Coronavírus

DGS divulga pareceres sobre vacinação das crianças: benefícios diretos e “indiretos (para as famílias e sociedade)” justificam luz verde

10 dezembro 2021 16:47

tiago petinga/lusa

O parecer admite que a covid-19 é ligeira na grande maioria das crianças dos 5 aos 11 anos, com um risco médio de hospitalização de 0,2%. As crianças que estiveram infetadas também serão vacinadas, três meses após a infeção. Documento inclui os pareceres de suporte dos grupos de trabalho da Pediatria e de Bioética

10 dezembro 2021 16:47

O parecer completo da Comissão Técnica de Vacinação contra a covid-19 (CTVC) sobre a inoculação das crianças já pode ser lido na íntegra, tendo sido disponibilizado no site da Direção-Geral da Saúde durante a conferência de imprensa sobre o tema.

A comissão considera que a vacinação traz mais benefícios do que prejuízo na faixa etária dos 5 aos 11 anos de idade, uma vez que, assumindo que a vacina tem uma efetividade contra infeção de 70 a 85% e contra hospitalização de 95%, se estima "que evitaria 51 (9 a 147) hospitalizações e 5 (1 a 16) internamentos em UCI".

Contudo, e tal como o Expresso noticiou há duas semanas, o grupo de trabalho composto por especialistas em Pediatria e Saúde Infantil encarregado de apoiar a DGS expressa que “deve ser dada prioridade à vacinação dos adultos e dos grupos de risco, incluindo as crianças dos 5 aos 11 anos". "Poderá ser prudente aguardar por mais evidência científica antes de ser tomada uma decisão final de vacinação universal deste grupo etário”, reforça-se.

Argumentam também que “considerações detalhadas sobre impactos educacionais, sociais e económicos mais amplos deverão ser procuradas junto de outros peritos” - e foi nessa ponderação que a CTVC decidiu dar luz verde. A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, tinha na quinta-feira referido que os documentos de suporte da decisão não seriam conhecidos - mas em anexo ao parecer principal estão, na íntegra, as posições dos grupos de trabalho da Pediatria e de Bioética.

O grupo de consulta da CTVC para a bioética considerou que a decisão de vacinar estas crianças obedece aos princípios da:

  • não-maleficência (não causa, previsivelmente, prejuízo à sua vida, à sua saúde e à sua integridade pessoal);
  • da beneficência (apresenta probabilidade elevada de prevenir a contração da doença e contribui, deste modo, para a saúde física e mental da criança);
  • da justiça (contribui para a quebra das cadeias de transmissão da doença, pelo menos relativamente às variáveis conhecidas, em particular a Delta, contribuindo, deste modo, para um significativo atenuar da pandemia, uma vez que os dados epidemiológicos revelam uma alta transmissibilidade da doença nesta faixa etária, em Portugal)”.

Só 0,2% dos casos necessitam de internamento

As crianças com 5 a 11 anos constituem cerca de 40% do total de casos diagnosticados em pessoas com menos de 18 anos. No entanto, a doença é ligeira, com um risco médio de hospitalização nesta faixa etária de 0,2%, refere o parecer dos pediatras, disponibilizado esta sexta-feira pela Direção-Geral da Saúde.

O relatório também divulga que, de acordo com a informação constante no BI-SINAVE e Base de Morbilidade Hospitalar, desde o início da pandemia e até 3 de novembro de 2012 foram 217 as crianças de 5 a 11 anos hospitalizadas com covid-19 em Portugal (0,21% dos casos), sendo que a covid-19 só foi diagnóstico principal em metade dos casos.

Desses, 20 casos requereram assistência em cuidados intensivos - 9,2% do total.

No mesmo parecer, assume-se igualmente que a vacinação, por reduzir o risco de infeção por SARS-CoV-2, “poderá reduzir consequentemente o risco de doença inflamatória multissistémica associada à covid-19. Mais dados sobre a fisiopatologia da doença são ainda necessários para determinar o potencial impacto da vacinação nesta condição clínica.”

Segundo o documento, o país registou apenas 7 casos em 2020 e 54 casos em 2021, com diagnostico principal e adicional, em crianças dos 5 aos 11 anos.

Vacinação poderá evitar mais de 13 mil casos e 51 hospitalizações

Segundo o parecer, foram realizadas duas avaliações de risco/benefício para o contexto português.

A primeira avaliação estimou que com uma cobertura vacinal de 85% será possível evitar, nos próximos quatro meses (de dezembro de 2021 a março de 2022), mais de 13 mil casos, 51 hospitalizações e cinco casos graves que necessitem de internamento nos cuidados intensivos.

A segunda avaliação concluiu que a vacinação poderá evitar 190 hospitalizações e 19 internamentos em UCI por cada 100 mil crianças vacinadas.

A partir destes dados, o parecer concluiu que "os benefícios quantitativos conseguidos com uma campanha de vacinação muito abrangente das crianças dos 5 aos 11 anos são superiores aos riscos. Num horizonte temporal que abrange o inverno de 2021-22, a vacinação evitará muitos milhares de infeções, dezenas de hospitalizações e várias complicações associadas à COVID-19".

Esquema vacinal com duas doses (uma para quem já esteve infetado)

O documento entre ainda em detalhe sobre alguns pormenores do esquema vacinal. Neste, os peritos da DGS recomendam a administração da vacina em duas doses com um intervalo de seis a oito semanas, considerando que este "poderá conduzir simultaneamente a uma proteção contra doença grave significativa após a primeira dose, e uma efetividade contra infeção mais robusta (e provavelmente mais duradoura) após a segunda dose".

Mantém-se também o intervalo de 14 dias entre a administração desta vacina e de outras vacinas.

Como nos adultos, as crianças que já estiveram infetadas deverão receber uma dose administrada pelo menos três meses após a infeção.

Já as crianças que completem os 12 anos nos próximos meses, "devem ser vacinadas com a dose pediátrica de Comirnaty, de forma a completar o esquema com a mesma formulação".

O documento considera que as crianças com história de MIS-C (Síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica) "podem ser vacinadas contra a COVID-19, pelo menos 3 meses após a COVID-19." Por outro lado, no caso das "crianças com história de prévia de miocardite (se relacionada ou não com vacinas de mRNA)" a vacinação "deve ser adiada pelo menos até à resolução completa do quadro clínico". Em ambos os cenários, "o benefício da vacinação contra a COVID-19 deve ser avaliado, caso-a caso, pelo médico assistente".

Benefício para o bem-estar físico, psíquico e social

O parecer sublinha também que os impactos da covid-19 vão muito para além da saúde física das crianças e jovens. "A pandemia COVID-19 prejudicou as crianças e adolescentes, a sua educação, desenvolvimento, saúde mental, bem-estar e vida social, especialmente as mais desfavorecidas", referem os peritos.

Por esse motivo, consideram que vacinação irá produzir “benefícios diretos (para as crianças) e indiretos (para as famílias e sociedade)”