Opinião sem cerimónia

Governo troca renovação da linha do Norte pelo maldito TGV

Duarte Marques

Duarte Marques

Ex-deputado do PSD

27 outubro 2020 8:18

O estranho desaparecimento da renovação da linha do Norte do PNI2030

27 outubro 2020 8:18

A linha do Norte é o principal eixo ferroviário do país e a principal porta de entrada para o movimento pendular de portugueses que diariamente entram em Lisboa, com especial significado para aqueles que de Tomar, Entroncamento, Santarém, Azambuja ou Vila Franca se deslocam para trabalhar na capital e regressam a casa no final do dia. Apesar disto, é das linhas que se encontram em pior estado de conservação, que tem os seus investimentos adiados há mais anos e que tem certos pontos de passagem que são verdadeiros perigos para os passageiros e para as populações que dormem literalmente a escassos metros da degradada linha de comboio como são os casos do Vale e da Ribeira de Santarém, entre outros.

É por isso bastante estranho que a remodelação desta via que era uma prioridade na proposta de Plano Nacional de Investimentos 2030 (PNI) apresentado a 12 de janeiro de 2019 se tenha sumido da versão que foi conhecida na semana passada. Nesse modelo, a proposta do Governo assentava na construção modelar de um conjunto de novas variantes à linha do Norte que, à medida que cada uma entrasse em funcionamento, iriam permitir reduzir o tempo de percurso entre Porto e Lisboa e atingir velocidades de 250 km/h. Como na altura escreveu o principal jornalista em matéria de ferrovia, Carlos Cipriano do Público “parecem remendos. E são” mas é mais barato e eficaz do que fazer toda uma nova linha de Alta Velocidade. Na altura a previsão do PNI2030 para o custo dessa solução eram 1500 milhões de euros. Era um compromisso sustentável entre garantir mais velocidade na linha do Norte e renovar e garantir maior segurança aos restantes comboios que utilizam a principal linha ferroviária do país. Uma dessas variantes estava prevista para Santarém e permitia reduzir drasticamente as ameaças à segurança das pessoas (e até das famosas e recorrentes derrocadas das barreiras de Santarém) e o tempo de comboio entre Santarém e o Entroncamento.

A versão que o Governo agora apresenta é fazer toda uma nova linha de Alta Velocidade que fica, à partida, porque com socialistas a derrapagem de preços é sempre enorme, por 5 mil milhões de euros e literalmente borrifam-se para atual linha do Norte. Não tenho nada contra a linha de Alta Velocidade desde que isso não signifique adiar os investimentos na linha do Norte que, em termos de tráfego, até pode beneficiar da mudança dos comboios rápidos para outra linha.

Ou seja, a renovação desta linha que, como outras, foi sendo adiada por causa do sonho do TGV que saiu dos nossos bolsos, mas que nunca saiu do papel, voltanão pode voltar agora a ser mais uma vez adiada pela construção da linha de alta velocidade.

Não deixa de ser curioso que enquanto não havia financiamento europeu evidente para esta obra, a renovação da linha do Norte constou sempre das várias versões do PNI2030 e até do seu antecessor o PETI. Mas agora que há uma “Bazuca europeia” que o permite, sem falar num novo Quadro Comunitário que à partida não impede este tipo de investimentos, a malfadada renovação da linha do Norte volta a sair do Plano de Investimentos e ficará, segundo o Governo, para as calendas. Fica a clara sensação que para o Governo o modelo anunciado em 2019 não passou de propaganda eleitoral pois agora que até há dinheiro possível para esse investimento o Governo decide retirá-lo do plano.

Parece que, graças à desgraça do Covid19, somos afinal um país rico e em vez de fazer um investimento de 1.5 mil milhões de euros que resolvia a falta de velocidade da ligação Porto-Lisboa e os problemas de segurança atuais, vamos é fazer uma linha toda nova para ter o nosso TGV. Faz-me lembrar aquele individuo que pede dinheiro emprestado ao pai para dar entrada para comprar uma casa e quando se vê com todo esse dinheiro na mão opta por comprar um carro desportivo e fazer umas férias, mas depois vai viver para o anexo da casa dos sogros.

A juntar a isto, não posso ignorar a ausência da conclusão do IC3 do mesmo PNI2030, solução que iria permitir resolver o problema do híper congestionamento dos acessos ao EcoParque da Chamusca que recebe diariamente centenas de camiões com os resíduos mias perigosos do país, que passam ou pelo centro da Chamusca (onde além de um pesado não cabe nem sequer mais uma bicicleta ou uma pessoa a pé) ou pela decrépita ponte da Chamusca (onde só passa um veiculo de cada vez) provocando filas diárias até ao centro da Chamusca ou mesmo da Golegã. Recordo que tudo isto ocorre com veículos carregados dos mais perigosos resíduos do país onde agora se acrescenta todo o amianto retirado das escolas e os 36 camiões pesados diários que trazem até ao EcoParque as 800 mil toneladas de resíduos perigosos de São Pedro da Cova. Não resolver este assunto é uma tremenda falta de respeito e consideração pela população da Chamusca que aceitou receber, sem contestação, no seu concelho os dois CIRVER (estações de tratamento de resíduos perigosos) bem como para com as pessoas da Golegã, Alpiarça ou Almeirim que vêm a sua saúde e o seu bem-estar ameaçados por toda esta logística.

A versão atual do PNI2030 parece tratar-se de mais um plano de propaganda que em vez de preparar o país para o futuro opta por preparar o ano eleitoral autárquico que aí vem.

Texto reeditado pelo autor a 30/10, acrescentando a seguinte frase: "Não tenho nada contra a linha de Alta Velocidade desde que isso não signifique adiar os investimentos na linha do Norte que, em termos de tráfego, até pode beneficiar da mudança dos comboios rápidos para outra linha".