chá debaixo de grandes árvores. E “eles” chegam, a conversar — Serebriakov, professor catedrático reformado, Elena Andréevna, a sua jovem mulher, Sónia, a filha do primeiro casamento do professor, Teléguin, um velho amigo da casa, arruinado…

Serebriakov deixou de viver na cidade, ficava muito caro. Infelizmente, também não gosta da vida no campo. Faltam-lhe os anfiteatros, as caras conhecidas, a agitação do meio académico. Vânia, irmão da primeira mulher do professor, passou toda a vida a tratar da quinta, pagou dívidas, abdicou da sua herança, para que a sua irmã e a sua sobrinha tivessem aquela quinta e aquela casa. Serebriakov era o académico genial, aquele por quem todos se sacrificavam, a quem enviavam o dinheiro quase todo, aquele por quem Vânia vai dizer que renunciou a uma carreira promissora, ele que se sentia um filósofo, um escritor… para Vânia, Serebriakov é aquele que passou a vida inteira a escrever sobre arte sem saber nada de arte, aquele que prometia um mundo diferente, mas que faltou à promessa. E que teve sorte com as mulheres, primeiro com a irmã de Vânia, depois com Elena, tão nova e tão bela; até a sua filha, Sónia, se sacrificou por ele, trabalhou para ele. Quando Serebriakov, farto do campo, pensa em vender a casa, Vânia sente a estocada fatal da ingratidão, e explode numa torrente de acusações que expõem a frustração da sua vida. E é Sónia quem exclama também, “é preciso ter piedade, pai, o tio Vânia e eu somos tão infelizes!”.

Em “Tio Vânia” todos vivem com a sensação de ter passado ao lado de qualquer coisa, de uma vida diferente daquela que têm. Bruno Bravo quis sempre encenar esta peça, talvez por achar que era a mais inteligente, a mais sensível, a mais perfeita de todas as peças de Tchekhov, todas elas perfeitas; e porque, como dizia alguém durante um ensaio, se podia pensar, no mínimo, numa encenação diferente para cada personagem. Amélia Videira, António Mortágua, Carolina Salles, Ivo Alexandre, Joana Campos, Nídia Roque e Paulo Pinto são os atores que parece terem saído de dentro das palavras de Tchekhov, das situações de Tchekhov, da cabeça de Tchekhov. Luís Miguel Cintra é Serebriakov, o professor. Depois da Cornucópia, depois de mais de quarenta anos com um papel único no teatro português, procura, como qualquer ator, entender a sua personagem, perceber que relações se tecem entre ela e os outros, entre ela e o mundo. A sua presença parece fazer ressoar as palavras de outra personagem, Astrov, com um timbre especial — “aqueles que vierem depois, daqui a cem, duzentos anos, aqueles para quem abrimos agora o caminho, será que vão falar bem de nós? Não… nem se vão lembrar”; e é o mesmo Astrov, médico, amante da floresta, quem diz que “é preciso ser-se um bárbaro insensato para destruir aquilo que não somos capazes de criar”.