&conomia à 2ª

Os lucros da Banca

2 março 2020 8:04

2 março 2020 8:04

Notificação noticiosa recebida: “Bancos lucram 2,4 milhões de euros por dia em 2019.”

Está lançado o número. Não discuto a pertinência jornalística, que a notícia tem, mas a lógica de discussão que se lhe segue. Os rótulos populares surgem logo. A Banca a ganhar e o povo a chorar.

Sei bem que este é um pensamento muito generalizado e enraizado na nossa população ou não fosse parte do montante do resgate dedicado ao sistema bancário português, que ainda não está completamente desligado da máquina. Mas também sei que é potenciado e incitado por uma certa esquerda que faz do ódio ao lucro e à Banca forma de vida e de fazer política.

Vamos lá dizer o óbvio. Infelizmente este país tem a maior das dificuldades no óbvio.

Uma pessoa, um investidor, um accionista abre um negócio para quê? Para ter lucros. E para enriquecer. É assim. E deve ser assim, excepto se sairmos de economias de mercado capitalistas e entrarmos em economias socialistas de direcção central.

Ora um negócio de um Banco Comercial passa por vários negócios. Do depósito bancário ao empréstimo, do apoio ao investimento, passando pelo aconselhamento financeiro, sem interesses conflituantes. Cobram comissões? Cobram. Cobram por emprestar dinheiro? Cobram. É o negócio da banca. Que ajuda cada pessoa que entra num balcão a pensar em comprar a sua casa, o seu automóvel, a ter liquidez para investir, a comprar e vender acções, a investir em fundos ou similares, a participar em operações financeiras com maior ou menor complexidade, desde que o risco esteja perfeitamente claro e seja percebido por quem investe.

Ora se a Banca faz isto tudo, e não é pouco, não deve ser paga pelos serviços que presta? Como pode existir sistema bancário sem que exista cobrança pela prestação de serviços bancários?

É que a isto juntamos os impostos que a Banca paga. A Banca paga IRC. Falamos de 7 a 8% da receita gerada por este imposto, continuando a existir os créditos fiscais acumulados pelos prejuízos dos últimos anos.

Podemos discutir se é pouco ou se é muito. Mas não podemos discutir, nem olhar para a Banca como uma entidade de caridade, do sector social ou entidade de microcrédito para o desenvolvimento. Caridade, leu bem.

Bem sei que há abusos e que a reputação formada nos últimos anos não abona a favor dos gestores bancários e banqueiros da nossa praça. Bem sei que temos casos de justiça muito graves. Bem sei que nós contribuintes somos chamados a pagar as facturas desses abusos e erros. Todavia, também sei que sem a Banca este país seria ainda pior do que é. Estaria ainda mais atrasado do que está. E as pessoas viveriam bem pior do que já vivem.

Por isso quando ouvirem um político falar com falso moralismo dos lucros da Banca podemos também perceber que é um daqueles políticos que querem e vêm um mundo a preto e branco. Ou seja, todos pobres, todos sem visão, todos sem alternativa que não viver do que cai da mão “benemérita” do Estado. Desconfiem. Quem faz do combate ao lucro forma de estar, não quer o nosso bem. Quer apenas o mal dos outros e a dependência dos outros. Uma questão é saber se devemos ou não taxar mais, outra é odiar quem trabalha para ter lucro. Devemos também exigir mais dos reguladores e do Ministério Público, há vários anos adormecido e, após um breve despertar, para o sono profundo o querem reencaminhar, que viveram bem assobiando para o lado dos abusos que, à boca pequena e em circuito fechado, se iam falando e, por vezes, noticiando.

Sim, a Banca faz falta e com lucros, caso contrário quem a paga? Se não for pedir muito, os contribuintes agradecem a quem “guarda” que não durma, inconsciente ou conscientemente, no posto…