O centro de doenças europeu quer que a Europa reuna o máximo de esforços para controlar e evitar que a nova variante do coronavírus que apareceu no Reino Unido se propague por outros países.
Segundo o The Guardian já foram detetados 11 novos casos da estirpe em pelo menos três países: nove casos foram reportados pela Dinamarca, um pela Holanda e outro pela Austrália, segundo a OMS. Em Itália também: o ministro da Saúde confirmou este domingo que foi encontrado um doente com a mesma mutação do víus, que viajou do Reino Unido para aquele país, aterrando em Roma. Estará neste momento em isolamento. O Centro Europeu para Controlo e Prevenção de Doenças fala, ainda, em casos da nova estirpe na Bélgica, recorrendo às notícias avançadas pela imprensa local - mas esses ainda não foram oficialmente confirmados.
No Reino Unido, a expansão desta mutação foi rápida: mais de 1620 amostras da nova variante foram encontradas no sudeste da Inglaterra a 15 de dezembro, com origem em Kent. O The Guardian cita um especialista que aconselha o Governo britânico para dizer que esta nova mutação do coronavíruis terá sido detetada inicialmente a 20 de setembro e confirmada em outubro. "Nessa altura não havia razões para pensar que seria particularmente perigosa, porque as mutações aparecem com frequência", admitiu Susan Hopkins, do Centro de Saúde Pública do país.
Acontece que, em novembro, os especialistas começaram a tentar perceber por que é que na região de Kent os números de novos contágios não baixavam, apesar de estarem a ser aplicadas as medidas mais restritivas que tinham efeitos no resto do país.
Ainda segundo o The Guardian, um relatório das universidades de Edimburgo, Cambridge, Oxford, Cardiff e Birmingham, revelou que a nova variante encontrada no Reino Unido foi também detectada na Escócia e País de Gales - mas ainda não na Irlanda do Norte.
Os estudos das autoridades de saúde indicam que a sua capacidade de propagação pode ser 70% superior, aumentando o R em 0,4 pontos. Nos países onde já existem casos reportados desta variante, ainda não há dados que permitam concluir pela sua expansão.
Sem restrições, mutação pode ser dominante na Europa
"Dado que não existem atualmente provas que indiquem até que ponto a nova variante do vírus se está a propagar fora do Reino Unido, são necessários esforços atempados para prevenir e controlar a sua propagação", exorta o ECDC, num relatório publicado este domingo sobre o aumento rápido de casos no Reino Unido desta nova variante da covid-19. E avisa: "Se o aumento das reuniões familiares e sociais que são tradicionais nesta altura do ano não for reduzido, [...] e especialmente se as viagens não essenciais não forem reduzidas ou evitadas completamente, poderá eventualmente levar a que a variante substitua as variantes atualmente em circulação em grande parte da UE e Espaço Económico Europeu".
Foi aliás, por isso, que vários países já suspenderam ligações ao Reino Unido. Em alguns casos, porém, trata-se de suspensões provisórias, por 48 horas, até que as autoridades europeias avaliem decisões concertadas.
O centro europeu contextualiza que, "embora se saiba e se espere que os vírus mudam constantemente através da mutação levando ao aparecimento de novas variantes, a análise preliminar no Reino Unido sugere que esta variante é significativamente mais transmissível do que as anteriormente em circulação, com um [...] aumento estimado de transmissibilidade de até 70%".
Quem tenha vindo do Reino Unido aconselhado a testar
O ECDC aponta, então, a necessidade de os países emitirem "orientações para se evitarem viagens e atividades sociais não essenciais".
Ao mesmo tempo, esta agência europeia defende que "as pessoas com uma ligação epidemiológica a casos com a nova variante ou histórico de viagens a áreas conhecidas como afetadas devem ser identificadas imediatamente para testar, isolar e acompanhar os seus contactos, a fim de impedir a propagação da nova variante".
O ECDC pede, ainda, que casos suspeitos sejam analisados e monitorizados em laboratório e que, assim que as autoridades públicas detetem esta ou outra variante, informem de imediato os outros países europeus através do Sistema de Alerta Rápido e Resposta da União Europeia.
Além disso, numa altura em que o Reino Unido já iniciou os processos de vacinação e a UE se prepara para arrancar esse processo, "é necessário assegurar um acompanhamento rigoroso dos indivíduos vacinados contra a covid-19 para identificar possíveis falhas de vacinação e infeções de rutura", sustenta o centro europeu, embora afastando qualquer relação.
Como esta é ainda uma mutação pouco conhecida dos especialistas, o ECDC admita não haver "indicação, neste momento, de aumento da gravidade da infeção associada à nova variante", ainda que confirme casos na Dinamarca e Holanda.
"As investigações sobre as propriedades desta nova variante estão em curso, e até à data não foi comunicada [...] uma mortalidade mais elevada ou grupos particularmente afetados", refere o ECDC no seu relatório.
Já sobre potenciais explicações para esta nova variante, bastante mais contagiosa, o ECDC aponta que pode estar relacionado com eventuais casos de infeção prolongada ou com eventual transmissão de animais para seres humanos, embora indique que tal hipótese foi afastada pelas autoridades de saúde britânicas.
Afastada é a possibilidade de a nova estirpe estar relacionada com o processo de vacinação em curso no Reino Unido, segundo o centro europeu: "É improvável que a variante tenha surgido através [...] dos programas de vacinação em curso, uma vez que o aumento observado não corresponde ao calendário de tais atividades".