&conomia à 5ª

Os limites da retoma sem investimento

30 maio 2019 9:58

30 maio 2019 9:58

Uma das mais interessantes regularidades empíricas da macroeconomia, que se verifica em muitas economias e em diferentes momentos, é a relação inversa entre a taxa de investimento e a taxa de desemprego. Em geral, o aumento da taxa de investimento (o rácio entre o investimento e o produto) está associado à redução da taxa de desemprego, enquanto a redução da primeira está associada ao aumento da segunda.

A figura em baixo ilustra bem a força desta relação no caso português nos últimos trinta e cinco anos, entre 1983 e 2018. Sem exceção, os períodos de crescimento do desemprego em Portugal foram sempre períodos de redução da taxa de investimento, enquanto os períodos de redução do desemprego foram sempre períodos em que aumentou significativamente a parte da riqueza nacional que as empresas ou o estado afetaram à formação de capital.

FONTE: PORDATA

FONTE: PORDATA

A existência desta relação não é em si mesma supreendente: faz sentido que o aumento da despesa com novos equipamentos e instalações se faça acompanhar pela contratação de trabalhadores adicionais. O que é notável é que a relação seja empiricamente tão forte, ao ponto das duas séries na figura em cima quase parecerem o espelho uma da outra.

O espelho uma da outra, isto é, até aos anos mais recentes. A partir de 2013, o ano em que a taxa de desemprego em Portugal atingiu o seu máximo de todos os tempos (16%), a relação entre estas duas variáveis, não chegando a desaparecer, tornou-se muito mais fraca. Enquanto a taxa de desemprego teve uma queda impressionante entre 2013 e 2018 (de 16% para 7%), a taxa de investimento teve apenas uma recuperação bastante ténue (de 15% para 17%), aliás quase toda concentrada em 2017 e 2018.

Esta figura ilustra assim o que tem sido por vezes designado como o ‘mistério da retoma sem investimento’ que tem caracterizado a economia portuguesa nos últimos anos e que se deve ao facto da muito forte criação de emprego (uma excelente notícia) ter estado nos últimos anos muito concentrada em sectores de baixa produtividade, fazendo-se acompanhar por escasso ou inexistente investimento (uma má notícia). É também isso o que explica que a produtividade em Portugal esteja em queda desde 2014, questão a que me referi aqui há algumas semanas: quando o emprego cresce mais do que o produto, a produtividade, que corresponde ao rácio entre essas duas variáveis, diminui.

É por isso especialmente preocupante que os níveis de investimento da economia portuguesa estejam tão em baixo. Mesmo com a ligeira recuperação dos últimos dois anos, as taxas de investimento abaixo de 20% dos últimos anos comparam muito desfavoravelmente com os mais de 25% que quase sempre se observavam até à viragem do século. Nestas condições, torna-se difícil ou impossível assegurar a reposição e expansão do stock de capital e a modernização e qualificação da estrutura produtiva.

Uma parte importante desta queda do investimento deve-se diretamente a opções políticas: a parte que corresponde ao investimento público teve uma queda especialmente forte na última década, apresenta o nível mais baixo de todas as economias avançadas e a sua queda não foi invertida, mas antes acentuada, pelo governo atual.

Isso é especialmente preocupante numa altura em que precisamos de muito mais, não menos, investimento público para apoiar a reconversão da estrutura produtiva num sentido que concilie a criação de emprego qualificado para todos e a descarbonização da economia. Será esse o grande desafio dos próximos anos e não se fará sem enfrentar a ortodoxia orçamental de que o Ministro Mário Centeno é hoje um dos principais patronos.