Siga-nos

Perfil

Expresso

Geoenergia

Chipre II: Gazprom joga para o xeque-mate total

Chipre soçobrou ao resgate da UE-FMI-BCE. O gás natural cipriota, metade das reservas do Levante, não foi, para já, considerado um ativo de rentabilidade rápida para a russa Gazprom, que se o fosse, permitiria um financiamento alternativo à taxação dos depósitos.

Mas qual a razão por detrás desta decisão de Vladimir Putin? A formação do preço do gás natural. Com a descoberta do gás de xisto nos EUA, e mais recentemente, da confirmação das gigantescas reservas de Moçambique, já estão enterrados os tempos em que a Gazprom ditava os preços no mercado global conforme queria e apetecia.

Agora já não é assim. Os EUA vão começar a exportar gás já em 2015 e Moçambique estará pronto em 2018. E em 2016-17 a Austrália também já se encontrará em elevada produção. E isto sem contar ainda com as recentes descobertas no Qatar e as potenciais (gás convencional e não-convencional) que se irão verificar um pouco por todo o globo na presente década.

Evitar uma over-extension do poder energético, para já

Por isso, o caso de Chipre representa, para já, uma "over-extension" geopolítica e financeira para a Gazprom. Além de constituir uma fonte de conflito com a Alemanha, conforme relatado nesta notícia do Expresso pelo Jorge Nascimento Rodrigues, a região cipriota já é de si complexa devido à disputa entre a Grécia e a Turquia sobre a soberania de uma parte da ilha.

Ademais, não existe qualquer tipo de infra-estrutura de liquefacção de gás, nem do seu transporte. E esses são investimentos gigantescos, que só darão frutos, quando muito, em 2020. São custos geopolíticos e financeiros muito consideráveis para adquirir no imediato uma posição de controlo com retorno ainda duvidoso.

No entretanto, a Rússia tem assuntos prementes para a manutenção do seu poder energético global, através da diversificação das suas exportações para a Ásia, nomeadamente por meio da construção do novo "pipeline" para a China.

Portanto, para já, a Rússia opta por estar com um pé dentro e outro fora de Chipre. Com efeito, Putin declarou hoje que o empréstimo de 2011 a Chipre será revisto e suavizado, mas não avançou muito mais no que se refere ao gás natural.

Todavia, não podemos nos esquecer que a energia para a Rússia é um pilar central da sua segurança nacional e da sua construção como nação. A Rússia dos Czares construiu o seu poder com petróleo, a URSS fez o mesmo (chegou a exportar mais do que a Arábia Saudita) e Putin reconstruiu o poder russo com base no gás natural, punindo e beneficiando Estados clientes como a Bielorússia e a Ucrânia. E mantendo a Europa (a Alemanha) dependente do seu fornecimento de gás.

Gazprom mesmo ali ao lado, em Israel

Mas a Rússia está perto de Chipre, a espreitar o que se passa, numa outra zona do tabuleiro do mediterrâneo oriental. A Gazprom já controla o campo Tamar no offshore israelita, um projecto de GNL que nasceu da parceria entre os EUA e Israel.

Com o tempo e o impasse político Grécia-Turquia, Chipre pode cair de maduro aos colos da Rússia, que, num extremar da crise, poderá conceder direitos de exploração com condições apetitosamente vantajosas à Gazprom. E de caminho, parte da Grécia também cairia no regaço, onde a empresa estatal russa também tem interesses na distribuição de gás natural. Seria uma forma de contornar a Turquia no transporte energético e de densificar a conectividade física da Rússia à Europa nesse domínio.

Neste cenário, o prémio do controle da distribuição do gás natural no sudeste europeu suplantaria em muito a diminuição da influência russa na formação do preço.

O jogo ainda está muito longe do seu término. Mas até agora os russos estão a jogá-lo com mestria. A Gazprom pode-se dar ao luxo de esperar pacientemente, ficando a Alemanha única responsável pelo sacrifício no altar do povo cipriota. E aí a Rússia entrará como a benévola redentora, dominando uma reserva de gás que constitui 40% do consumo europeu.