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Expresso

O futebol não pode ser um offshore da justiça

18.02.2020 às 8h36

O episódio Marega é, infelizmente, apenas mais um numa cadeia de incidentes que deveriam merecer mais atenção, mais pulso firme e mais decisões sobre o que se passa no mundo do futebol. O jogador do FC Porto não é a primeira vítima de racismo no futebol português, é sim o primeiro a pedir para sair de campo e a reagir às provocações. Infelizmente o episódio não ocorreu apenas com alguns adeptos do Vitória, já ocorreu com adeptos do meu clube, com adeptos do próprio FC Porto, do Sporting, do Rio Ave, do Braga etc, etc, e até com o ex-Secretário Geral da CGTP que chamou “negrinho” ao chefe do FMI. Também só por racismo, e alguma estupidez, alguns dos agora indignados puseram tantas vezes em causa a idade de Renato Sanches sem esquecer as bocas ao Mantorras que diziam estar lesionado pois “já vinha velho de África”.

O problema é que fomos demasiadas vezes complacentes quando o racismo vinha da nossa bancada ou do camarada ao nosso lado. Entre os que chamaram macaco ao Marega estarão muitos que lhe beijaram os pés sempre que marcou pelo Vitória. Entre os que por vezes insultaram o Renato, o Mantorras, o Quaresma ou o Nélson Semedo estão adeptos que idolatram os grandes Eusébio, Coluna ou Jordão. Alguns nem têm noção do que fazem e fazem-no até por estupidez ou ignorância. Mas não deixa de ser racismo e isso não pode ser tolerado, mas sim combatido.

O que também em nada tem ajudado a luta anti-racista é o comportamento irresponsável e radical de alguns activistas e partidos que vêem racismo em todo o lado. Um comportamento que só alimenta os Venturas da vida que não vêem racismo em lado nenhum. A exemplo disso recordo, com alguma tristeza, que na recente discussão sobre as quotas nas universidades para minorias étnicas ou raciais este paradoxo veio claramente ao de cima: na boca dos radicais anti-racistas quem era a favor era bom, quem era contra era racista. Para a extrema-direita a solução mais simples era “vão estudar para o vosso país.” Não havia espaço para dúvida ou argumento. Entre tudo isto temos activistas, políticos, académicos, cidadãos normais que querem olhar para estes casos de forma não maniqueísta, que querem separar o trigo do joio e reduzir ao máximo a discriminação, o racismo e a xenofobia.

O caso Marega, felizmente ou não, não deixa dúvidas, todos assistimos, todos vimos e todos verificamos que os apupos de que foi alvo são atos, conscientes ou não, de racismo. O lado bom, se é que é possível haver um lado positivo nesta vergonha, é a reação quase unânime dos portugueses, dos partidos, dos clubes e da própria sociedade. As exceções a esta reação são a linha vermelha que não podemos ignorar.

Ao contrário do que muitos fazem crer, ou nos tentam impor Portugal não é um país racista. Não há racismo estrutural. Mas não podemos é ignorar que há racismo em Portugal e nem que fosse apenas um racista entre 10 milhões já era um racista a mais. E todos sabemos que infelizmente são bem mais do que isso.

O problema em Portugal, e não é apenas com o racismo que isso acontece, é que demasiadas autoridades, comentadores e políticos têm medo de afrontar o futebol, são submissos aos clubes e deslumbram-se com facilidade quando envolvidos na teia mediática do desporto rei. Não é apenas na questão do racismo, é na violência física e verbal, é na destruição de bens privados e públicos e até nas máfias que se envolvem nos clubes e nas suas claques. Num país com tantos atos de violência no futebol, em que claques conseguem introduzir materiais perigosos e proibidos nos recintos, onde são recorrentes as agressões de adeptos a rivais de outros clubes e a polícias, não se percebe como é possível que desde 2017 tenha havido apenas “seis multas e três admoestações desde que a nova lei de combate à discriminação racial e étnica” como escrevia o Luciano Alvarez ontem no "Público".

De rir, se não for para chorar, é depois escalpelizar os exemplos reportados: duas jogadoras de futebol feminino, um adepto do Castelense que insultou um jogador da Associação Desportiva de Ponte da Barca, um adepto do jogo entre o FC Infesta e a União Desportiva Lavrense, uma multa de 500 euros ao Rio Ave. O SC Braga foi condenado por insultos dos adeptos, mas foi depois absolvido. Ou seja, só há meia dúzia de condenados em campos onde nem sequer há videovigilância nem transmissão televisiva. Nos grandes estádios nada se passou. Isto é gozar com o povo e ignorar olimpicamente a legislação. Se a PSP não tem meios suficientes, a sua direção que o diga publicamente. Se a legislação não é suficiente os juízes que o digam.

A verdade é que o futebol é uma espécie de offshore onde parece que as leis comuns não se aplicam. Não são assim tão raras as vezes que um juiz perdoa um crime de agressão devido “ao contexto do jogo” ou pela “tensão criada pela disputa entre os clubes” sem esquecer a histórica “rivalidade entre equipas” que tudo justifica. Ao contrário do que alguns vieram hoje dizer, não é preciso mudar mais leis, basta aplicar as que temos.

Como aqui escrevi há uns tempos, raros são os líderes de clubes disponíveis para este combate. É imperioso não os deixar sozinhos.

Ao Governo pede-se coragem e meios, basta de conversa fiada e de lágrimas de crocodilo. Aos dirigentes da Liga e da Federação exige-se ação, mais coragem independência dos clubes que os elegeram. Aos partidos políticos exige-se menos promiscuidade com os clubes e sobretudo responsabilidade no apoio às autoridades para cumprirem o seu dever.