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Coronavírus

Covid-19. Especialistas chumbam a imunidade de grupo: “É uma perigosa falácia sem evidência científica”

16 Outubro 2020 23:32

Rui Duarte Silva

De acordo com as estimativas da Organização Mundial da Saúde, adotar a estratégia de deixar o vírus alastrar pela população poderia causar a morte de 77 milhões de pessoas em todo o mundo

16 Outubro 2020 23:32

A pandemia parou o mundo, deixou a vida em suspenso, e desde que a covid-19 surgiu que os vários países têm saltado de restrições em restrições, de confinamento em confinamento, de calamidades para emergências, em bloqueios sucessivos rumo a um “novo normal”, tudo na tentativa de estancar a propagação do novo coronavírus, enquanto outros apontam um caminho alternativo, mais arriscado, o de permitir que o SARS-CoV-2 alastre pela sociedade, de forma a criar a tão falada imunidade de grupo.

A adoção dessa estratégia até foi testada em alguns países, tais como o Reino Unido, a Suécia e os Países Baixos, nações que optaram num primeiro momento por um “isolamento seletivo”. Mas a ideia de permitir que o vírus cavalgasse livremente pela população — protegendo os grupos de risco — nunca foi consensual e sempre suscitou várias críticas. Através de uma carta aberta, publicada agora na revista científica “The Lancet”, um conjunto de 80 investigadores considera a imunidade de grupo “uma falácia perigosa sem evidência científica”, escreve o “El País”.

Os especialistas que assinam o documento advertem que a ausência de medidas de controlo aumentaria a mortalidade em toda a população, afetaria a economia de forma irreversível, prolongaria a pandemia e levaria ao colapso dos sistemas nacionais de saúde.

Na opinião destes investigadores, a opção pela imunidade de grupo deixaria à mercê muitos indivíduos, uma vez que “a proporção de pessoas vulneráveis constitui até 30% da população em algumas regiões”, algo que os leva a defender que “qualquer estratégia de gestão da pandemia que dependa da imunidade das infeções naturais pelo novo coronavírus é errónea”.

Na mesma linha de pensamento, a cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde, Soumya Swaminathan, estima que 77 milhões de pessoas morreriam vitimadas pelo novo coronavírus, caso a ideia de criar imunidade de grupo fosse implementada a nível global.

Além disso, acrescenta a responsável da OMS, para lograr uma hipotética imunidade de grupo seria necessário que, pelo menos, 70% dos indivíduos desenvolvessem anticorpos, mas esse, frisa, seria um processo que necessitaria de muito tempo.