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Expresso

O efeito riqueza de Trump

É cada vez mais difícil evitar conversas pessimistas sobre a evolução da economia no curto prazo. À inevitável desaceleração mundial há muito esperada, juntam-se agora motivos regionais para confirmar que já não é possível dizer que apenas se trata de um ciclo económico mais longo… porque apesar de mais longo, continua a ser um ciclo e por isso tudo o que sobe terá que descer.

O ano passado foi desastroso para o investimento em todas as classes de ativos nos mercados emergentes, com os mercados de dívida, de capitais e cambiais em declínio simultâneo pela primeira vez na década.

Os movimentos significativos dos mercados bolsistas impactam materialmente o crescimento económico, se forem sustentáveis. Este tipo de impacto deve-se ao efeito de perceção de riqueza criado nas expectativas dos agentes económicos (efeito riqueza), que altera o sentimento e predisposição para o consumo das famílias e investimento das empresas.

Quando os preços das ações estão elevados, as famílias sentem maior confiança na sua capacidade financeira e estão mais dispostas a consumir. Mas o contrário acontece quando as cotações da bolsa descem.

O nível de preços dos mercados bolsistas influencia igualmente a facilidade com que as empresas conseguem obter crédito para investirem. Quando os preços das ações estão em alta, as empresas financiam-se e investem muito mais facilmente do que quando as cotações estão em baixa.

No primeiro ano da presidência de Trump em 2017, as cotações na bolsa americana subiram cerca de 25%. Esta valorização aumentou o efeito riqueza nas famílias americanas em cerca de 30% do PIB. No entanto, desde o pico das valorizações no primeiro trimestre de 2018, as cotações desceram cerca de 15%, fazendo reduzir esse mesmo efeito riqueza nas famílias em cerca de 20% do PIB.

De acordo com estimativas do FED, as famílias americanas tendem a gastar 4 cêntimos por cada dólar de acréscimo permanente da sua riqueza, pelo que a forte valorização do mercado bolsista em 2017 poderá ter acrescentado cerca de 1,25% ao crescimento do PIB americano. No sentido inverso, estima-se que a recente desvalorização das bolsas possa reduzir cerca de 0,75% ao crescimento do PIB no futuro.

O erro de política monetária da Reserva Federal dos EUA (FED) em 2017, sob a gestão de Janet Yellen, de manter a política monetária demasiado expansionista apesar da forte valorização do mercado bolsista dos EUA, suportou artificialmente o mercado, aumentando a duração do ciclo de ganhos.

Esperemos que o seu sucessor Jay Powell tenha paciência e não cometa o mesmo erro em sentido contrário, ao defender uma política monetária desnecessariamente restritiva apesar da queda significativa dos preços das ações americanas, agravando o declive da descida do ciclo. E estragando o efeito riqueza de Trump...