Cultura

Júlio Pomar 1926-2018: “Naquela altura era quase instintivo ser comunista”

22 maio 2018 18:52

antónio pedro ferreira

Esteve preso quatro meses. Fez o retrato dos companheiros de cela. Mas quando se deu a revolução estava já afastado da atividade política, dedicando-se muito mais à vida artística e cultural, que vivia intensamente em Paris, onde estava desde 1963. Disse que depois olhou com outros olhos para um tempo em que não percebia quem não era do PCP. No dia da morte de Júlio Pomar, que tinha 92 anos, republicamos um artigo que saiu originalmente no Expresso em abril de 2014

22 maio 2018 18:52

Expresso 25 de Abril 40 Anos 12-04-2014

Foram & Voltaram

Dez figuras, dez histórias, em trajetos cruzados.
Uns saíram para o exílio forçado e regressaram a Portugal após a revolução; outros deixaram o país já em democracia, desiludidos com o estado das coisas e só voltaram quando os ânimos acalmaram. Uns foram presos (mas torturados só na ditadura). Eis o testemunho das suas vivências - antes, durante e depois do 25 de Abril.

Júlio Pomar
87 anos Pintor



Nasci num meio de tendência republicana, já de esquerda. Entrei para o Partido Comunista Português (PCP) não tinha 20 anos sequer.

Quem me levou foi o Guilherme de Carvalho, um militante de uma família burguesa do Porto que entrou na clandestinidade muito cedo e que acabou por morrer em Peniche. Naquela altura era quase instintivo ser do PCP, nem percebia como é que não se era do PCP. A guerra ainda estava em todo o seu esplendor, havia o fenómeno das resistências que era, evidentemente, posto em grande foco. Não é por acaso que pinto um quadro chamado "Resistência". Mas a minha ação não era só feita através da pintura. Eu era militante ativo. Tinha reuniões de carácter político, primeiro no quadro do PCP e depois no quadro do Movimento de Unidade Democrática (MUD) juvenil, que era a tentativa de uma organização legal.

Participei em muitas reuniões clandestinas, com todo o seu rigor e o seu teatro. Para que tudo fosse dificilmente registado, cada pessoa tinha um nome de guerra. Tive vários. Cheguei a ter o apelido Marques. Álvaro Cunhal foi sempre Duarte. Os olhos com que olhamos hoje são completamente diferentes dos daquela altura, em que se vivia um clima com censura, em que os livros eram peneirados e a informação mais condicionada. A pintura forçosamente romantizada.

Fui preso na qualidade de membro da comissão central do MUD juvenil, da qual fazia parte Mário Soares. O motivo invocado da prisão, do julgamento e das condenações foi a divulgação de notícias falsas ou tendenciosas. Era sempre a mesma coisa. Dos membros da comissão fui o último a ser preso. Estava em viagem pelo país, para entrar em contacto com todas as comissões. Fui detido no decurso dessa viagem, em Évora. Estive preso quatro meses. Como já era conhecido a polícia caprichou em ter um comportamento não criticável.

Éramos mais de 20 numa cela. Fazíamos cursos, como jovens empreendedores. Eu fazia um de iniciação às artes plásticas. Íamos ensinando uns aos outros o que sabíamos. Fiz os retratos da maior parte dos meus companheiros de cela e ofereci-lhos. Quando saí, era para acabar de pintar os frescos que tinha iniciado no Cine-Teatro Batalha, no Porto, mas, entretanto, o governo mandou apagá-los.

Vou viver para Paris em 1963, numa altura em que os quadrecos que pintava já davam para a renda da casa. Diminui a minha atividade política e aumenta a cultural e artística. Fui-me afastando aos poucos do partido. Estava mais focado no meu trabalho. Sentia que uma atividade política pura e dura estava longe de me encher as medidas. Não sou um animal político.

Por pura coincidência, vivi cá o dia 25 de Abril de 1974. Tinha comprado um apartamento em Miraflores, um bairro ainda em construção, e estava de partida para Paris. Por acaso liguei para um amigo, o Manuel Torres, e ele deu-me a notícia. Andei a festejar nesse dia e nos seguintes. Fiquei cá um mês.

A altura do PREC foi passada quase toda em Paris. No verão quente vim cá várias vezes. Via-se o país a mudar e a querer acontecer. Todo o processo que não se tinha dado, a dar-se. A minha ideia é que havia uma grande imaturidade e incapacidade de enfrentar a situação tal como ela estava. Havia o recurso a clichés. Não via com bons olhos.

O otimismo seria mais um querer ser otimista do que uma constatação de. Não fui exilado. Saí porque quis, quando quis e regressei quando quis.