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Expresso

Um conselho de Serena Williams: mulheres, sejam loucas

Sabiam que há 50 anos era proibido as mulheres correrem maratonas? As atletas do sexo feminino eram consideradas demasiado frágeis para tal prova, mas houve uma que ousou correr lado a lado com atletas masculinos para provar o contrário. Tal como esta mulher, muitas outras foram apelidadas de loucas por desafiarem o status quo de género no desporto. Intitulada “Dream Crazier”, a nova campanha da Nike é dedicada a todas elas, as mulheres “loucas” que ousaram quebrar estereótipos

Em 2018, a Nike deu que falar ao lançar a campanha “Dream Crazy” narrada por Colin Kaepernick. Neste vídeo, o jogador de futebol americano fazia um incentivo global à perseverança de quem sonha e ambiciona ter uma carreira no desporto, independentemente do seu género, nacionalidade, condições financeiras ou limitações físicas. Sete meses depois, a marca volta a lançar uma campanha inspiradora, mas desta vez com um enfoque exclusivo nos feitos femininos dentro do universo desportivo. E está bonita de se ver.

Já ando há algum tempo para vos falar desta campanha – lançada na noite dos óscares – e nada como uma segunda-feira para começar a semana com um vídeo inspirador. Narrada pela gigante do ténis Serena Williams, “Dream Crazier” é uma variante da campanha lançada em setembro passado. Desta vez, pretende-se não só elogiar e inspirar mulheres e meninas de todo o mundo que ambicionam exercer atividades que não são consideradas femininas, mas também enaltecer as dificuldades e capacidade de superação das mulheres mundo fora perante as dificuldades criadas pelos seus pares masculinos. Uma forma de alerta para as inúmeras situações de dois pesos e duas medidas que as mulheres enfrentam quando optam por uma carreira conotada como masculina.

“Se mostramos emoções, somos chamadas de dramáticas. Se queremos jogar contra os homens, somos malucas. Se sonharmos com oportunidades iguais, dizem-nos que estamos a delirar. Quando nos batemos por algo em que acreditamos, estamos desequilibradas. Quando somos muito boas, há algo de errado connosco. E se ficarmos com raiva, somos histéricas, irracionais ou simplesmente loucas”, vai narrando Serena Williams, num vídeo que dá também vários exemplos de atividades, ações e conquistas que eram consideradas uma loucura quando a protagonista era uma mulher. Exemplos? Uma mulher correr uma maratona. Uma mulher lutar boxe. Uma mulher treinar uma equipa da NBA. Uma mulher usar hijab e ser uma atleta de renome. Uma mulher ganhar 23 grand slams, ter um bebé e voltar à alta competição para conquistar mais títulos. Loucura, diriam muitos. Mas houve quem provasse que a loucura podia ser, afinal, apenas a realidade.

Pelas mais diversas razões, escusado será dizer que o universo do desporto continua a ser altamente sexista e permeável a discriminar as atletas mulheres. Não só ainda há atividades que continuam a ser consideradas inadequadas para mulheres, como em pleno 2019 continuamos a ver atletas do sexo feminino a debaterem-se com sérios entraves de investimento às suas carreiras, desde o desinteresse de clubes desportivos ao parco investimento publicitário e mediático. Escusado será também dizer que o senso comum se baseia na velha máxima de que para haver investimento é necessário que exista público e, consequentemente, receitas. Mas se o foco for sempre este, nunca sairemos desta verdadeira pescadinha de rabo na boca. Volto a colocar a eterna questão que já há uns tempos tinha escrito por aqui: será que é o público que não tem real interesse no desporto feminino ou será que é a falta de investimento, de patrocínios, de visibilidade televisiva e publicitária, e demais fatores de mediatização do desporto, que provoca esse desinteresse? Será que se existissem mais marcas a apostar em equipas femininas, mais investimento dos clubes nestas equipas, melhores condições de trabalho para as atletas profissionais e mais cobertura dos media, não existiria um maior interesse do público? E será que os atletas masculinos têm tanto receio de perder o domínio absoluto de um universo, receitas e visibilidade que foram só seus desde sempre que preferem ridicularizar as atletas femininas em vez de lhes darem oportunidades iguais?

Engane-se, contudo, quem acha que “Dream Crazier” é apenas sobre desporto. Por mais que seja este o universo representado na campanha, a competição desportiva serve apenas de gancho para uma realidade bem maior. Infelizmente, uma realidade transversal a tantos outros sectores profissionais onde o trabalho e o mérito femininos continuam a ser desvalorizados, tantas vezes pela via de ridicularização ou deturpação dos seus comportamentos, para os quais continuam a existir – mais uma vez - dois pesos e duas medidas. Incluindo para a sua ambição no que toca a posições de poder. Será que as mulheres, por serem mulheres, são simplesmente menos dotadas para determinadas atividades e/ou posições profissionais? É por isso que chegam em tão pequena escala a altos cargos de liderança, por exemplo? Ou será que a depreciação generalizada das competências femininas não é também um incentivo à forma como as mulheres se veem a si próprias e às suas capacidades? Não será este também um entrave à maneira enviesada e desequilibrada como os seus pares masculinos inevitavelmente também as encaram? Será que se os incentivos ao longo das várias fases da vida, a validação das competências e o acesso a oportunidades fossem iguais para todos, independentemente do género, os resultados seriam diferentes no que respeita às estruturas atuais dos mais variados sectores profissionais? Para sabermos a resposta, é preciso que uma mudança de paradigma aconteça.

Se eles te quiserem chamar louca, tudo bem. Mostra-lhes o que a loucura pode fazer”, diz Serena Williams em tom de conclusão na campanha. Ou como diria Clarice Lispector, “refugio-me na loucura porque não me resta o chamado meio-termo do estado das coisas comum. Quero ver coisas novas – e isso eu só conseguirei se não tiver mais medo da loucura”. Felizmente, já são muitas as mulheres que não se resignam ao tal meio-termo que lhes foi imposto.