Centeno: de Ronaldo a Armstrong das Finanças
31.12.2019 às 9h11
Os últimos dados económicos revelam que o "herói" Mário Centeno conseguiu um excedente orçamental. Ou seja, pela primeira vez, tudo indica que Portugal arrecadou mais impostos do que gastou. À primeira vista parece ser uma excelente notícia, parece que temos contas sãs e um País bem gerido. Como em qualquer família portuguesa, os pais preocupam-se em garantir que o salário chega para pagar a casa, comprar comida e roupa e que nada falte nos estudos dos filhos.
Ora, qualquer pai que consiga tudo isto e mesmo assim garanta uma poupança para prevenir imprevistos futuros é, nos dias de hoje, um exemplo-vivo de um Ronaldo da família.
Da mesma forma, se um empresário pagar salários, impostos e bens e, ainda assim, garantir capacidade de investimento e um lucro significativo que assegure aumentos salariais acima da inflação estamos, também, perante um outro exemplo de um Ronaldo, desta vez um Ronaldo da gestão.
No entanto, o que dizer se este pai aforrar mas não pagar os manuais escolares dos filhos, ou se adiar as idas ao pediatra ou ao dentista, e se pagar a renda, sempre, com atraso? E se o mesmo pai caloteiro que se atrasa permanentemente a pagar a prestação da casa, decidir comprar um carro novo e viajar a crédito? Por outro lado, se um empresário não pagar a tempo e horas aos seus fornecedores e colaboradores, se se atrasar no pagamento de impostos e ao mesmo tempo investir uns milhares de euros na compra de um carro novo ou numas férias de luxo, será justamente apelidado de mau gestor, deslumbrado e irresponsável. De que serve a um empresário dizer que tem dinheiro na conta se deve mais do que isso a toda a gente?
Ora, se um ministro das Finanças apresentar excedente orçamental, mas ao mesmo tempo não pagar aos fornecedores, aumentar a dívida da saúde, atrasar os prazos de pagamento às empresas, não pagar o que deve aos municípios (como por exemplo os estágios PEPAL), não pagar a tempo às escolas e instituições de solidariedade, a tribunais e polícias, se obrigar reformados a esperar meses pelas suas reformas, se para obter esse resultado fragilizar a fiscalização de entidades como a APA, o ICNF ou até as Entidades Reguladoras impedindo-os de contratar pessoal, tal como acontece nos hospitais, nas escolas secundárias, universidades e politécnicos... Se tudo isto for verdade como tudo indica é, Centeno não é o Ronaldo das Finanças. É sim uma espécie de Armstrong, apanhado nas malhas do doping porque alcançou o sucesso com base na manipulação de dados, tomando suplementos (aqui representados por impostos), incumprindo obrigações e deixando dívida por pagar.
De que serve o excedente orçamental se não pagamos a tempo as nossas dívidas e se os serviços do Estado estão hoje pior do que no tempo da troika?