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A exposição destes dois artistas russos quer o sangue dos visitantes. Contra a censura e propaganda

MyLoupe/Getty Images

Andrei Molodkin e Erik Bulatov são os autores da exposição “Black Horizon”, que vai abrir no sábado em Charleroi, na Bélgica. “É como um karaoke de sangue”

“Este artista russo quer o seu sangue. Literalmente”, é assim que o guião cultural “The Calvert Journal” coloca as coisas. Andrei Molodkin e Erik Bulatov são os autores da exposição “Black Horizon”, que vai abrir no sábado em Charleroi, na Bélgica. O sangue é o coração deste trabalho artístico. O mote é a luta contra a censura e propaganda na Rússia (não esquecendo o que se passa na Europa).

Os visitantes vão ser convidados a doar sangue, que ficará depositado num refrigerador próprio, para depois ser bombeado por tubos, dando vida a letras de músicas underground censuradas.

“É como um karaoke de sangue”, explica ao “Guardian” Molodkin, um artista de 53 anos nascido na União Soviética. “O nosso programa olha para letras de músicas que foram censuradas. As pessoas vêm e escolhem doar sangue para a sentença que mais as seduzir.” A doação standard, diz o diário britânico, é 200 gramas de sangue.

“A nossa consciência está a ser manipulada pela imprensa, pelos atores políticos e, como resultado, estamos a caminhar para uma situação muito difícil e sentimo-nos encurralados”, diz Bulatov. Apesar de terem nascido em épocas diferentes, Bulatov (1933) e Molodkin (1966) estão em sintonia quanto à crítica às formas e limites da linguagem.

Estes dois artistas, explica Molodkin ao jornal inglês, começaram a ver fechar-se “diante dos seus olhos” um “mundo aberto, sem censura, com um forte sentimento nacionalista, onde a religião não dita as suas leis”. Esta crítica não se resume à Rússia. A Europa também está na mira.

“A Europa está a tentar afastar a Rússia como se fosse um inimigo”, explica Bulatov. “Mas isso não prejudica necessariamente [Vladimir] Putin. Isso apenas ajuda Putin a cimentar o seu poder, porque assim parece que estão cercados por inimigos. As pessoas é que sofrem com isto.” Apesar desta opinião, o artista garante que já não se vivem os mesmos ventos dos tempos da União Soviética. E, arrisca, assim continuará enquanto as fronteiras estejam abertas.

A exposição estará aberta de terça-feira a domingo (10h-18h) entre 9 de fevereiro e 19 de maio.