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Tempo dos mais velhos

Robert Redford e Clint Eastwood, dois veteranos cujos desempenhos fazem corar de vergonha muitos dos nomeados aos Óscares

D.R.

Wells já nos tinha dado o homem invisível; veio a Marvel e deu-nos a mulher invisível. A 24 de fevereiro, a Academia de Hollywood dá-nos ambos e ao mesmo tempo. Sem anfitrião designado, a cerimónia dos Óscares faz jus à longa tradição de fazer sumir dos seus palcos algumas e alguns dos que mais merecem lá estar

Recém-entrados que estamos no pequeno mês de fevereiro, grandes são as expectativas em torno da entrega dos Óscares que há de chegar sem surpresa dentro de três semanas. Agitado que está o mercado internacional do cinema, a maior dúvida em torno da cerimónia – e a maior das curiosidades – parece residir na insólita ausência de anfitrião decidida pela organização do evento, depois de todas as polémicas que envolveram o “sobrevivente designado”, para usar a metáfora que alude à série televisiva de assinalável e, para mim, inexplicável sucesso.

Claro que é preferível (parece ser preferível, pelo menos) esmiuçarmos os escândalos e as controvérsias de bastidores do que calibrarmos o foco para a ausência de Robert Redford ou de Clint Eastwood na lista de nomeações; e, no entanto, os dois atores veteranos (o primeiro tem 82 anos e o segundo 88) dão-nos dois desempenhos que fazem corar de vergonha muitos dos nomeados. “The Old Man and the Gun” e The Mule” são dois títulos obrigatórios para quem gosta de cinema, mesmo se o primeiro se chama em português “O Cavalheiro com Arma” (omitindo pura e simplesmente a importância da idade, expressa no título original) e se o segundo (“O Correio de Droga”) é seguramente o melhor trabalho de Eastwood desde “Gran Torino” (2008).

Infelizmente, estas omissões juntam-se a muitas outras que têm de alguma forma enviesado as cerimónias com que anualmente a Academia de Hollywood celebra o cinema – cada vez mais a indústria e cada vez menos a nobreza da arte. Basta lembrar alguns nomes maiores do grande ecrã para perceber quão injusta foi a sua ausência da grande festa cinematográfica. Invoquemos, a título de exemplo inicial, o senhor Emmanuel Goldenberg, que na Roménia nasceu em finais do século XIX, e que na América que o naturalizou viria a morrer em 1973. O seu legado de quatro dezenas de peças na Broadway e mais de uma centena de filmes tornou-o conhecido como Edward G. Robinson, ator poderoso e sinistro nos muitos desempenhos que teve em películas de gangsters na era de ouro dos grandes estúdios.

Nesse sentido, aqui se sugere vivamente o visionamento de filmes como “Double Indemnity” (“Pagos a Dobrar”), de 1944 – considerado o primeiro grande exemplo do “film noir” –, “Little Cesar” (“O Pequeno César”), de 1931, “Key Largo” ou o mais tardio “The Cincinnati Kid” (“O Aventureiro de Cincinnati”), de 1965. Crítico assumido do fascismo e da ideologia nazi nas décadas de 30 e 40 do século XX, Edward G. Robinson nunca mereceu nenhum Óscar da Academia: demasiado tarde, recebeu um a título honorário e póstumo: foi galardoado dois meses depois da sua morte... Hoje está na lista dos 25 maiores atores do cinema norte-americano elaborada pelo American Film Institute.

Outros exemplos de atores que nem sequer foram alguma vez nomeados aos Óscares são os de Donald Sutherland, Charles Chaplin (foi uma vez nomeado mas como realizador), Martin Sheen, Vincent Price, Eli Wallach ou Dean Martin. Nas senhoras, o maior escândalo será o da extraordinária Lauren Bacall, pese embora o adjetivo possa ser aplicado aos casos da lendária Rita Hayworth, da icónica Marilyn Monroe, da inesquecível Maureen O´Hara ou da única Kim Novak. Todos somados e somados a outros, estes casos refletem bem como a Academia nem sempre vê (ou quer ver) o que está e o que passa à sua frente. Sobre Chaplin só posso sugerir toda a sua obra, sobre Bacall o pressuposto é o mesmo, sobre Rita Hayworth há que ver e rever e ver outra vez o sublime “Gilda”, mas a obra de todos estes atores e atrizes merece claramente ser vista e, sobretudo, não ser esquecida.

Até Hitchcock, o mais conhecido Alfred britânico, tardou a ser reconhecido pelo colégio eleitoral da AMPAS: o mestre de “Psico”, “Vertigo”, “Rope”, “The Birds”, “Rear Window” ou “North by Northwest”, entre os 54 títulos que nos deixou, só em 1968 recebeu uma estatueta dourada, correspondente ao Prémio Irving Thalberg, que destaca a carreira dos maiores nomes do cinema. Hitchcock, tão irónico e mordaz como a sua obra, teve o discurso de agradecimento mais curto da história dos óscares: “Thank You” (Obrigado) foram as duas palavras que proferiu.

Muitas mais o serão no serão que a ABC vai proporcionar ao público entusiasta do cinema, do glamour, da passadeira vermelha, da fofoca, da curiosidade que sempre rodeia a cerimónia – e a esperança de ver alguma gafe. Muitos estarão já a torcer por Lady Gaga, espantados e unidos nos elogios que associam o canto, a dança e a performance à interpretação. Pena é que, entre outras penas, se esqueça o canto, a dança, a performance e a interpretação de outros nomes porque, sejamos francos, se aqui mencionar Fred Astaire ou Cyd Charisse , também serão muitos os que vão sorrir com a benevolência normalmente endossada aos mais velhos, não tanto por serem velhos mas por serem a voz dos antigos. É pena, mas nem o dourado de uma estatueta pode ofuscar o talento de outras cores, ainda que diluídas na imensa paleta do tempo.