Coronavírus

Covid-19. Quarentena permite evitar 50 mil mortes

3 abril 2020 22:30

marcos borga (mb)

Os modelos matemáticos do Imperial College apontam para 3800 mortes em Portugal numa primeira vaga de contenção do vírus. Num cenário com medidas mais ligeiras de distanciamento, quando a epidemia chegar ao fim, os números poderiam rondar as 17 mil mortes. Sem medidas de redução do contacto, chegariam a 74 mil. Epidemiologistas londrinos sublinham impacto positivo das medidas de distanciamento

3 abril 2020 22:30

Os epidemiologistas do Imperial College, considerados dos mais conceituados no mundo, estimaram o impacto da redução de contacto social em 202 países com base num modelo adaptado às características de cada um. E os cenários para Portugal mostram que o distanciamento da população e em particular dos idosos permite reduzir para um quarto o número de mortes.

Se toda a população mantiver os contactos reduzidos em 40% e os idosos em 60%, a estimativa dos investigadores londrinos para o final da epidemia, depois de largos meses, no melhor dos cenários, é de cerca de 17 mil mortes e de 4,1 milhões de infetados em Portugal. Isso resultará de uma estratégia de ‘mitigação’, ou seja, quando são aplicadas medidas mais ligeiras de contenção, sem restringir o contacto social de forma tão intensa, mantendo por exemplo alguns serviços em funcionamento e deixando que uma parte da população adquira imunidade. Sem nenhuma medida aplicada, segundo estes modelos, os números em Portugal poderiam chegar aos 74 mil óbitos e 7,4 milhões de infetados, refletindo uma diferença de menos 57 mil mortes.

Mas há outros cenários, baseados nas chamadas estratégias de ‘supressão’, que acontecem quando são aplicadas medidas bastante mais intensas de redução do contacto, um pouco à semelhança do que se passa em Portugal neste momento. A supressão decorre num período de tempo mais curto, de cerca de três meses, segundo o modelo do Imperial College, assumindo que é implementado e mantido durante todo esse tempo um nível de distanciamento social de 75% em toda a população.

No final desse período, o número de casos é bastante mais baixo do que seria sem nenhuma medida em vigor, permitindo aos sistemas de saúde darem resposta, só que se mantém uma parte muito grande da população suscetível de ser infetada. Basta levantar as medidas de contenção para que haja nova onda de contágio — um risco já referido por vários especialistas, cujo impacto é impossível para já de prever.

Nas estimativas do Imperial College, num cenário de ‘supressão’, os números em Portugal seriam de 3800 mortes e 700 mil infetados no final desse curto período. Só que manter esses números até ao fim da epidemia “é irrealista”, aponta o virologista Pedro Simas, investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM). Seria preciso prolongar durante muito tempo e de forma ininterrupta o estado de emergência até que a população estivesse protegida por uma vacina para que não surgissem mais casos.

“O potencial pandémico do vírus está na propriedade de provocar uma infeção maioritariamente invisível”, explica Pedro Simas. “Nenhum país estava preparado para isto. Mesmo que as medidas de contenção e as prestações do SNS sejam perfeitas, infelizmente, vai haver muitas fatalidades.” E este estudo, reforça, é uma forma de perceber o potencial impacto do vírus, que em dois meses fez 14 mil mortos em Itália. “Vai ao encontro do possível efeito já avançado nos EUA”, aponta, numa referência às estimativas avançadas pela Casa Branca de 100 mil a 240 mil mortes nas próximas semanas.

“Os números finais em Portugal dependem muito do que se fizer agora. Podemos conseguir acompanhar esta curva de supressão, mas é preciso manter as medidas”, reitera Gabriela Gomes, matemática especialista em epidemiologia da Escola Superior de Medicina Tropical de Liverpool e membro do Centro de Matemática da Universidade do Porto, que tem desenvolvido modelos para Portugal com estimativas semelhantes às apresentadas pelo Imperial College.

O epidemiologista André Peralta Santos, da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, explica que os modelos do grupo londrino de epidemiologistas liderados por Neil Ferguson “são muito sofisticados” e têm em conta fatores como a estrutura etária de cada país, o contacto social que difere entre culturas e ainda os cuidados de saúde e a capacidade de resposta de cada sistema. “Contudo, é uma pena estarmos a discutir os modelos do Imperial College para Portugal e não os modelos usados pelas instituições portuguesas. Poderia ser uma discussão mais construtiva”, afirma, criticando o facto de o Ministério da Saúde não divulgar os modelos com que está a trabalhar.

É preciso mais testes

O Imperial College conclui que as medidas aplicadas precocemente, como aconteceu em Portugal, têm maior impacto. “Se as estratégias forem aplicadas quando se registam 0,2 mortes semanais por 100 mil habitantes, podem salvar-se em todo o mundo 38,7 milhões de vidas. Atrasar a sua implementação trará resultados piores.”

Gabriela Gomes identifica uma curva de supressão em Portugal, “mas é impossível ter certeza” enquanto não forem divulgados os modelos da DGS. A mitigação permitiria à população ganhar imunidade, mas significaria uma “grande perda de vidas”. Por isso, “o melhor é seguir a curva de supressão, intensificando as medidas, embora o custo a pagar seja o económico”.

Os investigadores britânicos veem as medidas de distanciamento como “as únicas abordagens que provavelmente podem evitar a falha do sistema de saúde nos próximos meses”. Contudo, sublinham, é preciso manter um “elevado nível de testes” e de “vigilância e isolamento rápido dos casos positivos” para evitar o potencial de reaparecimento da epidemia.