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Partir a dor ao pontapé

Os Idles regressam a Portugal para tocar no NOS Alive a 13 de julho

Ebru Yildiz

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Do que é que havíamos de falar se as coisas não tivessem dado para o torto? Eu ia andar a cantar sobre sapatilhas.” A frase, publicada pela “Loud and Quiet”, é de Joe Talbot, o cavalheiro inglês que há coisa de sete anos ocupa o cargo de timoneiro dos Idles, uma banda punk (que não se considera punk) nascida em Bristol. E, independentemente das convicções políticas de cada um, a verdade é que os desafios atravessados pela sociedade britânica nos últimos anos — o ‘Brexit’, mas também a turbulência no Governo ou a imigração — parecem inspirar uma nova fertilidade no rock vindo de terras de Sua Majestade. Ainda há, naturalmente, quem continue a escrever sobre sapatilhas, e não há nada de errado nisso. Mas a música que, com um impossível equilíbrio de dureza e sensibilidade, os Idles gravaram no seu segundo álbum é de uma espécie diferente. Aqui, o sangue fervilha nas letras que são autênticos slogans; as guitarras arranham-nos todos os sentidos, sem que lhes consigamos virar costas; a bateria comanda a ação de um quinteto que faz das fraquezas — pecadilhos & dores avulsas — a sua grande força.

A viagem dos Idles, que em 2018 passaram por Portugal para celebradíssimos concertos, começou em 2011, quando Joe Talbot se cruzou com o baixista Adam Devonshire. Depois de uma série de EP, o quinteto lançou, no começo de 2017, o seu álbum de estreia. Inspirado pela morte da mãe de Joe Talbot, que anos antes ficara paralisada por um AVC e entregue aos cuidados do filho adolescente, “Brutalism” é um cartão de visita transparente da raiva e inteligência de uma banda sem medo de berrar sobre o sistema nacional de saúde, a pobreza ou o sexismo — e capaz de fazê-lo de forma galvanizadora e até divertida. Avancemos pouco mais de um ano e encontramos os Idles a ‘explodir’ com “Joy as an Act of Resistance’, uma dúzia de canções que nasceram para serem hinos. Riffs tão doentios como viciantes (‘Never Fight a Man with a Perm’); temas que se desdobram (pelo menos) em dois (‘Colossus’); refrões implorando para serem entoados em êxtase, nos tais concertos de que se fala (‘I’m Scum’, ‘Danny Nedelko’). Depois de colocar a mãe no primeiro disco (literalmente: as suas cinzas foram prensadas num vinil), desta feita Joe Talbot comove ao lembrar Agatha, a filha que nasceu sem vida, em ‘June’ (“Dreams can be so cruel sometimes/ I swear I kissed your crying eyes/ A stillborn was still born/ I am a father”). Confessando-se tão apaixonados pelo rock como pelo jazz, tecno minimal ou R&B, talvez os Idles não sejam (só) punk. Mas, com um discurso articulado e a energia de dez mil bandas que cantam sobre sapatilhas, são os punks de que precisamos agora.

JOY AS AN ACT OF RESISTANCE -Idles/ Partisan/PIAS

JOY AS AN ACT OF RESISTANCE -Idles/ Partisan/PIAS