Coronavírus

Covid-19. Um pequeno passo para a Áustria mas um grande passo para a discussão: como, quando e a que ritmo é que se levantam as restrições?

6 abril 2020 19:15

flavio lo scalzo

Áustria já avançou com datas para começar o levantamento faseado de restrições. China já o tinha feito. E há uma discussão em curso sobre certificados de imunidade

6 abril 2020 19:15

É este o balanço mundial (pelas 18h50 desta segunda-feira): cerca de 1,3 milhões de infetados, 73.731 mortes e 277.285 recuperados. A OMS já alertou que os países devem continuar a insistir nas restirções adotadas, até porque a pandemia continua a ser isso mesmo - uma pandemia -, mas há Estados que já começam a preparar o levantamento de algumas das medidas. O regresso à normalidade, até pela perspetiva de crise económica, é preocupação de muitos governantes.

Dois meses depois de ter fechado a cidade de Wuhan, onde terá ocorrido o primeiro caso do novo coronavírus, a China começou a abrir portas, permitindo um lento regresso a algumas atividades económicas, embora sempre com o fantasma de uma recaída e consequente retrocesso.

Na Áustria, o primeiro-ministro, Sebastian Kurtz, anunciou esta segunda-feira que as pequenas lojas devem abrir a 14 de abril, medida que se deve estender a todas as lojas e negócios a 1 de maio, conta o "The Guardian”. Hotéis e restaurantes seriam os seguintes da lista, a meio de maio. Relativamente a eventos que juntariam muitas pessoas, não aconteceriam até junho - pelo menos.

Nenhum país quer correr riscos desnecessários de reinfeção, por isso os cientistas um pouco por todo o lado esforçam-se por desenvolver testes serológicos capazes de detetar imunidade ao vírus. Na Europa, a Alemanha foi dos primeiros a abordar a questão e a assumir que quer implementar, já partir de meados deste mês, uma espécie de certificados ou passaportes de imunidade, no fundo um documento que comprove que um paciente infectado com a covid-19 já desenvolveu os anticorpos necessários contra a doença, podendo por isso voltar à vida ativa. Há quem defenda que precisamos de aprender a conviver com o vírus, como é o caso de Juergen Stackmann, chefe de vendas e marketing da Volkswagen, que disse ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung que a Alemanha deverá voltar ao normal no verão. “A paralisação não pode durar mais que o verão. A sociedade e a economia não podem suportar isso.”

No Reino Unido, o ministro da saúde Matt Hancock anunciou também em conferência de imprensa que o país está a avaliar a possibilidade de avançar com estes “certificados de imunidade”. Isto apesar do próprio primeiro-ministro britânico estar a dirigir o país a partir do hospital, onde foi internado devido ao coronavírus e à febre que teima em não descer. Entretanto a responsável do governo de Boris Johnson para questões de saúde pública, Jenny Harries, refere que as medidas até agora tomadas têm de ser avaliadas de três em três semanas e deixa o aviso de que a normalidade pode só chegar daqui a seis meses.

Itália, o país que registou até agora o maior número de mortes, começa a preparar medidas para um levantamento “gradual e controlado” das restrições, uma vez que os italianos parecem ter atingido o pico da curva de propagação do novo coronavírus. Embora advertindo que falta muito para um regresso à normalidade, o ministro da Saúde italiano, Roberto Speranza, já enumerou algumas medidas a tomar em breve, como o uso generalizado de máscara; uma aplicação de rastreio para cartografar os movimentos dos doentes diagnosticados durante as 48 horas anteriores à infeção e também para facilitar a telemedicina; a multiplicação dos testes de diagnóstico e a assistência especializada ao domicílio.

O diretor da Proteção Civil, Angelo Borrelli admite que o país possa entrar numa “fase dois”, de “coexistência com o vírus”, a 16 de maio, mas apenas “se a evolução não se alterar”. Uma coisa é certa - para os italianos não vai haver festejos antes da hora já que bares, restaurantes, discotecas e recintos desportivos vão ser os últimos a reabrir.

Em Espanha, Pedro Sánchez anunciou o prolongamento do estado de emergência até 26 de abril, reconheceu que provavelmente será necessária uma outra renovação, mas começou também a falar em luz ao fundo do túnel. Note-se que depois dos EUA, Espanha é, até esta segunda-feira, o país com maior número de infetados a nível mundial, apesar de o número de óbitos estar a descer há quatro dias consecutivos.

Pere Godoy, presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia, veio dizer que, desde que se garanta que o distanciamento social é cumprido, “muito em breve será possível permitir a prática de desporto, como ir correr sozinho e de maneira controlada e separada, e permitir que os pais possam passear com os filhos, mesmo que seja perto de casa e em distâncias curtas”. Mas na equação deste vislumbre de regresso à normalidade os mais idosos vão ser os últimos a ter ordem de soltura. A diversão também vai ter de ficar para depois: bares, discotecas e afins serão, tal como em Itália e (pressupõe-se) no resto do mundo, os últimos a abrir, adiando a festa que tantos querem fazer.

E Portugal?

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, adiantou no passado sábado que o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge “já está a entrar numa fase-piloto de estudos serológicos” para definir como e quando é que os testes de imunidade serão feitos.

Por sua vez, a ministra da Saúde, Marta Temido, prefere manter um discurso prudente, afirmando que “não há uma data simples” para o fim das medidas de restrição.

A julgar por tudo o que foi dito até agora, há algumas conclusões que podemos tirar pelo menos para os primeiros tempos pós-confinamento obrigatório: não vamos regressar todos ao mesmo tempo à vida ativa; é conveniente que permaneçamos em casa o máximo possível saindo apenas se houver necessidade para trabalhar ou fazer compras; teremos de continuar a respeitar as regras de segurança por mais algum tempo; será muito importante que não nos esqueçamos da primeira regra básica - lavar as mãos com muita frequência.