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João Ribas queixa-se de restrições e intervenções em termos de autonomia artística

Rui Duarte Silva

Diretor Artístico de Serralves justifica saída com interferências graves na conceptualização expositiva durante a montagem da exposição de Robert Mapplethorpe. Ribas refere que quebra silêncio devido a falsidades que diz sentir como calúnias e ofensas ao seu bom nome

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Cinco dias após a demissão, João Ribas afirma que o cargo de diretor do Museu de Serralves “é incompatível com ingerências, pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística”, que se traduzam em comportamentos de “inadmissível repreensão da livre expressão das obras de arte ou das mensagens, harmonia ou lógicas próprias com as quais o curador entenda dotar uma qualquer exposição, como a das obras de Robert Mapplethorpe”.

Em comunicado, o curador da exposição 'Robert Mapplethorpe: Pictures' reage às declarações do Conselho de Administração da Fundação de Serralves desta quarta-feira, advertindo que “não é admissível que a liberdade e a autonomia do Diretor sejam desrespeitadas”. A resposta de João Ribas vem contrariar a posição de Ana Pinho, presidente da Fundação de Serralves, que garante que a seleção das obras expostas e excluídas do acervo do fotógrafo norte-americano foram da exclusiva responsabilidade do curador da polémica exposição.

João Ribas lembra que assumiu a função de Diretor do Museu de Serralves em fevereiro, na sequência de concurso internacional, após vários anos como diretor-adjunto da mesma instituição. Após cinco dias de silêncio, o curador da mostra inaugurada quinta-feira revela que lhe foram-me impostas, enquanto Diretor do Museu e no contexto da exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures”, restrições e intervenções que criaram “um ponto de rotura em termos de autonomia artística e de uma atividade de programação livre de intromissões ou repreensões”.

Segundo Rivas, tais restrições“ interferiram de modo grave com a conceptualização expositiva, nomeadamente na semana de montagem, que me obrigaram a sucessivas reorganizações da mesma”. No memo comunicado, adianta ainda que as interferências na exibição de determinadas obras e na localização de outras que ocorreram durante a semana de montagem, contribuíram para uma descontextualização profunda, obrigando-me, enquanto curador, a alterar a seleção dos trabalhos para que a exposição fosse um todo coerente e para que, assim, se promovesse de modo adequado o conhecimento e o diálogo social protagonizados por Robert Mapplethorpe.

O comissário da exposição garante que a exposição deveria conter 179 obras, como estava previsto, mas que devido às referidas interferências e restrições “levaram a uma redução para 161”. “No dia da inauguração, a curadoria foi mais uma vez intimada a retirar duas obras que já se encontravam expostas. Até ao limite, procurei manter a dignidade da exposição e fidelidade ao espírito da obra de Mapplethorpe, cumprindo todas as minhas funções”, acrescenta Ribas.

Contrariando a versão de Ana Pinho e restante Conselho de Administração de Serralves, diz João Ribas que a exposição nunca foi concebida “numa lógica proibicionista, o que não se traduz numa insensibilidade para com a comunidade: houve a preocupação de criar mecanismos que permitissem aos visitantes fazer escolhas”, uma alusão às obras exibidas num espaço em que o acesso a menores de 18 anos apenas é permitido mediante acompanhamento dos respetivos responsáveis legais.

“Face à violação continuada da minha autonomia técnica e artística e do livre exercício das minhas funções e, por respeito ao Museu de Serralves enquanto instituição de referência nacional e internacional, não me restou alternativa melhor e mais consentânea com a ética profissional que perfilho, senão a demissão de funções. Nenhuma exposição deve ser alvo de condicionamentos e imposições proibicionistas, nenhuma direção artística deve ser alvo de sistemáticas ingerências. Tomei uma decisão em defesa dos bons princípios de funcionamento institucional e em defesa da liberdade artística”, adianta o até sexta-feira diretor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto..

João Ribas revela que a sua demissão demissão “pretendeu ser uma mensagem dirigida à salvaguarda e reposição desses valores e princípios e à dignificação da Fundação e Museu de Serralves. Tal como o silêncio a que me remeti por estes dias”. De acordo do Ribas, a quebra de silêncio esta quarta-feira é explicada por terem sido divulgadas “algumas falsidades e feitas imputações indevidas aos meus comportamentos profissionais, que sinto como calúnias e ofensas ao meu bom nome”.

“Não perdi nem se encontram diminuídas as qualidades que justificaram a minha colocação no cargo de Diretor”, conclui, enquanto manifesta o o seu apreço e gratidão por todas as manifestações de solidariedade.