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Os Globos de Ouro não conseguem prever quem ganha o mais cobiçado Óscar - e os números provam isso

Frazer Harrison/Getty

Melhor filme. A mais importante de todas as distinções entregues no mundo no cinema. Os Globos de Ouro já elegeram o seu - ou os seus, já que há duas categorias: Drama e Comédia/Musical - mas são muito pouco consensuais. É possível que tudo mude nos Óscares. Na última década, os dois júris só coincidiram três vezes na escolha de melhor filme

Ana França

Ana França

Jornalista

Não são só os atores que gostam de agarrar as audiências com papéis imprevisíveis e rebuscadas reviravoltas na trama. Os júris das cerimónias onde esses atores - e os seus filmes - são distinguidos, por vezes, também. Nos Óscares do ano passado, quando “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro, venceu o galardão para melhor filme, muitas foram as críticas à escolha da Academia, até porque, nos Globos de Ouro, a estrela tinha sido “Três Cartazes à Beira da Estrada”.

Na categoria de “Melhor Filme”, vencer os Globos de Ouro nem sempre é sinónimo de um Óscar. Em 2016, “Moonlight” venceu ambos. Mas em 2015, foi “Birdman” que arrecadou a estatueta mais cobiçada, enquanto que o globo foi para “Boyhood”. Em 2014, “12 Anos Escravo” venceu os dois galardões e em 2013, “Argo” também venceu ambos. Sucedeu o mesmo em 2012, quando “O Artista” venceu nos Globos de Ouro, na categoria de comédia ou musical, e nos Óscares. Mas em 2011 foi “O Discurso do Rei” a levar a estatueta dourada, e, nos Globos, o prémio foi para “A Rede Social”. No ano que marca o início desta década, “Hurt Locker” foi o melhor filme para a Academia, enquanto a Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood escolheu “Avatar”. Na última década, os dois júris só coincidiram três vezes na escolha de melhor filme.

Este ano, também não foi “Assim Nasce uma Estrela”, de Bradley Cooper, que na bilheteira arrasou recordes, a levar para casa o prémio de “Melhor Comédia ou Musical” ou de “melhor qualquer-coisa-além-de-música-original”, categoria para a qual nem foi nomeado, surgindo na lista de candidatos a melhor drama. Cooper escreveu o guião e é o protagonista do filme, além de este musical ter sido sempre descrito pela imprensa como o seu “projeto de sonho”. Os correspondentes não ficaram impressionados.

Nessa categoria quem venceu foi “Green Book”, um filme de Peter Farrelly’s sobre a amizade improvável entre um músico e o seu motorista numa altura em que a raça era um (ainda mais vincado) problema na sociedade norte-americana. Menos consensual que o dueto romântico de Cooper e Lady Gaga, mas com dois pelos papéis desempenhados por Viggo Mortensen e Mahershala Ali, “Green Book” acabou por vencer a noite. Na categoria de “Melhor drama”- e mais uma escolha que toda a gente já está a questionar - vence “Bohemian Rhapsody”, um filme que ficou ali entre as duas e as três estrelas para a maioria dos críticos de cinema.

Ou seja, os favoritos para a estatueta-mor estão este ano envoltos em ainda mais mistério do que o normal. Até porque, como escreve a “Vox”, este ano não houve um filme “de arrastão”. Se “Assim Nasce uma Estrela” não conseguiu triunfar nos Globos então talvez o seu estatuto de “pré-vencedor” esteja em dúvida.

De sublinhar também os filmes mais políticos, como “BlacKkKlansman”, de Spike Lee, sobre um negro que se infiltra no KKK através da sua voz e pede emprestada “a brancura” a um dos seus colega da polícia; ou “Vice”, onde Christian Bale se transforma - e, segundo a crítica, transforma-se impecavelmente - no antigo vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney. Será Bale a levar a estatueta e não Cooper?

Do lado das atrizes quem já deve estar a escrever o discurso é Glenn Close, que venceu o Globo de Ouro para melhor Atriz de Drama pelo seu papel no “indie” “The Wife”, uma adaptação do romance de Meg Wolitzer, cujo tema central é o permanente questionamento interno de uma mulher sobre as escolhas que fez na vida. Close já esteve nomeada para os Óscares seis vezes e nunca venceu: apesar de ter vencido três globos de ouro. Mais uma vez se nota que nem sempre uma cerimónia serve de antecâmara para a outra. A sua grande concorrente será Olivia Colman, cujo papel como rainha Ana em “A Favorita” tem merecido os mais panegíricos dos parágrafos este ano. Foi ela quem levou para casa o galardão de melhor Atriz de Comédia.

O filme do grego Yórgos Lánthimos fala das relações de poder entre mulheres que querem estar próximas, ser as mais próximas, da rainha. No festival de cinema de Palm Springs, na qual Colman também recebeu esta distinção, a atriz comparou a personagem histórica a um governante bem vivo. “A rainha Ana é alguém que acumula toda a loucura, frustração, confusão e instabilidade de uma pessoa poderosa mas completamente incompetente no seu trabalho. Não sei se vocês conhecem alguém assim”, brincou, referindo-se a Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos.

O analista de galardões cinematográficos Erik Anderson falou à “Vox” de outra curiosidade. “Há três filmes que têm estado sempre no topo das apostas, e sempre nomeados para quase todas as categorias principais: “Assim Nasce uma Estrela”, “Black Panther” e “BlacKkKlansman” mas nenhum ainda converteu o capital em sucesso real, o que nunca aconteceu”.

“Roma”, a pérola de Alfonso Cuarón venceu as categorias de “Melhor Filme Estrangeiro” e “Melhor Realização” mas como não pode concorrer na categoria de “Melhor Filme” (quer seja Drama, Musical ou Comédia) por não ser originalmente falado em inglês, não foi um concorrente às categorias mais invejadas nestes Globos de Ouro. Nos Óscares essa vedação cai e “Roma” pode mesmo vir a ser nomeado para a categoria principal que distingue os melhores filmes do ano. Há apenas dez filmes estrangeiros nomeados para a categoria geral em toda a história dos Óscares - nenhum venceu.