Coronavírus

A atual pandemia tem apenas “um responsável”, o ser humano, e a covid-19 “pode ser só o início”, avisam especialistas

27 abril 2020 20:13

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

china photos/getty images

Atividades como a “excessiva desflorestação, a agricultura intensiva, a extração de minerais e o desenvolvimento de infraestruturas, assim como a exploração de espécies selvagens, criaram a tempestade perfeita para a transmissão de doenças entre animais e pessoas”, de que é exemplo a covid-19, avisam especialistas num artigo publicado na plataforma IPBES, que avalia o estado da biodiversidade global e de que fazem parte mais de 130 países, Portugal incluído

27 abril 2020 20:13

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Os responsáveis pela atual pandemia “somos nós”, seres humanos, e a covid-19 “pode ser só o início”. Assim escrevem num artigo publicado esta segunda-feira três especialistas em biodiversidade da plataforma IPBES – Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas, que em 2019 divulgou um importante relatório sobre o estado de saúde do planeta e de que fazem parte mais de 130 países, Portugal incluído.

Dizem os especialistas, no referido artigo, que “as recentes pandemias são a consequência direta da atividade humana, particularmente os sistemas económicos e financeiros globais, que dão prioridade ao crescimento económico a qualquer custo”. “A nossa janela de oportunidade para lidar com o atual vírus, no sentido de prevenir o aparecimento de outros no futuro, é muito pequena”, alertam.

Mais de 70% das novas doenças que afetam as pessoas têm origem animal, sublinham, uma realidade para a qual a ONU chamou a atenção há vários anos. E as pandemias, acrescentam os investigadores, são causadas por “atividades que aumentam o contacto direto entre pessoas e animais que transportam estes patogénicos”. A “excessiva desflorestação, a expansão descontrolada da agricultura, a agricultura intensiva, a extração de minerais e o desenvolvimento de infraestruturas, assim como a exploração de espécies selvagens, criaram a tempestade perfeita para a transmissão de doenças entre animais e pessoas”, escrevem Josef Settele, Sandra Díaz e Eduardo Brondizio.

“Doenças transmitidas pelos animais são responsáveis por cerca de 700 mil mortes todos os anos”

Foram estes três especialistas que, em 2019, coordenaram um importante e amplo estudo sobre o estado da biodiversidade global, que reunia informação disponibilizada por cerca de 15 mil fontes científicas e que foi divulgado pela ONU. Na altura, chamaram a atenção para o facto de haver um milhão de espécies em risco de extinção e divulgaram outros dados significativos, como o facto de 75% do ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho já terem sido “severamente afetados” por atividades humanas. A agricultura e a pesca surgiam como as principais forças destruidoras, a acrescer aos efeitos das alterações climáticas.

No artigo recém-publicado, o tom também é de aviso: “Se não formos extremamente cautelosos quanto ao impacto das escolhas que fazemos hoje, no futuro é provável que as pandemias se tornem cada vez mais frequentes e se propaguem ainda com maior rapidez, causando impactos económicos desastrosos e vitimando pessoas”. Segundo os especialistas, “as doenças transmitidas pelos animais são responsáveis por cerca de 700 mil mortes todos os anos” e estima-se que “existam em mamíferos e aves aquáticas cerca de 1,7 milhões de vírus não identificados e capazes de infetar humanos”.

A pandemia “não é uma vingança da natureza: nós fizemos isto a nós próprios”

Os programas e planos de recuperação implementados pelos diferentes governos devem, assim, contemplar esta necessidade e ser usados para “fortalecer e assegurar a proteção ambiental”, dizem. “Pode haver a tentação política de, nesta altura, alterar os seus padrões ambientais e apoiar indústrias como a da agricultura intensiva e a da aviação, e setores energéticos dependentes dos combustíveis fósseis. No entanto, fazê-lo sem proceder a mudanças que são urgentes só irá contribuir para o aparecimento de mais pandemias”.

Em março, recorda o jornal britânico “The Guardian”, Inger Andersen, directora executiva do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), já tinha dito que a covid-19 foi uma espécie de “mensagem que a natureza nos enviou”. No sábado passado, Thomas Lovejoy, conhecido biólogo norte-americano, afirmou que a atual pandemia “não é uma vingança da natureza”. “Fomos nós que fizemos isto a nós próprios.”