Coronavírus

Covid-19. Combustível porta-a-porta: um negócio nascido na crise para dar lucro em menos de um ano

3 abril 2020 17:57

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Hugo Botelho é o fundador da Azul.

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A startup chama-se Azul mas a imagem de marca é verde. Começa a vender combustível quando os portugueses menos precisam. Mas mesmo assim o seu fundador, Hugo Botelho, está otimista

3 abril 2020 17:57

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Nas últimas semanas os preços dos combustíveis em Portugal tiveram quedas históricas, fruto da desvalorização do petróleo, ela mesma reflexo da acentuada queda de procura associada à pandemia de covid-19. Com boa parte do país em teletrabalho, o consumo de gasolina e gasóleo em Portugal afundou-se. Mas nem isso retira o otimismo a Hugo Botelho, que acaba de pôr em marcha a Azul, uma startup de venda de combustíveis porta-a-porta. Começou por Lisboa mas nos próximos meses chega ao Porto. E conta dar lucros já este ano.

“As margens são relativamente baixas, mas da maneira como a operação está montada, com rotas fixas, cada carrinha paga o investimento inicial em apenas seis meses. Somos muito eficientes no trabalho com os nossos clientes”, assegura ao Expresso Hugo Botelho. Doutorado em Economia, trabalhou cerca de um ano na Chaffeur Privé (atual Kapten), de onde saiu em julho do ano passado para se dedicar apenas à Azul, da qual é acionista maioritário e onde participam outros investidores privados.

Paradoxalmente, a Azul adotou o verde como logótipo. E aposta num modelo de negócio pouco explorado em Portugal, o do combustível porta-a-porta. Funcionará esta estratégia num país que conta já com 3145 postos de combustível? São tantos pontos de venda de gasolina e gasóleo como farmácias. Hugo Botelho acredita que sim, há mercado para o seu negócio. Um pequeno negócio, para já, com uma equipa de seis pessoas, incluindo o fundador, que também fez uma formação de um mês para estar habilitado a conduzir veículos com matérias perigosas.

Hugo contou ao Expresso alguns dos detalhes do negócio. Globalmente a Azul nasce com um investimento de 1 milhão de euros, valor que inclui o custo inicial das três carrinhas já em operação na região de Lisboa (perto de €150 mil), o custo adicional de outras três viaturas para chegar ao Porto e de mais três para duplicar a operação em Lisboa, bem como as garantias prestadas aos fornecedores de combustível.

O negócio é feito levando combustível a clientes empresariais e particulares em carrinhas adaptadas para o efeito, com tanques certificados e bombas como as das estações de serviço, produzidas pela empresa Petrotec. Cada carrinha custou perto de €50 mil, entre o custo do veículo e a respetiva adaptação.

Segundo Hugo Botelho, para tornar o processo de certificação mais fácil a empresa limitou a capacidade das carrinhas a 330 litros de gasolina (um veículo) e 1000 litros de gasóleo (por cada um dos outros dois veículos). Os equipamentos instalados tiveram de ser certificados, mas essa limitação de capacidade isenta, nos termos das normas europeias, a própria certificação de todo o veículo, como sucede com os camiões-cisterna que servem as gasolineiras.

Hugo Botelho diz que o negócio “está a correr bastante bem”. A empresa começou a faturar em março, depois de ter estado em testes em fevereiro. A Azul tem para já 14 clientes empresariais e cerca de 30 particulares. Entre os clientes empresariais estão empresas de logística, com carrinhas de entregas de encomendas, bem como empresas de transporte em veículos descaracterizados (TVDE, como os da Uber), uma empresa de reparações técnicas e outra de serviços para a hotelaria.

A maior parte desses clientes consome gasóleo. Mas a Azul está também a apostar no abastecimento de combustível aos trabalhadores de empresas em parques de escritórios no concelho de Oeiras, através do abastecimento das suas viaturas em datas e horas previamente agendadas.

Para este ano a Azul espera vender entre 2 milhões e 3 milhões de litros. Hugo Botelho não quer avançar uma projeção de volume de negócios, até por causa da volatilidade do preço dos combustíveis. Mas estima que a empresa já alcançará um “pequeno lucro” em 2020. “O nosso modelo tem de ser equilibrado desde o dia 1.”