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Expresso

A nova animação da Pixar é sobre sexismo no mercado laboral

Como é que é ser mulher numa empresa cheia de homens? Elas são facilmente aceites, integradas respeitadas e valorizadas nas suas competências? Ou será que têm de se masculinizar para serem tidas em conta de igual para igual pelos seus pares masculinos? A Pixar recorreu a um novelo de lã cor-de-rosa para responder a estas perguntas e o resultado é esta animação.

Com todas as metáforas e generalizações a que uma animação tem direito, imaginemos uma meada de lã cor-de-rosa que é contratada pela B.R.O., uma empresa de alta finança que – em alusão ao termos “bros” (“manos”) - funciona em jeito de “clube de cavalheiros”. Purl, a personagem principal, representa uma figura feminina que chega precisamente a um escritório liderado por homens, onde só trabalham homens bastante parecidos uns com os outros, não só na aparência exterior, como também nos comportamentos. Purl tenta manter-se fiel às suas características individuais, mas rapidamente percebe que se quiser ser “vista” dentro da empresa tem de se moldar e “fazer parte dos rapazes”. Para isso, começa por mudar a sua aparência, masculinizando-a. Depois começa a ter comportamentos que, por mais que a incomodem, a fazem sentir-se mais facilmente aceite. Das piadas brejeiras, às saídas à noite para jogos de futebol ou para beber copos, à utilização de tons de voz agressivos para expressar as suas opiniões, vale tudo para conseguir ser aceite. Mas no dia que chega mais uma figura feminina ao escritório, Purl acaba num dilema: vai continuar a fingir ser algo que não é para conseguir que as suas competências profissionais sejam levadas a sério ou vai ser simplesmente ser quem é e deixar de alimentar estereótipos para conseguir encaixar num perfil pré-formatado de boa profissional?

Ao contrário do que muita gente anda a questionar, não, esta não é uma animação para crianças. Esta é uma animação para adultos que tenta espelhar a realidade sexista de muitas grandes empresas norte-americanas (mas que também é válida para a realidade de muitas empresas europeias), onde as mulheres ainda se têm de moldar à mentalidade e regras do tal “clube de cavalheiros” se quiserem vingar nas suas carreiras. Ambientes muitas vezes hostis para as profissionais do sexo feminino, que se vêm obrigadas a mimetizar comportamentos e hábitos de socialização dos pares masculinos, as suas formas de expressão verbal e até mesmo as regras de vestuário para se encaixarem nos padrões da equipa e sobreviverem à pressão. Áreas como as da finança, do cinema ou da política, por exemplo, são cenários férteis neste tipo de situações (tirem 30 segundos para pensar na forma como a roupa ou a forma de falar das mulheres ligadas à política ainda é motivo de conversa e de notícia de jornal, por exemplo).

Aliás, esta curta inspira-se precisamente na história da sua realizadora, Kristen Lester, que passou parte da sua carreira num estúdio onde era a única mulher. “Para poder fazer o trabalho que adorava dei por mim a transformar-me em ‘mais um deles’. Quando comecei a trabalhar na Pixar e integrei equipas com outras mulheres é que me apercebi quantos aspectos femininos de mim mesma tinha deixado para trás de forma a encaixar no grupo”. Quando contou isto a outras colegas percebeu que não tinha sido a única a sentir o mesmo. E assim nasceu “Purl”, uma curta que recorre a uma série de generalizações de comportamentos de parte a parte para conseguir prender o espectador e passar uma mensagem tão importante quanto esta em poucos minutos. Uma mensagem para adultos, contada como se fossemos crianças.

Basicamente, esta curta da Pixar – empresa que, nem de propósito, há pouco tempo se viu a braços com situações de discriminação laboral precisamente por causa ambientes hostis para as mulheres - é bastante inteligente na forma como mostra a masculinização feminina enquanto estratégia de sobrevivência no mercado laboral. Não basta existirem quotas de género nas contratações para cargos de liderança, um tema cuja discussão tem estado muito em voga nos últimos anos. É preciso que também em termos de ambiente e condições de trabalho os tetos de vidro sejam igualmente assumidos e quebrados. E que isto de não se fazer “parte do grupo” não seja um factor tão determinante na credibilidade e aceitação profissional de nenhuma mulher. Tal como acontece com tantos outros obstáculos que têm por base estereótipos de género, como as situações de assédio sexual e moral, as questões da maternidade e da disponibilidade, as dúvidas quanto à capacidade de liderança, as supostas dificuldade de gestão das emoções do sexo feminino, etc.

É certo que as mulheres lidam com estes tetos de vidro há décadas, e que na realidade até já estão tão habituadas a fazê-lo que desenvolveram estratégias que lhes permitem encaixar-se em ambientes que ainda são “um mundo de homens”. Pior, até encaram estas estratégias como parte de uma suposta normalidade. Mas será que faz sentido? Será que é justo? Há um ensaio intitulado “Mulheres e Poder”, de Mary Beard, cuja leitura recomendo vivamente e que deixa no ar uma questão que se adapta perfeitamente a esta temática: após séculos de estruturas de poder totalmente masculinizadas, as mulheres continuam a não ser percecionadas como parte integrante de determinados meios e cargos. Assim sendo, “será que o que temos de redefinir são as mulheres ou será que é a própria estrutura de poder que tem de ser redefinida”?