Ida de Centeno para o Banco de Portugal cheira a esturro
11.02.2020 às 8h24
Se a anunciada mudança de Mário Centeno do Governo para o Banco de Portugal se vier a concretizar, pode confirmar uma estratégia de ocultação da realidade e uma manipulação sem precedentes das expectativas dos portugueses. Apesar dos fretes consecutivos de Vítor Constâncio, nem Sócrates foi tão longe ao ponto de enviar Teixeira dos Santos para liderar o principal regulador do sector financeiro. A ida de Mário Centeno para o Banco de Portugal só pode revelar que existe receio e medo além de que essa pode ser uma medida de precaução para que, nos próximos tempos, ninguém desminta a narrativa que andou a ser “vendida” aos portugueses e às instituições internacionais.
Calculo que por motivos diferentes, a mudança de Centeno para o Banco de Portugal agrada tanto ao primeiro-ministro como aos seus colegas ministros, estes porque se livram da arrogância e das limitações impostas por Centeno e António Costa porque garante assim total cobertura no mais importante dos reguladores.
As recentes contradições entre o discurso do ministro das Finanças de Portugal e o Eurogrupo, entre as quais a desconfiança das metas do OE português, podem revelar que Mário Centeno não é afinal o “exemplo” que os colegas julgavam ou então que as contas portuguesas não são assim tão fiáveis como o próprio anuncia.
Por outro lado, não deixa de ser estranho que o passo seguinte na carreira de um ministro das Finanças que chega a Presidente do Eurogrupo seja precisamente liderar o regulador do seu próprio país. O currículo académico de Centeno, apesar de contrariado pelo próprio na ação política, e o facto de liderar o Eurogrupo garantir-lhe-iam com facilidade a sua escolha quer para o Fundo Monetário Internacional, para o Banco Central Europeu ou para o Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira. É também por isso que desconfio da sua ida para o BdP.
Ou afinal a credibilidade que diz ter lá fora não é assim tão grande, ou por razões que desconhecemos a renovação do mandato do Eurogrupo não ia ser assim tão fácil (ou então é preciso ir para o Banco de Portugal garantir que os futuros relatórios não serão incómodos para o Governo socialista e muito menos para a herança do “Cristiano Ronaldo das Finanças”).
O Banco de Portugal já tem problemas que chegue, mas voltar a “politizar” a sua liderança é dar-lhe mais uma machadada. Se bem que os casos assumam dimensões diferentes, há um claro conflito de interesses. Ou será que seria bem aceite a ministra da Justiça autonomear-se Procuradora Geral da República? Ou o ministro da Economia nomear-se Presidente da Autoridade da Concorrência? Ou a ministra da Saúde autonomear-se líder da Autoridade Reguladora da Saúde?
É verdade que o Partido Socialista nunca se ralou muito com a independência dos principais reguladores, nomeando para o Banco de Portugal um ex-líder do PS como Vítor Constâncio ou mais recentemente uma eurodeputada para vice-presidente do BdP. Convém também não esquecer que não hesitaram em enviar um ex-ministro das Finanças para Presidente do Tribunal de Contas. Raramente há sequer período de nojo. Curiosamente, aos socialistas, tudo o povo perdoa.