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Expresso

A vida de saltos altos

22m de História a atrapalhar a Economia

Irina Rosa (sapato nº37)

O dia de ontem ficou marcado, entre outros acontecimentos surpreendentes, pela remoção de quatro blocos da secção que ainda existe do Muro de Berlim, conhecida como East Side Gallery. O muro construído na calada da noite, tornou a surpreender a cidade, sendo em parte desmantelado durante a madrugada de Quarta-feira, momento escolhido para evitar o confronto com manifestantes. 

São 1.3km que mantêm viva a memória de uma divisão da cidade que por 28 anos personificou dois modelos de vida antagónicos e irreconciliáveis.

O que para uns é um espaço de arte, um monumento carregado de sentimentos ambivalentes (se  por um lado conserva a memória de uma separação forçada de familiares e amigos, por outro reúne e marca a alegria da reunificação) para outros é uma barreira física que impede a construção de um edifício de luxo.

Mais uma vez o Muro de Berlim está no caminho do capitalismo e a ironia reside no facto de em sua defesa emergirem cidadãos filhos da democracia. Maik Uwe Hinkel o investidor responsável por este atentado à memória garante que o total de 22m a serem removidos serão recolocados posteriormente. Após um mês de negociações o investidor indicou que não iria esperar mais. Time is money, so they say....

É aqui que o capitalismo mostra um dos seus lados mais negros, é cego, tudo se compra, tudo se vende. É aqui que se mina por dentro também ao ignorar as lições da história e o valor da vida humana. As vidas que se perderam a tentar passar este muro, os que arriscaram e sobreviveram acreditaram que o lado de cá valia a pena. Não consigo imaginar o que é olhar para trás e ver essa expectativa defraudada. Por algum motivo simbólico este é o segundo monumento mais visitado da capital alemã.

Não sou contra o capitalismo e não sou contra o luxo. Mas estou longe de aceitar a lógica desenfreada de obtenção de lucro que nos tem dominado nos últimos anos, pondo todos os valores em causa.  O Muro de Berlim não é um legado alemão, é um legado Europeu. Não é uma propriedade que deva estar à disposição dos investidores para ser olhada como um obstáculo ou oportunidade.

É triste ver como este desmantelamento serve tão facilmente de imagem do que aos poucos começa a acontecer ao projeto europeu, a viver de promessas vãs.

E  dou por mim a pensar "que parva que eu sou" ao julgar que a vantagem de derrubar muros seria construir pontes....

Pink Floyd- Another Brick in the Wall

Autoras: Ana Areal, Liliana Coelho, Paula Cosme Pinto, Sofia Rijo, Solange Cosme

Editora: Plátano (coleção Livros de Seda)

Preço: 11,80€ em loja, 10,62€ se for adquirido via site da Editora Plátano

Páginas: 158

ISBN: 9789727708598

Saiba mais sobre o livro:

Um livro lançado... em Saltos Altos (vídeo e fotogaleria) Blogue mais feminino do Expresso chega às livrarias (vídeo)

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