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Expresso

A razão dos “coletes amarelos”

É certo que o movimento dos “coletes amarelos” conta entre os seus líderes e participantes com muitos elementos da União Nacional, o partido de extrema-direita dirigido por Marine Le Pen. É igualmente verdade que a causa próxima não é necessariamente a mais progressista: um mundo sem impostos é um mundo sem serviços públicos e sem redistribuição, e foi precisamente em revolta contra os impostos que nos EUA emergiu o movimento populista reacionário (“TEA Party”, de “Taxed Enough Already”) que nos últimos anos esteve na origem da mutação gradual do Partido Republicano e culminou na eleição de Trump.

No entanto, é um erro desconsiderar a legitimidade popular das reivindicações e ressentimentos que subjazem a estes protestos. Se a intenção de aumentar o imposto sobre o gasóleo foi apresentada por Emmanuel Macron e pelo seu governo com uma justificação ambientalista, é preciso ter em conta a forma como o seu custo se iria distribuir pela sociedade e principalmente o facto de se somar a um conjunto de medidas, a nível fiscal, orçamental e da segurança social, que desde a eleição de Macron beneficiaram fortemente os ultra-ricos e penalizaram sobretudo os mais pobres. Macron tem feito juz ao cognome de “Presidente dos ricos” com que foi apelidado ainda antes de iniciar o mandato, pelo que a atual revolta das classes populares em França não é apenas contra o imposto sobre o gasóleo, mas de uma forma mais fundamental contra o caráter injusto de uma política que favorece os mais ricos, as grandes empresas e as elites.

É por isso que este não é um mero movimento reacionário mas uma revolta popular legítima, que se for abandonada pela esquerda cairá diretamente nos braços da extrema-direita, aumentando fortemente a probabilidade de concretização da funesta profecia “Macron 2017, Le Pen 2022”. É por isso, também, que as tentativas de transposição para o caso português fazem pouco sentido, independentemente da relação quantitativa entre o preço do gasóleo e o montante do salário mínimo num e noutro país: é que o momento político em Portugal nos últimos anos é de reforço de direitos e rendimentos e de redução da desigualdade, não o seu contrário, ainda que esse reforço e essa redução não sejam tão rápidos ou abrangentes como seria desejável.

É significativo da capacidade de pressão que a ação popular de massas pode ter que o bonapartista Macron se tenha visto obrigado a renunciar à intransigência e a oferecer um conjunto de concessões que, apesar de limitadas e algo enganadoras, vão já para além do recuo no imposto sobre o gasóleo. Não sabemos onde este processo irá levar, mas pode alterar significativamente o contexto político não só em França como na Europa: os 10 mil milhões de euros de despesa adicional que este conjunto inicial de cedências deverá implicar deverão fazer o défice orçamental francês do próximo ano exceder largamente os 3% das regras europeias, minando a capacidade da Comissão impor o seu espartilho normativo a países como a Itália ou, já agora, Portugal. É irónico que este desenvolvimento surja no horizonte dias depois do anúncio pelo Eurogrupo de uma nova reforma da zona euro que é tão insignificante que já ninguém se lembra do seu conteúdo. Mais do que das decisões tecnocráticas, é da força das reivindicações populares que podemos esperar mudanças.