Coronavírus

Covid-19. Trump volta a contradizer-se e afirma que nunca minimizou a pandemia

16 setembro 2020 12:40

scott olson

Declarações vão contra o que o próprio Trump admitiu ao jornalista Bob Woodward. “Eu prefiro minimizar [a pandemia], porque não quero criar pânico.” Também publicamente, em entrevistas e no Twitter, o Presidente norte-americano teve declarações que punham a covid-19 ao nível de outras gripes. “Rage”, livro em que Woodward publica as 18 entrevistas com Trump, foi lançado esta terça-feira nos Estados Unidos e a resposta não demorou. “Li ontem à noite. E foi muito chato”, afirma Trump

16 setembro 2020 12:40

Ao contrário do que se retira do que foi dizendo publicamente, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alegou esta terça-feira que nunca desvalorizou a pandemia de covid-19, que já matou quase 200 mil pessoas no país. “Na verdade, em muitos sentidos, eu sobrevalorizei [a pandemia] em termos de ação”, disse, num “town hall”, evento aberto a perguntas do público, do canal ABC News.

Uma das eleitoras norte-americanas perguntou. “Se acredita que é responsabilidade do Presidente proteger a América, porque minimizaria uma pandemia que causa danos desproporcionais a famílias de baixos rendimentos e a minorias?”.

Segundo o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla inglesa), cerca de 75% dos menores que morreram infetados com covid-19 nos EUA eram hispânicos, afro-americanos e de povos nativos — um número especialmente elevado se tomarmos em consideração que estes representam 41% da população. Negando essa desvalorização, Trump lembrou que proibiu a entrada de viajantes oriundos da China, ainda em janeiro, e da União Europeia, em março.

Se não o tivesse feito, garante, “teríamos perdido milhares de outras pessoas”. “Isso chama-se ação, não com a boca, mas ação de facto.”

A pergunta sobre a desvalorização da pandemia tem como contexto o livro “Rage” (“Raiva”, em português), lançado esta terça-feira nos Estados Unidos. É da autoria de Bob Woodward, um dos dois repórteres do jornal “Washington Post” que há quase meio século fizeram cair o Presidente Richard Nixon, no caso Watergate, e baseia-se em entrevistas de longa duração de Woodward a Trump. Nelas o Presidente norte-americano admite que o conselheiro de segurança nacional, Robert C. O'Brien, se referiu ao novo coronavírus como “a maior ameaça à segurança nacional”, ainda em janeiro, mas que preferiu desvalorizar esse e outros alertas publicamente.

Donald Trump negou que tenha desvalorizado a pandemia de covid-19, apesar de ter dito ao jornalista Bob Woodward que o fazia. “Eu prefiro minimizar, porque não quero criar pânico”

Donald Trump negou que tenha desvalorizado a pandemia de covid-19, apesar de ter dito ao jornalista Bob Woodward que o fazia. “Eu prefiro minimizar, porque não quero criar pânico”

alex wong

Segundo o mesmo livro, de que foram sendo reveladas partes pelo próprio Woodward nas últimas semanas, Donald Trump fazia declarações públicas contrárias ao que se dizia nos corredores da Casa Branca e mesmo a algumas medidas que o próprio tomava. A 19 de março declarou estado de emergência nacional, garantindo porém que tudo estava sob controlo. Na mesma altura, confessou a Woodward: “Eu prefiro minimizar, porque não quero criar pânico”.

É o que confirma o histórico do Presidente na plataforma que usa como comunicação direta com os eleitores, o Twitter. “Então, no ano passado, 37 mil americanos morreram de gripe comum. [A gripe] tem uma média entre 27 mil e 70 mil [mortes] por ano. Nada vai fechar, a vida e a economia continuam. Neste momento, existem 546 casos confirmados do coronavírus, com 22 óbitos. Pense sobre isso!”, escreveu, dez dias antes da referida conversa com Woodward.

A 27 de fevereiro, Trump tinha dito que a pandemia iria ser erradicada por milagre (“um dia – é como um milagre – vai desaparecer”), ideia que repetiu na noite de terça-feira. “Eu continuo a dizer que vai desaparecer, George [Stephanopoulos, pivô da ABC]. Não vamos ter estúdios como este, com todos estes espaços vazios no meio. Eu quero ver pessoas, você quer ver pessoas, eu quero ver jogos de futebol, deixem-nos jogar.”

Questionado sobre se esse desaparecimento se dará com uma vacina, Trump responde que esta pode vir a não ser necessária. Pode bastar um certo “período de tempo”. “E muitas mortes”, contrapôs Stephanopoulos. “Vai ser desenvolvida imunidade”, insistiu o Presidente norte-americano.

Também esta terça-feira, desta feita ao programa matinal “Fox & Friends”, Donald Trump contou que leu o livro de Woodward numa noite. “Ele só escreve maus livros e, na verdade, li este ontem à noite. Li muito rápido e foi muito chato.”

“Rage” tem 392 páginas, na edição norte-americana, e Trump não é conhecido por ser um ávido leitor. “É pior do que se pode imaginar... Trump não lê nada — nem memorandos de uma página, nem breves documentos políticos, nada”, escreveu Michael Wolff, num outro livro sobre a Casa Branca (“Fire and Fury”), citando um ex-conselheiro económico de Trump, Gary Cohn.

“Rage”, ainda sem edição portuguesa, foi feito com base em 18 entrevistas do jornalista ao Presidente. Mostra que Trump minimizou intencionalmente a covid-19 e que “não tem bússola moral”. A primeira entrevista é de 5 de dezembro de 2019 e teve uma duração de aproximadamente 74 minutos. A última que aparece no livro data de 21 de julho.

Houve uma décima nona. A 14 de agosto, Trump ligou a Woodward para saber de que forma seria retratado em “Rage” e que conteúdo das conversas seria tornado público, segundo revela a CNN.

Agora que o livro está disponível, questionado sobre o motivo para ter aceitado falar com o jornalista, Donald Trump respondeu: “Bom, porque assumi que ele fosse minimamente justo.”