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Expresso

As greves retroativas

Greves retroativas, este novo conceito devia ser registado com direitos de autor. Ficámos, há muito pouco tempo, a saber o seu significado. As greves, nos tempos que correm, são, segundo o primeiro-ministro António Costa, culpa exclusiva, presumimos, do anterior Governo. Está certo, ou não fosse este o tempo novo, em que se viraram páginas à austeridade. Como sempre fomos um país um pouco atrasado, é normal este pequeno desfasamento, qual delay da televisão face ao relato do futebol na rádio.

Mas relembremos alguns protestos. Só alguns pequenos pontos de contestação e reclamação laboral e salarial.

Os enfermeiros estão em luta e reclamam melhores remunerações e uma carreira mais digna? Culpa do Governo anterior.

Os professores querem ver reconhecido todo o tempo de serviço, os já famosos 9 Anos, 4 Meses, 2 Dias? Culpa do Governo anterior.

Os polícias reclamam melhores condições de trabalho e a recuperação do tempo congelado? Culpa do Governo anterior.

Os guardas prisionais pedem mudanças nos horários, nas carreiras e nos salários? Culpa do Governo anterior.

Existem problemas na ADSE com os prestadores privados de saúde? Culpa do Governo anterior.

Os bombeiros voluntários estão contra a proposta de criação de um comando unificado com a Proteção Civil? Culpa do Governo anterior.

Os estivadores no porto de Setúbal paralisaram o tráfego a pedir vínculo contratual estável? Culpa do Governo anterior.

Os comboios são suprimidos? Os motores dos comboios caem nas estações, os rodados são usados até ao limite? Culpa? Só se for do Governo anterior.

Até os trabalhadores dos Serviços de Assistência Médico Social, ou seja, funcionários do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SIBSI), fizeram greve à liderança do SIBSI. E de quem é a culpa? Pois, claro, já adivinhou… Culpa do Governo anterior.

Claro que os quatro Orçamentos do Estado já aprovados por este Governo e pela atual maioria parlamentar que apoia esta solução governativa, apenas serviram para uma boa fotografia de António Costa e Pedro Nuno Santos a apontar para os quatro dedos.

Todavia, todos estes exemplos, poucos do total que todos temos visto e sentido, fazem-me recordar uma história que já ouvi algumas vezes. A história da sucessão governativa e das três cartas.

Um Presidente, em fim de mandato e com saída já estipulada deixa na sua secretária, para o sucessor, três cartas. E disse ao sucessor: “Na primeira crise, abra a primeira carta. Na segunda crise, a segunda carta. E na terceira, a terceira carta”.

O novo Presidente guardou as cartas por simpatia e curiosidade. E lá apareceu a primeira crise e no meio da crise recordou-se das tais cartas. Abriu a primeira: “Coloque a culpa toda nos Governos anteriores”. Assim fez. Mas, claro, lá apareceu a segunda crise e voltou a abrir a segunda carta e leu: “Faça uma reforma ministerial e transfira as responsabilidades para os seus ministros”. E novamente seguiu o conselho deixado pelo seu antecessor. Eis que, entretanto, veio a terceira crise e a terceira carta também foi aberta. E o que dizia? “Agora, escreva três cartas e deixe-as ao seu sucessor”.

Fica a fábula para reflexão.