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Coronavírus

“Temos de ter consciência que nenhuma vacina é 100% eficaz”, diz diretor da Moderna 

27.08.2020 às 12h26

THIBAULT SAVARY/Getty Images

Em entrevista ao jornal espanhol “El País”, Tal Zaks, diretor científico da empresa de biotecnologia norte-americana Moderna, explica em que ponto estão os trabalhos para o desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 e admite: “se forem necessárias duas doses para pôr fim à pandemia, vamos arranjar forma de o fazer”

O alerta é feito pelo diretor científico da empresa de biotecnologia norte-americana Moderna - um dos laboratórios que se encontra numa das fases mais avançadas de desenvolvimento da vacina contra a covid-19. Em entrevista ao jornal espanhol “El País”, Tal Zaks admite até que algumas pessoas vacinadas possam vir a adoecer e, por isso, defende a necessidade de se conhecer ao pormenor a segurança que a vacina realmente oferece às pessoas.

“Acho que o que é realmente importante, para nós laboratório e para a sociedade, é perceber o perfil de segurança e os efeitos secundários antes de começarmos a vacinar as pessoas”, defendeu Zaks quando confrontado com a vontade de Donald Trump arrancar com uma campanha de vacinação ainda antes das eleições presidenciais norte-americanas, marcadas para 3 de novembro.

Sem querer falar de política, o diretor científico da Moderna continua: “se começarmos a vacinar as pessoas, temos de o fazer com a consciência que nenhuma vacina é 100% eficaz. Algumas pessoas vão adoecer apesar da vacinação. Como é que eu tenho a certeza que estas pessoas não pioraram por causa da minha vacina? As pessoas podem começar a dizer: ‘deram-me a vacina e agora estou doente. Foi a vossa vacina que me fez adoecer.’ Isto não é científico, mas temos de ter dados que nos permitam também explicar isto, uma vez que somos os promotores do ensaio.”

Na mesma entrevista, Zaks diz que a toma da vacina vai ser algo opcional e que não acredita que algum Governo venha a impor a obrigação da vacinação contra a covid-19. O investigador considera ainda que “há um debate público legítimo sobre se já existe informação suficiente para justificar o risco”. “Mesmo se esperarmos até ao final do ano ou até ao princípio de 2021 para termos mais conclusões sobre os ensaios clínicos, continuamos a ter dados limitados e continuamos sem saber aquilo que não sabemos. Pode haver efeitos adversos a longo-prazo. Até que ponto vale correr o risco de pessoas continuarem a morrer tendo em conta que podem ser vacinadas? É um debate muito difícil entre risco e benefício”, explicou, defendendo ainda que é “muito importante” ter toda a informação para que as pessoas “possam tomar decisões conscientes.

Zaks ainda não sabe quanto tempo pode durar a proteção de alguém que esteja vacinado. Aliás, ainda não está certo se apenas uma dose da vacina pode ser suficiente, acreditando que a toma de uma segunda dose poderá “estimular a resposta imunitária”. “Pode só uma dose ser suficiente? Talvez. Decidimos experimentar duas devido à gravidade da pandemia, não queremos arriscar. Não quero algo só metade bom. Quero ter a melhor proteção possível. E isso é conseguido com uma segunda dose.”

“Se forem necessárias duas doses para pôr fim à pandemia, vamos arranjar forma de o fazer”, conclui.