&conomia à 2ª

Podemos viver “offline”

3 fevereiro 2020 8:25

3 fevereiro 2020 8:25

Andamos de um lado para o outro. Hoje temos acesso a informação ao segundo, quase instantânea. Basta um telefone “inteligente” e um qualquer acesso Wi-Fi. Basta ter acesso à rede de dados. Há trabalhos novos que se fizeram apenas com o aparelho de telecomunicações (computador em ponto pequeno) que usamos no bolso. Vivem para e disso. São profissões de futuro, mas cada vez mais actuais. Que impactam com a nossa formação, com a nossa forma de estar e como nos organizamos em sociedade.

Mas será que este acesso a mais informação nos está a tornar uma sociedade mais conhecedora? Uma sociedade do conhecimento mais inteligente? Mais exigente?

Não sei. Não tenho uma resposta cheia de certezas. Tenho a percepção que nos abriu os olhos. Que tornou cada pessoa num veículo de comunicação por vezes uma viral correia de transmissão. Hoje a transparência é maior. Hoje tudo se sabe com uma velocidade maior. Mas estamos vulneráveis e dependentes. Muito mais permeáveis ao conspirativo e mal comprovado.

Nesta grande rede mundial, pontuada de redes sociais, aparecem-nos as fake news. Lá aparece a sabotagem comercial. Podemos, nos dias de hoje, na óptica de uma empresa que venda serviços, chegar a mais consumidores em todo o mundo do que antes era possível. Mas também as empresas, os Estados e os cidadãos são mais susceptíveis de ataques informáticos, de danos de vária ordem nomeadamente reputacionais. Se surgir um boato por determinado produto que se venda, como pode alguém responder, no imediato, a esse enorme prejuízo?

Ao nível laboral temos a recorrente questão da gestão e-mail e a pressão da resposta o mais imediata possível, independentemente da hora do dia ou da noite, o que coloca desafios enormes à organização da vida laboral, da vida pessoal e à maneira como nos organizamos como comunidade.

Por isso o título deste artigo. Podemos viver offline? Ficar desligados da rede? Se vivêssemos não estariam aqui a ler estas palavras.

Não, não podemos viver verdadeiramente offline.

Hoje estamos dependentes do mundo online. Em tudo. Para tudo. Poucos são os que conseguem viver offline, fora do mundo digital. Sem acesso à internet. É quase inescapável cortar o cordão que nos prende ao sistema, qual Matrix, do acesso às contas bancárias de cada um, até à forma como comunicamos uns com os outros. Enviamos mensagens via Whatsapp. Partilhamos o que fazemos, o que gostamos e o que não nos agrada no Facebook e no Instagram. Estamos sempre ligados. Queremos saber as últimas novidades, queremos consumir o que está no último grito da moda. Queremos é a palavra-chave. Queremos tudo e a uma rapidez avassaladora.

Tudo isto está a transformar a nossa sociedade. Diria que ainda mais do que a revolução industrial. Aqui não é só a força laboral que está em questão. É a própria essência da pessoa, as relações e as formas de interacção pessoal. A propósito, tive oportunidade de ouvir Judite de Sousa no almoço do International Club of Portugal, sempre bem organizado por Manuel Ramalho, que nos desafiou para muitas destas questões.

Não podemos, empresas, instituições, pessoas, decisores políticos, assobiar para o lado ou fingir que não está nada a acontecer, que os alicerces da nossa construção não estão a mudar.

Passou mais ou menos despercebida, voando pelo nosso feed de notícias, a notícia de que na Rússia se fizerem testes para a operação de uma rede de internet com ligação global, mas com controlo do seu funcionamento ao nível nacional. Própria. Passível de ser desligada por intervenção do Estado russo. E pelos relatos afirmam que estão prontos para qualquer risco ou ataque terrorista. Pois. Igual só na Coreia do Norte, China, Irão e mais alguns sítios onde as liberdades individuais não são conceitos práticos, antes ideias de democracias liberais.

Toda esta realidade complexa leva-nos a reflectir sobre a vital temática da cibersegurança, não só pela forma como a nossa legislação existe e está, ou não, adaptada para o mundo online, mas também pela nossa inegável dependência total da rede.

Estamos ligados, mas estamos frágeis, por isso é bom que cada pessoa perceba que existe mais vida para lá do ecrã ou do monitor de um qualquer engenho informático desenhado para nos “agarrar”.