O OE2020 da 3.ª ronda e o país real
14.01.2020 às 15h50
Bem sei que haverá coisas bem mais interessantes para fazer, mas sugiro que nos próximos dias assistam aos debates na especialidade do Orçamento do Estado para 2020. Depois, se ainda vos restar alguma paciência comparem com os programas eleitorais dos partidos e, se ainda não estiverem com os olhos a arder, revejam os debates dos orçamentos anteriores. Provavelmente não seguirão nenhuma destas minhas recomendações, mas acreditem no que vos digo: é um verdadeiro festival de falta de noção e esquecimento.
Estes debates têm três rondas, uma de 8 minutos, outra de 5 e depois sobram 2 minutos para todos os deputados que quiserem colocar questões. Os partidos da oposição (sobretudo o PSD e o CDS) passam as três rondas a reclamar e a queixarem-se que nada do que era prioritário está no OE2020. Por isso votaram e votarão contra. Com mais ou menos razão, há coerência entre o discurso e o voto.
Depois temos os deputados que viabilizaram o Orçamento: PS, PCP, BE e PAN. Nestas duas rondas, BE, PCP e PAN não diferem muito do discurso do PSD e CDS. Repetem as nossas críticas, algumas até de forma bem mais incisiva, usam uma retórica agressiva e acusam o Governo de “ceder aos grandes interesses”, relativizam o “milagre orçamental” e acusam o PS de “manipulação da realidade” e de “esquecer as pessoas”. Para quem estiver mais desatento, pode até ficar com a ideia que o Orçamento do Estado para 2020 não teria sido aprovado na generalidade e viabilizado por estes partidos. Baralhados? Não, é mesmo um verdadeiro exercício de demagogia e teatro.
Se assistirem à terceira ronda é que ficam ainda mais baralhados. Aí torna-se muito mais difícil distinguir os deputados entre os diferentes partidos, a não ser pelo lugar em que estão sentados (o que agora com algumas misturas nas filas do hemiciclo fica ainda mais complicado), pois além dos eleitos do PSD, do CDS, do PAN, do BE e do PCP, agora também os do Partido Socialista têm muitas queixas a fazer em relação ao OE2020, sobretudo obras que ficam por fazer nas suas regiões ou problemas que ficaram por resolver. É matemático, 90% das intervenções do Partido Socialista começam com rasgados elogios ao ministro em causa, mas terminam sempre com os lamentos do costume e com voz mais grossa (que fica sempre bem nos vídeos publicados nas redes sociais) a exigir a ponte, a estrada, a ligação, o centro de saúde, o hospital, a barragem, as portagens… tudo aquilo que tão afincadamente andaram a vender durante a campanha eleitoral e que ao longo de 5 anos têm defendido mas ficou mais uma vez fora do Orçamento. Este expediente serve para substituir o antigo PIDAC documento que “acomodava” todas as pequenas obras que faziam as delícias inocentes dos jornais locais e regionais. Esta terceira ronda é o derradeiro golpe de teatro que permite enganar os eleitores e fazer de conta que os assuntos são uma preocupação.
BE, PCP, PS e o PAN na verdade gritam muito, mas no final rendem-se às ordens de Centeno e trocam o seu voto por um prato de lentilhas. Todo este teatro serve apenas para lavarem a alma e enganarem os seus eleitores. Depois ajoelham-se e aprovam o Orçamento contrariando muito do que disseram e juraram desde a sua criação.