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Expresso

Do outro mundo

Padres acusam cardeal de abuso sexual há décadas. Cardeal resigna. "Foi o lobby gay", dizem alguns

Luis M. Faria

Visto de fora, o script parece familiar. Na véspera de partir para o conclave que vai eleger o novo papa, um alto dignatário da Igreja Católica é acusado de assédio/abuso sexual. Os acusadores são padres. Os factos terão ocorrido há décadas, quando eles eram jovens e se encontravam sob a direção do referido eclesiástico, então seu 'director espiritual'. 

Aqui o script diverge da familiaridade. Porque no caso de que agora falamos, o facto de as vítimas serem adultas à data dos acontecimentos e de ter passado muito tempo não impediu que se desse fé ao que afirmavam. O dignatário demitiu-se, reconheceu que o seu comportamento sexual "esteve abaixo dos padrões que se esperavam de mim", e aceitou a ordem de viver o resto dos seus dias como "eremita" - embora não numa caverna, imagina-se.

Para restituir à história algo do seu tom familiar, note-se que, embora o cardeal Keith O'Brien - o mais alto representante da Igreja Católica no Reino Unido até há três semanas - tenha admitido culpa, isso não impede os seus defensores de alegarem que todo o caso teria sido fabricado por um 'lobby gay'. Noutro país onde houve um caso vagamente semelhante (onde terá sido?) falou-se numa aliança de padres e políticos de uma região conhecida pela sua especial assertividade. Já no Reino Unido, o lobby seriam sobretudo os padres acusadores.   

Pelo menos um destes padres anda há muitos anos em terapia por causa do que sofreu. Outro, entretanto passado à vida civil,  indicou uma pessoa que achou graça à teoria do lobby: a mulher que vive com ele há 26 anos.