&conomia à 2ª

Dependentes e vulneráveis

23 março 2020 8:06

23 março 2020 8:06

Um vírus, um vírus que se começou a propagar lá longe na China, a partir de Wuhan, chegou ao mundo interligado e globalizado. Todo. Não há lugar, dinheiro ou contactos que nos livrem da covid-19. Não há invulnerabilidades certas e garantidas.
Somos, de facto, todos dependentes. Uns dos outros. Para comer, para ter acesso a medicamentos, para cortar o cabelo, para ter luz e água, para ler um jornal, para vestir, para viajar, com ou sem combustível, para um sem fim de situações da vida de todos os dias. É a economia conforme a conhecemos. De consumo. É verdade. Mas que existe e a que nos habituámos a tomar por garantida. E chegados aqui? O que podemos fazer?

Como podemos viver atrás de portas trancadas? Como podemos viver sem tantos sectores fundamenaais?

Não sei. Desculpem, mas não sei. Acho que ninguém estava preparado para isto, tirando aqueles que todos os dias aguardam o fim dos tempos. Não vem nos manuais. De economia ou de liderança. Não vinha certamente nos cálculos dos sistemas nacionais de Saúde ou dos Orçamentos de Estado. Não há recursos para todos ao mesmo tempo, para picos brutais de procura de cuidados de saúde de emergência. Dá que pensar. E deve fazer-nos reflectir no futuro.

Estamos mesmo dependentes. Até da China, pois onde se fabricam a maioria dos ventiladores e das máscaras? E por mais muros que existam ou tentem construir, também percebemos que os extremismos, que crescem pelo mundo fora, estão também completamente aos papéis. Todavia, não é apenas a estupidez de Trump ou Bolsonaro. Também por cá, muitos Deputados, de Esquerda, mormente do Bloco de Esquerda, procuram fazer um ajuste de contas com os privados. Errados.

Estão ao nível de Trump e Bolsonaro, mas do outro lado do espectro político. Também não entendem nada do que se está a passar, não foi há muito que comparam a pandemia global à crise climática. Os privados são, também nesta fase, parceiros do Público. Parceiros. Que procuram ajudar, vejam o exemplo da CUF. Isto é grande demais para nacionalizações à moda do PREC e afloramentos marxistas tardios.

É tempo dos moderados, dos pragmáticos e realistas se voltarem a afirmar. Estes extremismos, de esquerda e de direita não servem, não dão bons frutos. São facciosos e não conseguem moderar e ponderar, sem tudo ver com os óculos da ideologia. Isto não está para ideologias cegas, para dogmatismos enquistados. Isto está para ponderação e liderança de facto, com os olhos postos nas pessoas, nos cidadãos, no bem-estar da nossa comunidade. Nada vai ficar igual, mas a Democracia vai ter de resistir. Se vai. Não nos roubam o sonho de viver em liberdade. Ninguém o pode fazer, por isso há que perseverar.

Somos dependentes uns dos outros, mas não dependemos da estupidez de muitos actores políticos por aí andam, com tochas à procura de incendiar o barril de ódio nas redes sociais.

Somos dependentes e vulneráveis, pois um vírus de pequeno tamanho faz tremer as estruturas humanas que pensávamos seguras e firmes. Temos que cuidar da saúde de todos, dos salários e das empresas. O que está falado não chega. É curto. As empresas não vão facturar para pagar salários. E não, não é uma crise do capitalismo. Precisamos de cuidar de tudo. De tudo. A tarefa é hercúlea, o desafio imenso. Não tenho dúvidas. Mas não é com ajustes de contas entre público e privado, com desvalorizações ou acusações que lá vamos. Vamos com informação, realismo e transparência. Dependentes uns dos outros, com uns a trabalharem e outros resguardados (os que pela sua condição física não podem senão isolar-se para não perecer), mas a procurar soluções entre todos e para o bem de todos. Até nas vacinas, até na cura dependemos uns dos outros. E essa partilha é fundamental. Cá estamos no mesmo mundo. Não temos outro para ir, o navio é partilhado, a tormenta grande, mas, como já no passado mostrámos, conseguiremos chegar a bom porto. Assim espero.